domingo, 24 de maio de 2009

Somos todos devedores



As estatísticas revelam o fato de que uma alta porcentagem da população brasileira tem dívidas contratadas para adquirir algum bem material. A maioria das pessoas paga parcelas da dívida sem falhar. As penalidades impostas convencem aos devedores de que é melhor pagar as prestações em dia do que sofrer as conseqüências da irresponsabilidade.

Mas há dívidas que não pesam porque os devedores não assinaram qualquer contrato ou compromisso com os credores. Será que Filemom reconheceu que ele devia sua própria vida a Paulo (Fm 19)? Será que o sacerdote e o levita acharam que eram devedores quando passaram ao largo do viajante ferido que caíra nas mãos de assaltantes (Lc 10.30,31)? Será que o rico sentiu algum peso por dever algo para o mendigo Lázaro, que aguardava alguma migalha jogada da mesa?


Podemos lembrar múltiplos débitos”, diz Charles Gore. “O solitário a quem poderíamos visitar, o mal compreendido com quem poderíamos ser solidários, o ignorante a quem poderíamos ensinar. Não é desconcertante tentar imaginar nossas dívidas? E, contudo, deixe um homem tomar a iniciativa e tudo ficará bem. Deixe-o calmamente decidir agir em relação àqueles que ele emprega, ou àqueles que o empregam, em direção ao porteiro da estrada de ferro e aos assistentes de lojas e outros que ajudam em sua comodidade, como homens e mulheres com o mesmo direito de receber tratamento cortês...” (Refrigério para a Alma, Shedd Publicações).


É fácil se equivocar ao lembrar a dívida de Paulo para com os gregos, sábios, bárbaros e ignorantes (Rm 1.14), imaginando que receber o presente da salvação nos faz devedores de Cristo, que pagou o preço de valor infinito na cruz para cancelar nossa dívida.


Porém, não é bem assim. A salvação pela graça não é dívida devida a Deus! Se fosse assim, não seria fruto da graça. Graça não cria dívidas nas pessoas que se beneficiam da oferta de escapar do castigo do inferno e gozar do imerecido privilégio de gozar da herança celestial.


Mesmo assim, Paulo reconhecia uma dívida pesada. Todos nós temos esta dívida também. Somos devedores dos que perambulam no lado de fora das nossas igrejas, dos que não têm filiação na família de Deus por ignorarem o direito que lhes cabe de participar do banquete do Rei na história de Jesus. O Rei disse aos seus servos: “O banquete está pronto... vão às esquinas e convidem para o banquete todos os que vocês encontrarem” (Mt 22.8,9).


Os que sem qualquer mérito ou direito foram agraciados pelo convite para prestigiar o banquete do paraíso têm uma dívida que pode ser saldada pelo convite insistente aos que ignoram a grandiosa oportunidade de participar na festa gloriosa da vida eterna.


CONCLUSÃO


A exortação “Não devam nada a ninguém, a não ser o amor uns pelos outros” não desmente as outras declarações de Paulo sobre dívidas. O amor que devemos aos cristãos e não cristãos se torna prático e visível tanto no testemunho como em ações abençoadoras.


O propósito que Deus revelou em sua Palavra para o seu povo na frase que nos constrange a fazer boas obras (Ef 2.10) cabe aqui. Mas ações são boas somente quando motivadas pelo amor. O privilégio de participar da nova criação implica no pagamento desta dívida através do servir aos irmãos em amor e aos amigos como se devêssemos a eles trato carinhoso. Assim saldamos nossa dívida com ambos. Obedecer ao segundo grande mandamento cumpre este dever para com a família de Deus e a sociedade.


Paulo declara que o peso da dívida que sentia para com os de fora poderia ser saldada com a pregação das Boas Novas de Cristo. Para pagar sua dívida, não importava sofrer, receber açoites, passar por todo tipo de perigo, prisões e finalmente ser decapitado em Roma.


Acredito que ele foi um excelente pagador. E nós? Será que Deus não ama os ribeirinhos, os marginalizados, os presidiários, os famintos, tanto quanto ama a cada um de nós? O que estamos fazendo para sermos imitadores do excelente pagador que Paulo era? Temos levado as Boas Novas de Cristo a todos de forma indiscriminada?


*Russel Shedd / Atualmente, Shedd é Presidente Emeríto da Vida Nova e consultor da Shedd Publicações e viaja pelo Brasil e exterior ministrando em conferências, igrejas, seminários e faculdades de Teologia.

domingo, 26 de abril de 2009

Viajando com Wesley


Fiz uma viagem de dez dias pela Grã-Bretanha para promover um livro recente. Para minhas leituras matinais, levei comigo o “Diário”, de John Wesley, do incansável evangelista. Em algumas manhãs, eu li a jornada de Wesley a uma cidade como Bristol ou Dudley, que eu iria visitar naquela mesma tarde. Nossa, que diferença!

Eu viajava em um carro confortável e falava para uma audiência amigável em eventos pagos. John Wesley viajava a cavalo, debaixo de chuva e neve, falava quatro ou cinco vezes por dia para grandes audiências em locais abertos e enfrentava oponentes que freqüentemente o recebiam com palavras profanas e pedras.

Terminei de ler o diário de Wesley, impressionado com sua resistência física, seu estilo de vida austero e sua dedicação absoluta aos grupos de crentes espalhados por toda a Grã-Bretanha. Mas não pude deixar de perceber a falta de apreciação que Wesley tinha pelas belezas e riquezas culturais que abundam nessa nação.

Ao notar um lindo jardim de flores, ele rapidamente falou: “O que pode encantar sempre, senão o conhecimento e o amor de Deus?” Visitando uma das grandes casas históricas da Inglaterra, notou: “Não demorará muito para que esta casa, sim, e toda a terra sejam queimados!” E depois de se maravilhar com os talentos de um organista cego, acrescentou: “Mas de que adianta ser melhor em tudo isso, se ainda estiver ‘sem o Deus do mundo?’”


Nem mesmo o British Museum deixou nele uma boa impressão. Diante de uma coleção extraordinária, Wesley escreveu: “Mas que explicação um homem dará ao juiz dos vivos e dos mortos por uma vida gasta colecionando todas essas coisas?”

Resumindo, Wesley via a graça comum da beleza e da cultura com uma atitude que se aproximava do desdém. Mais de uma vez escrevi nas margens do livro: “Relaxa, John”! (Só que pelos padrões dos ascetas que viviam em cima de postes e comiam apenas pão e água, John Wesley era um esteta [um apreciador das coisas belas da vida].)


Pouco antes, eu tinha lido a penetrante parábola de Anthony de Mello sobre um grupo de pessoas viajando por um glorioso interior em um ônibus com cortinas cobrindo todas as janelas. Focadas no destino, perderam todas as maravilhas do lado de fora e ficaram brigando pelos melhores bancos.

Um dos maiores desafios como cristãos é organizar nossos desejos, de modo a manter equilíbrio apropriado entre nossos interesses por este mundo e pelo próximo. Como gostar desta vida com as dádivas da arte, da beleza, da música e do amor e, ao mesmo tempo, servir os pobres e guardar tesouros para o reino que virá?

A Igreja não está sozinha nessa luta para encontrar um equilíbrio. Em outros lugares, o hinduísmo, o islamismo e o budismo, como todas as religiões, têm seitas que matam de fome e torturam os corpos para alcançar mérito. Entretanto, aqueles que não têm nenhum interesse pela vida futura não são bons em organizar seus desejos (como o demonstram os milhões que lutam contra os vícios).

De maneira alguma quero depreciar John Wesley, que demonstrou o compromisso radical necessário para mudar o mundo. Ele viajou 650 quilômetros em transporte precário e pregou uns 40 mil sermões, acendendo o fogo do reavivamento na Europa e nos Estados Unidos, fogo que queimou por séculos. Ele literalmente pegou a ordem de Jesus de “não guardar para si os tesouros da terra”.

Wesley, certa vez, falou sobre o perigo da riqueza: “Temo que onde a riqueza aumentar, a essência da religião cairá na mesma proporção. Assim, de forma natural, não vejo como um reavivamento da religião possa continuar por muito tempo. Porque a religião deve produzir, ao mesmo tempo, esforço e frugalidade, que não produzem riqueza. Ao mesmo tempo em que a riqueza aumenta, aumentam também o orgulho, a raiva e o amor pelas coisas do mundo”.

Bebericando um chá, certa tarde, com um próspero líder cristão em uma amável igreja inglesa, aprendi que, se a tendência atual continuar, não haverá mais metodistas na Inglaterra em 30 anos. Meus pensamentos se voltaram para meu próprio país, o mais rico do mundo, e, ainda, pelo menos até agora, um dos mais religiosos. O que os historiadores aprenderão sobre a Igreja americana atual daqui a 200 anos?


Uma citação de G. K. Chesterton veio à minha mente: “É sempre simples cair: há uma infinidade de ângulos para se cair, mas apenas um para se levantar”.


Philip Yancey / é um escritor e jornalista cristão americano. Seus livros venderam mais de 14 milhões de cópias, desde a sua estréia em 1977 e são lidos em 25 idiomas pelo mundo todo, fazendo dele um dos mais vendidos autores cristãos. Premiado duas vezes com o "Melhor livro do ano" pela ECPA, além de outros prêmios, Yancey colabora com a revista Christianity Today, como editor associado.

domingo, 12 de abril de 2009

Igreja local


Nos últimos três anos, tenho repetido que creio que Deus está preparando a igreja para outra reforma. A primeira reforma pôs o foco no que a igreja cria; agora o foco estará no que ela faz.

Temos separado por muito tempo a Palavra de Deus da obra de Deus. Como igreja, somos chamados para ser o corpo de Cristo – o corpo todo. Não somos chamados para ser apenas a boca de Cristo, mas os pés e as mãos também.

Toda vez que acontece uma reforma, seis renovações a antecedem. O despertamento e a reforma da igreja global começarão com igrejas como as nossas. Os seis passos listados abaixo precederão este movimento em nossas igrejas.
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1. Renovação pessoal: Ela começa com o coração. Se Deus for renovar sua igreja, ele começará com a sua e depois continuará com o resto da igreja. Desafie sua igreja à renovação da sua vida e a estar cheia do Espírito. Eis o divisor de águas: você precisa amar a Jesus novamente. Sua vida não tem nada a ver com religião e rituais, mas com um relacionamento com Jesus. Você sabe que Jesus não apenas ama você, ele gosta de você.

2. Renovação relacional: Depois que você fica legal com Deus, você precisa se acertar com os outros. Foi Jesus quem nos disse isso. Ele nos convidou a amar a Deus de todo o nosso coração e também amar os outros como a nós mesmos. Quando você tem uma renovação relacional na igreja, a fofoca desaparece e a alegria se levanta. Como saber que a igreja está experimentando uma renovação relacional? As pessoas não saem correndo do culto. Querem passar tempo juntas. Se as pessoas não querem sair voando do culto, você tem um show, não uma igreja. A igreja é mais que diversão: é uma comunidade.

3. Renovação missiológica: Isso acontece quando uma igreja descobre o que Deus quer dela. Temos um compromisso com o reino. Não estamos aqui apenas para abençoar uns aos outros. Deus quer abençoar o mundo por nosso intermédio. Deus deu à igreja cinco propósitos: adoração, comunhão, discipulado, ministério e evangelização. A renovação missiológica acontece quando centramos a igreja nesses propósitos. Quando sua igreja conseguir uma renovação pessoal, relacional e missiológica, ela vai crescer.

4. Renovação cultural: Nesse estágio, Deus renova a cultura da igreja. Conheço pastores que têm tentado mudar a cultura da igreja sem passar pelas três renovações anteriores. Há uma palavra para isto: martírio. Você não pode mudar a cultura da igreja. Só Deus. No entanto, uma vez terem acontecido as três renovações anteriores, Deus agirá na questão cultural de sua igreja.

5. Renovação estrutural: Depois que sua igreja passou pelas quatro primeiras renovações, começa a renovação da estrutura. É líquido e certo. Aconteceu em nossa igreja. A estrutura que funciona para uma igreja de 100 membros não funciona para uma de 250 e assim por diante. Não há estrutura perfeita na Bíblia. Por quê? Cada situação é diferente. Precisamos estruturar nossas igrejas em função das circunstâncias. Mudamos as estruturas todo ano em nossa igreja. Você não pode pôr vinho novo em odres velhos. Tão logo sua igreja começa a ficar saudável, sua estrutura tem que mudar.

6. Há uma sexta renovação, mas ela não acontece na igreja local. A renovação institucional acontece quando as instituições cristãs mudam. Instituições como seminários e denominações são as últimas a mudar; elas nunca começam o processo de mudança. A mudança sempre acontece primeiro na igreja local. As instituições existem para preservar a mudança para a próxima geração. Olhe para uma árvore. Seu crescimento nunca acontece no tronco. É sempre nos galhos. As instituições são como troncos. Elas garantem a estabilidade, não a inovação.

Há um grande despertamento espiritual no horizonte. Sua igreja será parte dele? Conscientize-se desses seis estágios da renovação. Como pastor, Deus o chamou como um catalisador da mudança em sua igreja. Você não pode fazer isto sem que sua igreja esteja nesta jornada.
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*Rick Warren / Pastor e fundador da Saddle Back Church na Califórnia e autor do best-seller Uma Vida com Propósitos, que pré-vendeu 500 mil cópias antes de ser lançado.

sábado, 28 de março de 2009

Bíblia antiga, teologia liberal?


Nas últimas décadas têm surgido diversas traduções contemporâneas da Bíblia em diversas línguas do mundo. A principal razão dessa empreitada mundial é a necessidade de comunicar as Escrituras de modo claro e inequívoco. Uma das versões estrangeiras que tem chamado a atenção pela qualidade de seu trabalho é The Message (A Mensagem), elaborada por Eugene Peterson. Em português, novas versões têm tido impacto na vida eclesiástica nacional. Almeida Atualizada 2ª Edição, Nova Tradução na Linguagem de Hoje, Nova Versão Internacional e Versão Almeida Século 21 representam alguns dos principais esforços de tradução recentes das Escrituras. O impressionante é que até a Igreja Católica Romana, conhecida por sua resistência histórica de entregar ao povo comum a Bíblia no vernáculo, hoje tem publicado versões contemporâneas e técnicas: Nova Bíblia de Jerusalém, Bíblia do Peregrino, Bíblia Vozes, Bíblia Pastoral, etc.
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Todavia, a produção de muitas versões novas e revisadas tem, às vezes, sido vista de maneira pouco simpática. Alguns por falta de conhecimento ou por má interpretação têm sugerido que esses esforços de tradução contemporâneos são negativos e rompem com a boa teologia histórica da Igreja Cristã. Essa resistência aparece em alguns círculos evangélicos que entendem que as versões bíblicas bem antigas são a única alternativa para as igrejas cristãs evangélicas. De certa forma, essa tendência é um reflexo menor do que acontece no ambiente norte-americano com a Versão King James. Na verdade, trata-se de uma versão posterior à Reforma. Todos sabem que nem Lutero, nem Calvino usaram a King James Version, que só surgiu em 1611. A versão inglesa foi patrocinada pelo rei Jaime, cuja conduta pessoal foi muito questionada, e passou por muitas revisões e correções, mas mesmo assim tornou-se para muitos evangélicos americanos mais valiosa do que os próprios textos originais.
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Geralmente, quando se questiona a validade das novas versões, o critério apresentado pelos que defendem versões mais antigas é teológico. Muitos dizem que as novas versões excluíram textos inspirados, negando doutrinas fundamentais da fé. A idéia equivocada é que as novas versões têm o interesse de diluir a fé cristã ortodoxa histórica e fundamentada na autoridade da Palavra de Deus. A grande verdade é que as diferenças de tradução das versões bíblicas existem por causa da época em que foram elaboradas, do nível de linguagem que utilizam, dos manuscritos disponíveis para a consulta, dos instrumentos lingüísticos utilizados e da filosofia de tradução. As diferenças de manuscritos são motivo de maior debate para muitos defensores das versões mais antigas. Na verdade, essa diferença existe pelo fato de muitos manuscritos do Novo Testamento terem sido descobertos nos últimos séculos. Isso levou diversos estudiosos a fazerem uma avaliação destes manuscritos, o que trouxe algumas mudanças em alguns textos bíblicos. No fundo, tais mudanças não mudam em nada a fé cristã. A maior diferença entre o texto das versões antigas e das versões mais recentes é Cristo Jesus em vez de Jesus Cristo. A semelhança dos textos ultrapassa 95%. Todavia, para os leigos, a questão torna-se polêmica, pois o argumento contra as versões mais recentes é “teológico”. Afirma-se que elas mudaram textos fundamentais com a intenção de desacreditar doutrinas essenciais.
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Neste artigo vamos mostrar que se o mesmo argumento for usado contra as versões mais antigas, elas também poderão ser classificadas como “pervertedoras da fé”.
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O primeiro texto que merece ser citado é Atos 4:25. As versões mais recentes acompanham a NVI: “Tu falaste pelo Espírito Santo por boca do teu servo, nosso pai Davi.” Já a versão corrigida antiga “omite” o Espírito Santo, e diz: “Que disseste pela boca de Davi”. Por que isso acontece? Será que o tradutor não cria na inspiração da Bíblia? Ou talvez negasse a inspiração pela ação do Espírito Santo? Por que “excluir” o Espírito Santo num texto messiânico tão importante? Como diz a linguagem popular: “Aí tem!” Na verdade, nem a versão bíblica antiga nem os tradutores negam as verdades bíblicas. O fato é que nesse versículo o texto dos manuscritos encontrados mais recentes traz a referência direta ao Espírito Santo. Em outros textos, as versões mais antigas vão confirmar que crêem na inspiração das Escrituras e no Espírito Santo.
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Um outro exemplo interessante está em Judas 25. Compare as versões: "Ao único Deus, nosso Salvador, sejam glória, majestade, poder e autoridade, mediante Jesus Cristo, nosso Senhor, antes de todos os tempos, agora e para todo o sempre! Amém!" Aqui está o texto da NVI, acompanhado por todas as versões, exceto pela versão corrigida, que traz:“25 Ao único Deus sábio, Salvador nosso, seja glória e majestade, domínio e poder, agora, e para todo o sempre. Amém” (Corrigida Fiel). Como se pode ver, na versão corrigida “omite-se” Jesus Cristo, nosso Senhor, e antes de todos os tempos. O que se poderia concluir disso? Será que eles têm outro Senhor que não é Jesus? Este Senhor não existe “antes de todos os tempos”? Seria uma versão herética e demoníaca? Podemos julgá-la plenamente por esse versículo? Conforme já demonstramos, é claro que não.
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Além dos problemas de manuscritos poderíamos citar inúmeros versículos que “provam” a ilegitimidade doutrinária das versões mais antigas. Poderíamos dizer que elas talvez tivessem uma agenda homossexual, pois em Levítico 13:29 afirmam que “mulher tem barba”. Alguém poderia imaginar que elas induzem à prática do pecado, pois em Tiago 1:2, o texto diz: “Meus irmãos, tende grande gozo quando cairdes em várias tentações”. Poderíamos dizer que seus tradutores e revisores são deístas, pois em Romanos 8:28 traduzem “…todas as coisas contribuem juntamente para o bem dos que amam a Deus”, em vez de seguir manuscritos que afirmam que “Deus age em todas as coisas para o bem daqueles que o amam”.
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Como podemos observar, todas as versões bíblicas têm seus méritos e imperfeições. A questão deve ser tratada do ponto de vista técnico e objetivo. Nenhuma versão pode ser classificada teologicamente a partir de um exame superficial e frágil. É muito importante entender que devemos avaliar todas as versões a partir de vários critérios e escolher a que se mostrar mais fiel e adequada para comunicar a mensagem de Deus. Todavia, devemos lidar com a questão com prudência, respeito e bom senso.
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Afinal de contas, como diz a Bíblia: “36 Mas eu vos digo que de toda a palavra ociosa [frívola/inútil] que os homens disserem hão de dar conta no dia do juízo. 37 Porque por tuas palavras serás justificado, e por tuas palavras serás condenado” (Mateus 12:36-37).
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*Luiz Sayão / Teólogo, hebraísta, escritos e tradutor da Bíblia. É também professor da Faculdade Batista de São Paulo, do Seminário Servo de Cristo e professor visitante do Gordon-Conwell Seminary.

domingo, 8 de março de 2009

Igrejas infectadas


Aos 25 anos de idade, depois de várias febres, muita rouquidão e um péssimo hálito, dei o braço a torcer e aceitei que o médico operasse as minhas amídalas. Resisti o quanto pude porque sabia que as amídalas existem para proteger as vias respiratórias. Contudo, o médico conseguiu me convencer de que as minhas estavam imprestáveis; tão infectadas que já não protegiam, mas contaminavam o resto do organismo. Só restava uma opção: arrancá-las fora. A partir daquele dia, aprendi que um órgão – qualquer um – pode perder a sua função original e passar a atacar o corpo.
Nas relações humanas e sociais acontece o mesmo. Quando se perdem as finalidades originais, morrem casamentos, empresas, igrejas. Serve o exemplo da família: pai e mãe devem oferecer um ambiente em que os filhos aprendam a ter confiança, segurança, dignidade. Mas quando acontecem muitas brigas com ódio, quando falta paz, aquela família perde a função de fomentar auto-estima e segurança. Assim, deixa de ajudar e passa a desajustar as crianças.

As religiões também podem virar amídalas infectadas. Bastar ver na história. Inúmeras igrejas criaram ambientes doentios e desumanizadores, quando deviam ser espaços de humanização. Devido ao meu site (www.ricardogondim.com.br), recebo milhares de mensagens sobre assuntos variados; a grande maioria, entretanto, pede ajuda. Muitos não suportam os sermões vazios com promessas mirabolantes e ameaças de maldição. Entristeço, mas fica óbvio para mim que as lógicas e práticas da igreja evangélica não conseguem responder às complexidades do século 21. Os espaços evangélicos estão febris.

É preciso detectar, rapidamente, onde a infecção se tornou aguda para combatê-la com doses maciças de antibióticos espirituais e éticos; com um bom diagnóstico, não será preciso operar o foco da contaminação e ainda preservar o organismo.
Estão infectadas as igrejas que priorizam programas, e não relacionamentos. Jesus não tratou a “Igreja” como uma instituição, mas como uma comunidade. Igreja são mulheres e homens com um estilo de vida nobre, verdadeiro, que inspiram os outros a glorificar a Deus. Portanto, para o seu eterno propósito dar certo, Jesus não precisa de eventos sofisticados, basta que seus seguidores amem-se uns aos outros.

Estão infectadas as igrejas que priorizam poder, e não serviço. Nas Escrituras, poder só tem sentido quando mobiliza para a solidariedade, compaixão, humildade. A busca do poder pelo poder é luciferiana em sua essência. Jesus criou o mundo, mas se esvaziou, encarnou e morreu numa cruz. Os cristãos não almejam tronos, mas bacia e toalha para lavar os pés alheios. Sem esperar aplausos, sentem-se privilegiados em servir.

Estão infectadas as igrejas que priorizam espetáculo e não discrição. Jesus ensinou que não se devem cobiçar os primeiros lugares; considerou que a autêntica piedade acontece num quarto de portas fechadas; falou que a mão esquerda não deve conhecer o que a direita oferece. Quando Jesus ressuscitou uma menina, respeitou a privacidade da família e não deixou que estranhos entrassem para testemunhar o milagre. Sobram exemplos de seu recato. Certamente, Jesus não se agrada de saber que alguns tentam transformar a fé num show.

Estão infectadas as igrejas que priorizam milagre, e não coragem existencial. Paulo considerou tudo como esterco pela excelência do conhecimento de Cristo – esse, somente esse, deve ser o alvo da espiritualidade cristã. Não se cultua a Deus para descobrir um jeito certo de “alcançar milagre” ou para ter uma fé mais “eficiente”. No culto, celebra-se o amor gratuito e unilateral de Deus. O Evangelho é boa notícia porque todos são aceitos sem exigências. Deus quer bem sem fazer distinção; não se ganha o favor de Deus com obras. Graça é o chão onde todos podem alicerçar a vida com liberdade e sem culpa. O cristão não precisa que Deus conserte as dificuldades da vida, basta a sua companhia.

O Apocalipse foi taxativo com uma igreja infectada: “Lembre-se de onde caiu! Arrependa-se... Se não se arrepender, virei a você e tirarei o seu candelabro do lugar dele”. Nunca os evangélicos precisaram ouvir tanto esta exortação como agora.
*Ricardo Gondim

domingo, 1 de março de 2009

Tome sua cruz

A conhecida frase “Tome sua cruz” faz parte de um conjunto de normas que Jesus ensinou aos seus seguidores. Lucas relata que Jesus dizia a todos: “Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e siga-me” (9.23, NVI).

Para ser um amigo, seguidor de Jesus, há pelo menos quatro exigências. Primeira, querer acompanhá-lo. Deus não nos força a andar nos passos do seu Filho. Basta desejar ser um amigo chegado de Jesus. Segundo, negar a si mesmo. O “eu” que se entronizou no centro de comando da minha vida, desde que tomei consciência de que sou uma pessoa distinta das outras, tem de ser decisivamente destituído desse domínio. Devo negar o “eu” por meio de uma decisão definida e radical. Paulo podia dizer aos Gálatas, após essa negação definitiva de si mesmo: “Não vivo mais eu, mas Cristo vive em mim”. Não declara a impecabilidade do apóstolo, mas a entrega do comando sobre sua vida ao Senhor Jesus.

O terceiro passo requer a tomada diária da minha cruz. Incluem aqui aceitar de boa vontade todas as aflições e responsabilidades que em minha carne repudiaria. A cruz refere-se ao conjunto de circunstâncias que fazem parte da minha vida. Em si, não me agradam nem as escolheria, mas Deus soberanamente as impôs sobre mim. Posso aceitar esse peso ou procurar escapar dele.

E.B. Pusey escreveu muitas décadas atrás: “Falamos das cruzes da vida diária e esquecemos que nossa linguagem testemunha contra nós. É preciso muita mansidão. Devemos suportá-las nos passos abençoados do nosso santo Senhor, e não devemos apenas nos sujeitar em cada cruz e inquietação, mas pegá-las com alegria – não apenas com alegria, mas com júbilo, sim, se elas até merecem o nome de tribulação; alegre-se em tribulação também, pois vemos nelas as mãos de nosso Pai, a cruz de nosso Salvador” (Refrigério para a Alma, Shedd Publicações, 2005, p. 218).

Somos o aroma de Cristo que se espalha por toda a parte, segundo Paulo, uma vez que somos conduzidos nEle em triunfo sempre (2 Co 2.14). Essa fragrância somente pode ser o cheiro do sacrifício de Cristo que emanou da sua cruz. Cristo se entregou por nós como oferta e sacrifício de aroma agradável a Deus (Ef 5.2). Quem vive muito próximo dEle também ganha o cheiro daquEle que se entregou voluntariamente por nós à vergonha e à agonia da cruz do Calvário.

A quarta exigência é seguir a Jesus, andar nos seus passos. Uma vez que a cruz, firme e constantemente, se torna parte de minha pessoa (Paulo declarou sua crucificação com Cristo no tempo perfeito, corretamente traduzida – “estou crucificado com Cristo”), não vivo mais eu, mas Cristo vive em mim. O “estilo” de Jesus torna-se parte integral da pessoa do seu seguidor, Paulo. Este, por sua parte, não achou demais convidar seu filho na fé a imitá-lo, como ele imitava a Cristo.

Parece-me que a maioria das conversões dos nossos dias é do tipo light! Omitem os passos que Jesus colocou em sua lista. Em vez de negarem-se a si mesmos, hoje é mais comum afirmarem-se a si mesmos. Em lugar de tomarem a cruz, freqüentemente encontramos “crentes” que se afastam da cruz e tentam escapar das responsabilidades desagradáveis. Em vez de pisarem firmemente nos passos de Jesus, tomam um caminho tortuoso. Desviam-se do santo caminho que o Senhor trilhou.

O jugo de Jesus tem pouco peso para os que querem abandonar o esforço da vontade humana para ser uma “encarnação” de Cristo. Para os cansados e sobrecarregados que desejam seguir ao Mestre com paixão, que em definitivo se negam a si mesmos, tomando suas cruzes diariamente com gratidão e alegria, descobrirão que esse fardo é realmente leve. Suas almas descansam na comunhão com seu Senhor. Suas vidas refletem a luz celestial dos que vivem mais próximos do seu Senhor, como Moisés na presença de Deus no cume do Monte Sinai. O bom perfume de Cristo os acompanha aonde quer que andem.

*Russel Shedd / é um conceituado teólogo evangélico e missionário da Missão Batista Conservadora no Sul do Brasil. Shedd é Presidente Emeríto da Vida Nova e consultor da Shedd Publicações e viaja pelo Brasil e exterior ministrando em conferências, igrejas, seminários e faculdades de Teologia.

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Liderança capacitadora

Não raramente, membros ativos e pastores querem saber qual seria o segredo do crescimento da igreja. Haveria uma vitamina, algum plano de ação, que estimule rápido crescimento?

Respostas variam: use os métodos da igreja com propósitos, implante a rede ministerial, ore mais, evangelize mais, conheça melhor seu bairro, descubra as necessidades do povo para procurar supri-las. Há inúmeras propostas para se alcançar mais pessoas e aumentar o rol de membros. Todas as sugestões são valiosas.

Uma pesquisa feita sob a orientação de Christian Schwarz, há mais de uma década, em mil igrejas de várias denominações de 32 países, revelou que há pelo menos oito princípios ou marcas de qualidade que regulam o crescimento da igreja.

1. Liderança capacitadora.

2. Ministérios orientados pelos dons.

3. Espiritualidade contagiante.

4. Estruturas funcionais.

5. Culto inspirador.

6. Grupos familiares.

7. Evangelização orientada para as necessidades.

8. Relacionamentos marcados por amor fraternal. (Veja o livro "O Desenvolvimento Natural da Igreja", Editora Evangélica Esperança, 2003).

Liderança capacitadora, sendo o primeiro item da lista, tem um significado especial. O Senhor Jesus prometeu a Pedro edificar sua igreja “sobre esta pedra e as portas do Hades não poderão vencê-la. Eu lhe darei as chaves do Reino dos céus...”. No dia de Pentecostes, Pedro pregou poderosamente, ungido pelo Espírito Santo. Milhares de pessoas se converteram, foram batizadas e incorporadas à igreja nascente.

Como se explica a habilidade de Pedro, um simples pescador, em pregar poderosamente sem escolaridade ou curso especializado? Mesmo considerando que ele foi cheio do Espírito, não devemos descartar a liderança natural que possuía. Pedro mostrou, durante os anos passados na companhia de Jesus, que não era tímido ou retraído e tinha boa memória.

Um líder é uma pessoa que consegue alcançar propósitos por meio de outras pessoas. Tem a habilidade de controlar, manejar e motivar outros indivíduos. Ainda que levemos em conta a herança genética de Pedro, o dado marcante foi que ele passou muitas horas com Jesus. Foi este fator que chamou a atenção das autoridades judaicas. Lucas relata que “percebendo que [Pedro e João] eram homens comuns e sem instrução, ficaram admirados e reconheceram que eles haviam estado com Jesus” (At 4.13).

O treinamento que Jesus transmitiu aos seus discípulos foi capacitador e incluía conhecimento cognitivo.

O Sermão do Monte foi apenas um exemplo da maneira como ensinou, usando as interpretações típicas dos fariseus e escribas, lançando luz nova sobre Deus e sua revelação. A mentoria de Jesus foi visual. Os milagres mostraram claramente que Ele não era um mágico. Cada vez que trazia de volta um defunto, repreendia os ventos de uma tempestade ou recriava pão para uma multidão de famintos, mostrava sua filiação.

Quando Pedro passou a ministrar, não ficou intimidado pelas autoridades que o ameaçavam, mas curava doentes, repreendeu os pecados de Ananias e Safira, trouxe Dorcas de volta da morte, dormiu tranqüilamente na prisão na véspera de sua decretada decapitação. Ele escreveu para cristãos perseguidos da Ásia Menor: “Se vocês suportam o sofrimento por terem feito o bem, isso é louvável diante de Deus. Para isso vocês foram chamados, pois também Cristo sofreu no lugar de vocês, deixando-lhes exemplo, para que sigam os seus passos” (1 Pe 2.20,21).

Em terceiro lugar, Pedro aprendeu com a prática. Juntamente com os outros discípulos, Jesus os enviou de dois em dois para pregar, expulsar demônios e anunciar a vinda do Reino. Aprenderam a viver pela fé, sem salários fixos ou promessas de sustento. Entenderam que a fé engloba plena confiança no Deus vivo que cumpre suas promessas.

Uma igreja que tem mentores e discipuladores como Jesus terá cristãos aprendizes. Não se limitará a doutrinar cristãos que manterão a doutrina da igreja. Equipará pessoas que iniciam e lideram ministérios com sabedoria e gratidão. Aparecerão pessoas com dons concedidos pelo Espírito. Essa igreja deverá crescer, a não ser que haja divisão com politicagem e rivalidade. E concordo com C. Schwarz: o desenvolvimento de uma igreja deve ser tão natural como o crescimento de uma criancinha.

*Russel Shedd.