terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Já não se fazem pastores como antigamente

Depois de 30 anos de ministério trabalhando em igrejas locais e numa grande denominação brasileira, mais 32 anos no exercício do magistério teológico, tenho refletido sobre o que dizem membros e líderes de muitas igrejas a respeito da atuação pastoral. E fico cada vez mais perplexo com o que presencio. Hoje, muitas ovelhas procuram ficar distantes de seu pastor por acreditarem que, ao se aproximarem do ministro, vão ouvir algum sermão ou receber uma tarefa. Aí, concluem que pastor só serve para dar bronca ou se aproveitar de mão de obra útil e barata disponível nas igrejas – e ainda pagam a conta no fim do mês, dando o seu dízimo.

Outras ovelhas demonstram estar cansadas de ver o narcisismo de seu pastor que, sempre cheio de si, faz elogiosas menções ao seu próprio nome sem qualquer vermelhidão na face. Mas há ainda casos em que o pastor, em vez de pastorear, cuidar do rebanho, acaba como que um verdadeiro gerente da congregação. Ele agenda eventos, determina prioridades e supervisiona todas as atividades do rebanho, como um verdadeiro executivo dos púlpitos. O controle é tão grande, e muitas vezes exercido com mão de ferro, que o que chamam “obra de Deus” passa a ser mais importante que o próprio Deus. Para estes, o cristianismo deixou de ser vida, para ser apenas trabalho maçante.


É possível também observar que muitos acabam agindo como despachantes do Senhor. Há pastores e líderes que acreditam piamente que apenas a sua oração é que tem acesso livre e desimpedido a Deus. Assim, tendem a transformar suas ovelhas em servos do ministério, em vez de levá-las a depender de Deus. E o que dizer dos pastores “showmen”, que tranformam o culto em espetáculo? Para estes, minúcias como a data de aniversário ou o problema familiar de um determinado fiel passam em brancas nuvens. Só se lembram da ovelha quando a vêem no culto.


Todavia, ser pastor é muito, muito mais do que isso. Pastorear é ter sede pela convivência; é cultivar relacionamentos; é interessar-se por saber como está cada ovelha – quais são seus dilemas, suas ansiedades, suas angústias e até mesmo suas falhas, para poder ajudá-la no aperfeiçoamento de vida. Ser pastor é acordar de madrugada para orar pelos membros da congregação, por suas famílias. Ser pastor é depender de Deus para conseguir levar a sobrecarga do ministério, é partilhar suas atividades com um grupo de discipuladores.


É, já não se fazem pastores como antigamente...

Lourenço Stelio Regaé teologo, educador e escritor.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Não quero ser o menor!

Ontem decidi não obedecer minha agenda. Por conta disso, fiquei em casa com minha mulher e as crianças. Fiz de tudo um pouco. Dei expediente pastoral e paterno ao mesmo tempo, pois é aqui que percebo a energia do texto em que Deus é simbolizado por uma galinha, quando disse: “Debaixo das minhas asas estareis seguros”. Meus filhos se alegraram com a segurança oferecida. E, é claro, também tive tempo para deixar um pouco de lado o obreiro, o pai, o profissional, para ser somente o marido-amigo.Depois que foram todos dormir, permaneci por mais um tempo na sala. Vivi aqueles momentos em que nossa mente está liberada para o inusitado, o novo. Deitado no divã da minha própria consciência, me surepreendi pensando naquele momento em que Jesus declarou para seus discípulos: “Quem quiser ser o maior, seja o menor de todos” (Mateus 20.26).

Pode até parecer loucura, mas após um bom período de reflexão cheguei à conclusão de que não quero ser o menor. Tenho visto no meio evangélico um grupo muito grande de pessoas que, por conta da necessidade de serem “o menor”, deixaram de sonhar com grandes projetos, de desejar melhores condições de vida e até mesmo de se preparar para assumir posições mais altas e de maior responsabilidade, seja na igreja ou na sociedade de um modo geral. Para muitos cristãos, ser “o menor” acabou se tornado um enclausuramento, um estilo de vida quase essênico. Afastaram-se de tudo e de todos, sem se dar conta de que estamos num mundo em constantes e profundas mudanças, e que exige o mesmo de nós.


No afã de ser esse “menor”, muitos se afastaram e outros criaram uma visão negativa em torno da busca do saber e da cultura. Afinal, dizem eles, “a letra mata”. Em relação ao mercado de trabalho, por exemplo, temos muitos servos de Deus frustrados, e outro desempregados – infelizmente, nem sempre por falta de vagas, e sim, de capacitação profissional. De certa maneira, no meio evangélico, isso é gerado pelo misticismo em torno da tal busca, sem fundamento bíblico, por ser “o menor”. Não! Definitivamente não quero ser esse menor. Quero ter o direito de desejar o melhor para minha vida, para minha família e também para o meu ministério. Espero ter a oportunidade de um aperfeiçoamento teológico e lingüístico em outro país, desenvolver uma visão cultural e espiritualmente relevante sobre a engrenagem que rege a vida humana. Um mestrado e doutorado, quem sabe.A percepção exata do que somos e do que podemos ser é o que realmente configura o foco da mensagem de Cristo naquele dia aos discípulos da Galiléia. Fomos chamados para servir alguma coisa a alguém. Esse é o chamado de Cristo. Fomos convocados para oferecer algo e não para vivermos no redemoinho da mediocridade. Deus sempre desejou o melhor para o homem, e por isso, não creio que Jesus estivesse convidando os discípulos a viver a “teologia da hiena”, tão bem expressa num desenho animado de minha infância, no qual o personagem repetia constantemente: “Oh, vida! Oh, céu! Oh, azar!” Esse parece ser o lema daqueles que buscam ser o “menor”, fora da interpretação correta das palavras do Mestre.


A proposta de Jesus era diferente desse evangelho oco, vazio e revestido de falsos sentimentos de humildade. Ser o menor, então, não é ver as coisas dando errado ou viver andando para trás. É na verdade o oposto disso. Ser o menor é dar-se a si mesmo em favor dos outros. Ser o menor é construir possibilidades de vida coletiva e não de afundamento social; é dar ao outro o que se tem alcançado no ser, e não privar-se de ser o que o outro, por situações adversas, não é.


Ser o menor é chegar o mais alto que conseguir, o mais longe que puder, sem contudo esquecer que, quando necessário, devemos descer e dar a mão ao que ficou embaixo, voltar atrás e levantar aquele que, por algum motivo, tenha caído, ou como disse o próprio Mestre: “Quem quiser ser servido, que sirva a todos”.


Quero ser o menor ao estilo apóstolo Paulo que, mesmo diante dos desafios, soube ser grande e ser servo. Quero ser o menor sob a perspectiva paulina, onde o ontem que foi ruim só será proveitoso mediante os acertos promovidos hoje, tornando possíveis as realizações propostas para o amanhã. O desafio não é ficar por baixo remoendo os erros e os fracassos, e sim, tirar lições proveitosas deles. Dar a volta por cima, como se diz. Ou como diria o próprio Paulo: “Esquecendo-me das coisas que para trás ficam, prossigo para o alvo da soberana vocação”.


Ser o menor, em última análise, consiste então em saber que devemos servir a todos indiscriminadamente. Isso equivale a ter o que oferecer e a quem oferecer, pois, do contrário, será impossível ser o menor sem ter a quem – ou ao quê – servir.


Roberto Santos é bacharel em teologia e pastor aspirante na Igreja Metodista Wesleyana .

domingo, 30 de dezembro de 2007

O Caminho da Sensatez

Como pastor, tenho observado que muitos cristãos vivem aprisionados e não gozam a liberdade em Cristo. São pessoas movidas por ansiedades, medos e inseguranças. Muitos carregam mágoas, culpas e ressentimentos. Por isso, não conseguem se relacionar livremente, nem com Deus, nem com o próximo. Jovens e adolescentes que são prisioneiros da aparência ou dominados pelas vontades e caprichos dos outros. Movem-se por impulsos sexuais e afetivos levianos e descomprometidos, ou são dependentes de drogas e bebidas.
Somos prisioneiros do passado por causa das nossas lembranças e memórias. E somos prisioneiros do futuro por causa das ansiedades. Em virtude disso, o presente torna-se vazio e cheio de tédio. A falta de significado intensifica a ansiedade e aumenta a vulnerabilidade a toda forma de manipulação emocional e religiosa, o que limita ainda mais a liberdade.

O apóstolo Paulo, grande mestre do ensino sobre a graça de Deus e da liberdade cristã, apresenta na sua carta aos gálatas, capítulo 3:1-5, cinco perguntas que descrevem seu coração perturbado diante do caminho absurdo que o povo de Deus havia tomado. Para ele, a ignorância daquilo que Cristo fez e a insensatez estavam levando muitos a viverem na mentira e na ilusão, ao invés de gozarem da vida abundante e liberta que Cristo lhes havia conquistado. As cinco perguntas de Paulo são um apelo à razão, ao bom senso e à lucidez para que, ao refletirem sobre elas, tais pessoas pudessem retornar ao caminho da liberdade.

A primeira pergunta nos coloca em contato com o evento mais importante da história da fé: “Ó gálatas insensatos! Quem os enfeitiçou? Não foi diante dos seus olhos que Jesus Cristo foi exposto como crucificado?” A cruz e a ressurreição são os eventos que garantem nossa liberdade. É o fato central em torno do qual todos os outros estão subordinados. A revelação do amor de Deus em Cristo Jesus, a forma como o pecado e a culpa foram resolvidos, a dádiva do “Espírito de adoção” que nos liberta do espírito da escravidão, tudo isto é central e fundamental para nos assegurar uma vida plena e verdadeira.A segunda pergunta aponta para a natureza da vida cristã: “Gostaria de saber apenas uma coisa: foi pela prática da lei que vocês receberam o Espírito, ou pela fé naquilo que ouviram?” O Espírito Santo é a presença de Deus em nós e entre nós, e também o que torna a vida cristã possível. Cristo não foi apenas um grande exemplo de vida que deve ser imitado; ele vive em nós pelo poder do Espírito Santo, numa união real que nos possibilita viver pelo poder da ressurreição. Cristãos sensatos permanecem atentos ao que Deus está fazendo em suas vidas e nas experiências que o Espírito proporciona. Por outro lado, crentes insensatos ignoram tudo isso, criam regras para a presença do Espírito Santo, insistem em que o cumprimento de tais normas é imprescindível para termos o Espírito de Deus. Acabam vivendo por espasmos espirituais ou ancorados na espiritualidade dos outros.

A terceira questão que Paulo levanta nos conduz ao caminho da maturidade. “Será que vocês são tão insensatos que, tendo começado pelo Espírito, querem agora se aperfeiçoar pelo esforço próprio?” O apóstolo nos apresenta um caminho que se inicia com a revelação de Cristo e que continua com a presença e o poder do Espírito Santo que derrama sobre nós o amor de Deus, possibilitando-nos a viver a vida cristã. Quanto entramos neste caminho, iniciamos o processo de libertação. O problema é que começamos bem, crendo no amor de Deus e em sua graça maravilhosa; mas depois continuamos usando recursos próprios do legalismo ou moralismo, da manipulação religiosa e da chantagem. Iniciamos com o amor e continuamos com o cinismo e a desconfiança. Paulo está dizendo: “Usem a cabeça!” O bom senso nos preserva de abandonar o Evangelho da graça.

A quarta pergunta conduz ao reconhecimento dos valores que nos asseguram a liberdade: “Será que foi inútil sofrerem tantas coisas?” O que Paulo está dizendo é queuma pessoa sensata tem valores e por isso sofre – mas isto não inibe, nem limita a liberdade, muito pelo contrário. Uma pessoa sensata sabe o que quer e o que é importante para ela, e assim persevera no caminho da liberdade. Por outro lado, aqueles que não têm valores acabam vivendo por impulsos, tornam-se prisioneiros das pressões dos outros. Como cristãos aprendemos que o amor, a paz, o domínio próprio, a misericórdia e a mansidão são valores fundamentais. Aprendemos que o corpo é o templo do Espírito Santo e que nossa mente não é nenhum depósito de lixo. Sabemos que o perdão é melhor que a vingança, e a justiça é o caminho para a santidade. Quando perdemos tais valores, ficamos reféns da propaganda e da ilusão. Perdemos a liberdade.

Por fim, a última pergunta reafirma tudo o que ele tem dito. “Aquele que lhes dá o seu Espírito e opera milagres entre vocês realiza estas coisas pela prática da lei ou pela fé com a qual receberam a palavra?” Quanto mais fiéis formos para com o Evangelho que recebemos, mais livres e verdadeiros seremos. O Evangelho nos revela a obra extraordinária da redenção de Jesus Cristo, nos coloca em comunhão com Deus e nos oferece seu Espírito que realiza os milagres da vida em nós. Esta é a realidade que nos envolve. Trocar esta realidade por outra é viver na insensatez.

O apelo de Paulo é simples e o que ele propõe é óbvio: Usem a cabeça! Pensem! Não sejam estúpidos! Vivam sensatamente! A ausência de liberdade para muitos cristãos hoje é fruto da ignorância para com as verdades redentoras e libertadoras em Cristo, da substituição da Palavra revelada por palavras vazias e sem propostas transformadoras. São milhares de irmãos e irmãs que perderam o juízo e se aventuraram por um caminho de manipulação, chantagem e ignorância espiritual e teológica. Desenvolveram uma espiritualidade tão adoecida quanto a teologia que abraçaram ou que lhes foi ensinada. Só que Paulo nos recomenda a volta para os fundamentos da fé cristã, pois são eles que nos oferecerão o caminho da sensatez e da liberdade.

Ricardo Barbosa de Souza é conferencista e pastor da Igreja Presbiteriana do Planalto/Brasilia

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

A tirania da felicidade

Vivemos hoje o que se poderia chamar “a tirania da felicidade”. Ser feliz virou uma obrigação. O consenso diz que a felicidade é o objetivo maior da humanidade. Pascal Bruckner, ensaísta francês, analisa que esse fenômeno ocorreu depois de 1968, “quando se fez uma revolução em nome do prazer”. Desde então, a felicidade, ainda segundo ele, é mais do que o dinheiro – “é a nova ostentação dos ricos. Eles estão na mídia e exibem seus carros de luxo, sua vida amorosa extraordinária, seu sucesso social, financeiro ou mesmo moral, quando colaboram com instituições beneficentes. A felicidade virou parte da comédia social.” Swami Adiswarananda, monge da Ordem Ramakrishna e dirigente do Ramakrishna-Vivekananda Center, de Nova Iorque, nos EUA, denuncia nossa sociedade dizendo que “as pessoas podem diferir em suas perspectivas políticas e religiosas, filosofias de vida, perfis psicológicos, cultura e raça, mas todos, sem exceção, querem ser felizes. A felicidade é a meta do pobre e do rico, do erudito e do ignorante, do santo e do pecador, do ateu e do crente, do ascético e do indulgente”. É por causa da felicidade que espirituais oram, trapaceiros trapaceiam, açambarcadores açambarcam, caridosos entregam-se à caridade, bêbados bebem, ladrões roubam e penitentes se arrependem. Almejando felicidade, uns se casam, outros se divorciam; alguns cometem suicídio e outros se tornam homicidas. E, no entanto, a perseguição à felicidade resulta numa tentativa caótica, absurda, infrutífera. Ninguém tem certeza de como alcançá-la. Nenhum ramo de estudo nos trouxe qualquer conhecimento a respeito do segredo da felicidade. A religião enfatiza a salvação e a filosofia, a busca da verdade. Os moralistas falam a respeito do dever e os psicólogos nos pedem que enfrentemos e convivamos com a infelicidade. Os cientistas pouco se importam com nossos sentimentos e os economistas dão valor tão-somente à riqueza. Nenhum deles se dedica ao problema da felicidade. Em busca da felicidade as pessoas freqüentemente se comportam de forma estranha. Alguns ficam felizes quando os outros estão felizes; alguns são felizes quando os outros são infelizes e existem até mesmo aqueles que são felizes quando eles próprios são infelizes. Uns têm esperança de comprar a felicidade; outros há que tentam usurpá-la do próximo. Há aqueles que buscam alcançar a felicidade através do domínio, pelo poder; outros, no apego às coisas. Desta forma, estamos todos, constantemente, perseguindo a felicidade ao invés de sermos felizes. Não admira, portanto, que nasçamos chorando, vivamos nos lamuriando e morramos frustrados. A sociedade contemporânea vive à luz de um único mandamento: “Serás feliz”, que traduzido é “buscarás estar satisfeito com tudo o tempo todo”. Este único mandamento se decompõe em três outros submandamentos. O primeiro é “eliminarás todo sofrimento”: negarás a dor; fugirás do desconforto; evitarás os fracassados; rejeitarás que não proporcionar prazer. O segundo submandamento é “satisfarás todos os teus desejos”: conquistarás o máximo; buscarás o prazer acima de tudo; não passarás vontade; correrás atrás de todos os teus sonhos; não te sacrificarás por nada nem ninguém. O último é “realizarás o pleno potencial”: serás sempre o melhor; viverás sempre apaixonado; terás filhos perfeitos; prosperarás sempre e andarás sobre as águas. Mas basta um pouco de bom senso para concluir que isto não é possível. Então o “mundo de Caras” propõe outro mandamento: “Construirás uma imagem de sucesso”. A felicidade conforme ostentada hoje nas revistas, novelas, talk-shows e programas de auditório é uma farsa. Colocando os pés no chão, encontramos o conceito judaico-cristão da bem-aventurança, a expressão bíblica que mais se aproxima do ideal contemporâneo de felicidade. As palavras usadas na Bíblia foram ashréi, no hebraico, e makarioi, em grego. Ashréi é a primeira palavra dos salmos 1 e 119, e também pronunciada por Jesus nas bem-aventuranças, que os lingüistas gostam de traduzir por “felizes”. André Chouraqui sugere outra compreensão. Explica que “ashréi repete-se 43 vezes na Bíblia hebraica. Esta exclamação (no plural), tem como radical ashar, que não evoca uma vaga felicidade de essência hedonista, mas implica uma retidão (yashar) do homem marchando na estrada sem obstáculos que leva em direção ao reino de Deus. Todos os dicionários etimológicos do hebraico bíblico dão como primeiro sentido ao radical ashar o de marchar; ser feliz é um sentido secundário e tardio. Will Ferguson, em seu romance Ser feliz, denuncia a insensatez de uma sociedade feliz, sem contradições e contrariedades. Conta a história de Edwin De Valu, que edita um best-seller de auto-ajuda e alastra uma praga devastadora pela humanidade: a felicidade. O romance é um primor, que desmascara a mitologia da realização pessoal e advoga a necessidade de aprendermos a conviver com a incompletude e as imperfeições inescapáveis à condição humana. Com um humor ímpar, Ferguson diz que “se, um dia, alguém escrevesse um livro de auto-ajuda que realmente funcionasse, que sanasse nossos infortúnios e eliminasse nossos maus hábitos, os resultados seriam catastróficos”. O primeiro passo na direção da felicidade é o desmascaramento dela mesma conforme proposta pela sociedade contemporânea. Nas palavras de Mário Quintana, a escolha de uma “felicidade realista”. Uma felicidade que não depende do lugar onde se chega, mas sim do jeito como se vai. Uma felicidade que seja capaz de conviver com a imperfeição, com a frustração, com castelos desmoronados, com desejos não satisfeitos. Uma felicidade mais simples e singela, e menos hollywoodiana. A felicidade da fraternidade, da solidariedade, do compromisso ético. A felicidade do romance, da vida em família, mesmo com todas as suas contradições. A felicidade dos amigos ao redor da mesa, do trabalho produtivo e do ócio criativo. A felicidade de aprender, crescer, mudar as coisas e mudar a si mesmo – deixar-se transformar. A felicidade de andar sempre, não desistir nunca, seguir a trilha que Jesus deixou e conduz ao Reino eterno.

Ed René Kivitzé escritor conferencista e pastor da Igreja Batista da Água Branca, em São Paulo

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

Mil dias que abalaram o mundo!

Há cem anos, durante os anos de 1906 a 1908, começou um movimento que mudaria a cara da fé cristã contemporânea. Em um antigo prédio da Rua Azusa, em Los Angeles, nos Estados Unidos, um grupo de crentes passou a ter experiências espirituais semelhantes àquelas narradas no livro de Atos dos Apóstolos. "Gritos estranhos e palavras que nenhum mortal em seu juízo normal pudesse entender.
Foi dessa forma que teve início, em Los Angeles, a mais recente seita religiosa. As reuniões acontecem em um prédio decadente da Rua Azusa, e os devotos de doutrinas estranhas praticam os ritos mais fanáticos, pregam as mais extravagantes teorias e se colocam em um estado de louca euforia quando se entregam ao fervor pessoal." Foi dessa forma que a edição de 18 de abril de 1906 do jornal Los Angeles Times apresentou aqueles acontecimentos. Mas nem mesmo toda a publicidade negativa seria capaz de impedir multidões de comparecerem ali. Durante cerca de mil dias, aquele antigo prédio de dois andares, construído para ser igreja, mas usado antes como estábulo, foi lugar de milagres, curas e operação de dons sobrenaturais, especialmente a glossolalia, o falar em outras línguas, as "línguas estranhas".
Nascia ali o moderno pentecostalismo, um sinal da iminente volta de Cristo, segundo seus participantes. Mas era apenas o começo. Em pouco tempo, logo se espalharia pelo mundo todo, "como fogo na seara" – para usar uma expressão tipicamente pentecostal. Um século depois, esse mover continua tão fascinante quanto foi no princípio.
Porém, ainda fica a pergunta: será que o movimento do século 21 ainda guarda a essência de seus primeiros tempos?
Mesmo após ter se espalhado pelos cinco continentes e mostrado suas virtudes, ainda há quem insista em desqualificar os pentecostais. Para muitos, inclusive o papa Bento XVI, assim como seu antecessor, João Paulo II, eles não passam de "seitas", que preocupam o Vaticano devido ao contínuo fluxo de fiéis católicos em sua direção. Pesquisadores e boa parte da intelligentzia preferem enxergar no movimento uma expressão fanática de gente pobre, que busca em suas manifestações um alívio ante as agruras da vida. Mas como explicar tamanho crescimento, inclusive nas classes sociais mais altas? E que outro movimento expressa melhor os ideais de alegria e dinamismo que Jesus prometeu aos seus seguidores? Mais de 600 milhões de pessoas em todo mundo crêem nisso, 24 milhões apenas no Brasil, segundo números do relatório World Christian Database, uma base de dados compilada a partir de uma pesquisa da organização Pew Fórum on Religion and Public Life, instituição norte-americana especializada em assuntos religiosos, mas que não tem ligação com qualquer igreja. Números que também colocam o Brasil como o maior país pentecostal do mundo e se tornam muito maiores se forem contados também os carismáticos, elevando a porcentagem daqueles que crêem na operação dos dons do Espírito Santo nos dias atuais para 34% da população ou 62 milhões de pessoas. Como nos dias de Azusa, essas pessoas continuam gostando da animação dos cultos em que há mais liberdade e a liturgia é menos formal. Mas engana-se quem pensa que pentecostalismo é apenas barulho e emoção. Em geral, os pentecostais professam o mesmo credo dos outros evangélicos, também chamados tradicionais. A diferença está na ênfase que dão à operação do Espírito Santo. Para essa gente, a verdadeira adoração deve ser dirigida pelo Espírito e levar a uma relação íntima com Deus.
O fiel deve viver uma renovação cotidiana de sua comunhão pessoal com Deus, experimentando o fervor evangelístico e poder sobrenatural para testemunhar. Todos os ingredientes que também foram experimentados pelos discípulos, quando receberam o primeiro derramamento do Espírito há 2 mil anos em Jerusalém, cinqüenta dias após a Páscoa, durante a Festa de Pentecostes – daí o nome do movimento atual. Chuva serôdia – O que aconteceu nos Estados Unidos no começo do século 20 foi uma experiência incrível, mas não única. Desde os primórdios do Cristianismo, tem acontecido o derramar do poder divino (veja o quadro ao longo desta reportagem). Essa busca se intensificou ao longo do século 19, quando europeus e norte-americanos já vinham buscando uma renovação semelhante, de olho na "chuva serôdia" que, segundo as Escrituras, ocorreria antes da volta de Cristo. "Era uma época de profundas transformações sociais, crescimento urbano, pobreza e materialismo. Tudo isso criava muita sede por Deus.
Reavivalistas como Charles Finney e Dwight Moody prepararam o caminho, trazendo o povo de volta às igrejas", explica Leonildo Silveira Campos, professor de Sociologia da Religião na Universidade Metodista de São Paulo e organizador de um fórum sobre os 100 anos do Avivamento da Rua Azusa no Brasil. "A busca da ‘segunda benção’ ou experiência de santificação que, segundo pregavam grupos holiness e metodistas, devia acontecer após o batismo em águas, foi fundamental para gerar o compromisso de buscar a Deus e preparar o caminho para uma ‘terceira benção’: o batismo no Espírito." Na época, surgiram inúmeros relatos de experiências sobrenaturais, com manifestações do falar em línguas. Mas a experiência só foi sistematizada em 1901.
Em outubro do ano anterior, Charles Fox Parham, um pregador metodista da linha da santidade, e sua esposa resolveram descobrir qual era o segredo da "fé apostólica", acompanhada por milagres, curas e sinais, coisas que já não eram tão comuns em seu tempo. Para tanto, abriu uma escola bíblica em Topeka, interior do estado norte-americano do Kansas. Parham alugou barato uma mansão com um magnífico pavimento térreo e um segundo andar feito com materiais de segunda linha. A construção era objeto de pilhéria na cidade e apelidada de "A tolice de Stone", em alusão a seu proprietário original, que não teve dinheiro para terminá-la. Diretor e aluno, ele decidiu que a Bíblia seria o único texto usado e o Espírito Santo, o único professor. Matricularam-se 40 alunos. "Em dezembro, Parham saiu em viagem por três dias, mas orientou os estudantes a lerem Atos dos Apóstolos em busca de algum fator constante sempre que ocorriam os batismos no Espírito Santo.
Quando voltou, encontrou o grupo eufórico: falar em línguas era o denominador comum nas experiências bíblicas", conta o jornalista John L. Sherrill em seu livro Eles falam em outras línguas (Arte Editorial). Durante alguns dias oraram para ter a mesma experiência, mas só quando impuseram as mãos sobre Agnes N. Ozman, na noite do ano novo, tiveram êxito. "Um halo parecia estar sobre sua cabeça e ela começou a falar em um idioma que não compreendíamos, mas achamos que fosse chinês. Ela não foi capaz de falar em inglês por três dias", escreveu mais tarde Parham.
Um mês depois, a maioria dos alunos já havia tido experiência similar. "A novidade era que agora, pela primeira vez, desde os dias da Igreja Primitiva, segundo os pentecostais, o batismo no Espírito foi buscado, e o falar em línguas, esperado como sua evidência inicial", completa Sherrill. Depois de altos e baixos na tentativa de divulgar essas experiências, Parham abriu, em 1905, sua escola em Houston, Texas. Um de seus alunos mais promissores era William Joseph Seymour, um ministro negro, de origem social humilde e cego de um olho. "Por causa das leis de segregação racial daquele tempo, Seymour só tinha autorização para sentar no corredor, ao lado da porta da sala de aula, e ouvir o que Parham e outros lecionavam por uma fresta. Não tinha permissão nem mesmo para orar junto com outros pelo batismo no Espírito. Apesar disso, recordava palavra por palavra tudo que os professores falavam", diz Leonildo Silveira Campos. Em 1906, mesmo sem ter recebido o derramamento do Espírito, Seymour foi convidado a pregar em uma igreja de Los Angeles.
Porém, no dia seguinte após ensinar o batismo e o falar em línguas ali, encontrou o templo trancado com um imenso cadeado na porta. Um casal da igreja não concordou com a grosseria e o convidou para continuar os estudos bíblicos em sua casa, na Rua Bonnie Brae, 214. Ali, durante três dias, ele ensinou sua posição e conduziu orações. No dia 9 de abril, enquanto pregava, as pessoas repentinamente começaram a falar em línguas, rir, clamar e cantar. Seymour teve a mesma experiência somente alguns dias depois, após passar quase uma noite inteira em oração. A notícia correu e logo a casa ficou cheia de interessados e curiosos. Porém, com tanta espontaneidade – brados de "Aleluias", cânticos exaltados, palmas e batidas com os pés –, a residência começou a estremecer. Depois de um "Glória a Deus" mais alto, o assoalho desabou. Ninguém ficou ferido, mas estava claro que precisavam de outro lugar para os cultos. Encontraram o espaço ideal no número 312 da Rua Azusa e rapidamente retomaram as reuniões. “Primícias” – Os fatos que se desenrolaram ao longo dos três anos seguintes foram notáveis, mas também causaram muita controvérsia. Agora conhecida como Missão da Fé Apostólica, a nova igreja não demorou para se tornar a maior da cidade, com cerca de 1,3 mil pessoas freqüentando seus cultos, realizados de forma espontânea na parte térrea do galpão três vezes por dia e sem intervalos.
No andar de cima, juntavam-se na "Sala de espera" aqueles que queriam orar e buscar o poder divino. Na falta de bancos, barris e tábuas serviam como assentos. Postado em uma das extremidades do grande salão térreo, Seymour era o líder, mas raramente pregava. Preferia orar. Os sinais eram freqüentes: pessoas caíam sob o poder de Deus, outras riam sem parar, tinham visões ou cantavam inspiradas pelo Espírito. Embora sem confirmação, um relato mostra a espiritualidade da atmosfera local. Conta-se que Jennie Evans Moore, que se tornaria a esposa de Seymour, chegou a cantar e tocar piano, mesmo sem nunca ter aprendido música, após receber o batismo no Espírito.
Também havia curas e libertações. Dúzias de bengalas, ataduras, muletas e velhos cachimbos eram abandonados junto às paredes do galpão, como testemunho do que se passava ali. "Várias barreiras foram quebradas em Azusa. Ricos e pobres, brancos e negros, gente educada e analfabetos vinham ali para saber o que estava acontecendo. Também apareciam repórteres de todo país. Alguns eram favoráveis, mas muitos não poupavam críticas, chamando tudo aquilo de uma ‘babel de línguas’. Outros se escandalizavam com a mistura de raças, diziam que havia barulho dia e noite, e os freqüentadores pareciam estar loucos, pois ficavam rolando no chão. O fato é que, positivas ou negativas, essas histórias só atraíam mais gente, inclusive, de outros países.
E quem ia para lá tentava levar para sua casa o que encontrava", conta o pastor norte-americano Fredy Berry, organizador das comemorações oficiais do centenário da missão de Azusa. Outro efeito do nascente pentecostalismo foi o ardor evangelístico e missionário. Como rapidamente surgiu um grande número de novos líderes, que disputavam espaço uns com os outros e reuniam seus seguidores, outras igrejas começaram a ser abertas, sempre fugindo da organização controladora e das então perseguidoras denominações tradicionais. É por isso que, desde seus primórdios, o Movimento Pentecostal adquiriu uma característica que até hoje nele predomina: a abundância de pequenos grupos e correntes independentes entre si. Foi a partir de uma delas, a Missão da Avenida Norte, em Chicago, liderada pelo pastor William Durham, que o pentecostalismo finalmente chegaria em terras brasileiras no ano de 1910. Em março daquele ano, chegaria o primeiro missionário pentecostal, o italiano Luigi Francescon. Depois de fundar igrejas para imigrantes como ele na Pensilvânia e Califórnia, Francescon esteve primeiro em Buenos Aires, na Argentina, e de lá veio para São Paulo. Após dois meses de trabalho e quase nenhum resultado, partiu para Santo Antônio da Platina (PR). Nessa pequena cidade, 11 pessoas aceitaram a fé avivada e receberam o batismo no Espírito. "Eram as primícias da obra de Deus no Brasil", como descreveu o próprio Francescon mais tarde. Confiante, ele voltou para São Paulo um mês mais tarde e começou um trabalho entre presbiterianos, batistas, metodistas e católicos. Dessa vez, 20 pessoas aceitaram a mensagem, receberam curas e tiveram a experiência pentecostal. Nascia a primeira igreja pentecostal brasileira, a Congregação Cristã no Brasil, denominação que atualmente conta com 2 milhões de adeptos, segundo suas contas. Despojamento – No mesmo ano e também vindos de Chicago, chegariam outros dois missionários que plantariam de vez a semente do pentecostalismo no país. Os suecos Gunnar Vingren e Daniel Berg haviam emigrado da Escandinávia para os EUA fugindo das difíceis condições de vida em seu país. Lá, além da experiência pentecostal, tiveram uma revelação divina. Em uma reunião de oração, um obreiro disse a eles que o Senhor lhe mostrara que deveriam anunciar a mensagem em um lugar chamado Pará, do qual nunca tinham ouvido falar. A dupla debruçou-se sobre mapas e descobriu que o lugar ficava no norte do Brasil. Convencidos de que a ordem viera de Deus, Berg e Vingren venderam o que tinham, receberam ofertas e compraram uma passagem de terceira classe num navio de cabotagem. Em novembro de 1910, desembarcaram em Belém do Pará, com a cara, a coragem e muita fé. Conversando com marinheiros americanos, descobriram uma Igreja Batista que poderia lhes abrigar e foram morar no porão do templo. Logo, começaram a realizar cultos. Tudo parecia transcorrer bem, até que, em 1911, as reuniões se transformaram em um foco pentecostal, com manifestações ruidosas da presença divina. Os dois acabaram expulsos e, com outras 17 pessoas, iniciaram a Missão da Fé Apostólica. Em 1917, a organização passou a se chamar oficialmente Assembléia de Deus. Hoje, 96 anos depois, é a maior igreja protestante do país, com quase 9 milhões de membros. Com celebrações mais despojadas e maior valorização do carisma do que do saber teológico, todas as pessoas tinham vez no pentecostalismo, independente do sexo. "Infelizmente, a história oficial costuma se esquecer das grandes heroínas do início do movimento. Aliás, essa foi uma de suas características mais marcantes: nele, as mulheres tinham mais liberdade e desempenharam papéis importantíssimos na liderança dos trabalhos", destaca o sociólogo Gedeon de Alencar, membro da Assembléia de Deus Betesda e diretor do Instituto Cristão de Estudos Contemporâneos (Icec). A esposa do próprio Seymour foi um exemplo. Jennie Evans Moore formava com o marido uma autêntica equipe ministerial, pregando com freqüência nas reuniões. Também coube a ela pastorear a missão por nove anos, após a morte de Seymour. Além de Jennie, muitas outras experimentaram o batismo no Espírito e se dispuseram a fazer, mesmo sozinhas, a obra. Aimee Semple McPherson começou poucos anos depois a Igreja do Evangelho Quadrangular. Kathryn Kuhlman se tornaria, um pouco mais tarde, uma das mais bem-sucedidas evangelistas do século. "A mesma coisa podemos observar com Frida, a esposa de Gunnar Vingren. Como ele mesmo admitiu, ela sustentava a igreja junto com os obreiros, tomando a frente de vários trabalhos evangelísticos, como cultos ao ar livre e na publicação do jornal Boa Semente. Na foto oficial da Convenção de 1930, ela aparece sozinha no meio de dez homens", cita Alencar. Avivamento em ondas – Apesar de ser o grande marco do moderno movimento pentecostal, o avivamento da Rua Azusa não foi o único. Nos últimos 100 anos, diversos outros acontecimentos ou "ondas", como preferem os estudiosos do tema, deram novos impulsos à obra do Espírito. Impulsos que tornaram a influência do pentecostalismo cada vez mais ampla na cristandade. "Alguns falam em três ondas, mas eu prefiro cinco. Depois da primeira, a do começo do pentecostalismo, houve uma renovação no pós-Guerra, por volta de 1948, dentro de igrejas pentecostais como Assembléias de Deus e Quadrangular. Considero esse mover como a segunda onda", explica o missionário e escritor John Walker, autor de A Igreja do século 20: a história que não foi contada (Editora Worship). A terceira onda, segundo Walker, seria quase paralela à segunda. "Foi a da cura divina. Em diversas nações dos anos 50, surgiram pregadores que enfatizavam os milagres em seus ministérios. Nessa época, surgiram nomes como William Branham, Oral Roberts, T. L. Osborn e Paul Cain." Foi também neste período que surgiram no Brasil as grandes denominações avivadas, que igualmente davam muita ênfase aos milagres e reuniam multidões em templos improvisados, algumas vezes até em tendas de circo. Uma delas era a Cruzada Nacional de Evangelização, que se tornou a Igreja do Evangelho Quadrangular, iniciada por missionários norte-americanos. Ainda apareceram as primeiras igrejas pentecostais implantadas por brasileiros: a Deus é Amor, liderada pelo missionário David Miranda, e O Brasil para Cristo, do pastor Manoel de Mello. Ambas, diga-se de passagem, com forte penetração nas classes populares, o que acabou estigmatizando o pentecostalismo como fé dos pobres, preconceito que só começaria a ruir décadas depois, com a adesão das classes média e alta. A quarta onda, ou como preferem outros estudiosos, segunda, foi o movimento carismático dos anos 60 e 70. Depois de uma aversão quase que total aos pentecostais do começo do século, agora diversas igrejas chamadas de históricas recebem a mensagem do avivamento. Denominações episcopais, metodistas, presbiterianas e batistas absorvem a mensagem, adaptando-a a seu contexto, teologia e liturgia. "A grande diferença foi que as pessoas que aceitavam essa mensagem já não saíam de suas igrejas. Permaneciam nelas e ajudavam em sua renovação. Ou eram expulsas e continuavam movimentos paralelos a elas, com viés carismático", diz o pastor batista Enéas Tognini. Ele mesmo se viu no meio de uma situação dessas. Um dos introdutores da mensagem do batismo no Espírito e dos dons espirituais entre os batistas brasileiros, presenciou a expulsão de 32 igrejas da Convenção Batista Brasileira (CBB) em 1965. Junto com outros pastores, Tognini fundou, na época, a Convenção Batista Nacional (CBN). Também nesse período, outras igrejas desdobraram-se em novos grupos, como a Presbiteriana Renovada, a Metodista Wesleyana e a Aliança da Igreja Congregacional. O avivamento atingiu até a Igreja Católica, que viu surgir em uma universidade norte-americana nos anos 60 a Renovação Católica Carismática, movimento que encontrou seu mais forte eco no Brasil, a maior nação católica do globo. A superação do ranço e do preconceito contra os pentecostais permitiu que, a partir dos anos 80, surgisse a última onda avivalista no meio do evangelicalismo norte-americano, ou seja, os protestantes mais tradicionais. Enfatizando menos o batismo no Espírito e mais os dons, igrejas como o Movimento Vineyard fizeram ressurgir termos que andavam meio fora de moda como a busca por sinais e maravilhas e o evangelismo de poder. Ao mesmo tempo, no Brasil e em países do Terceiro Mundo, outro fenômeno ganhava força: o neopentecostalismo. Inspirado na teologia da prosperidade – aquela que assegura ao crente toda sorte de bênçãos nesta vida, ao contrário do pentecostalismo clássico, que prefere valorizar o desprendimento dos bens materiais e tem a fé focada na vida porvir –, causou forte impacto social. Na linha de frente, denominações como a Igreja Universal do Reino de Deus, a Igreja Internacional da Graça de Deus e a Igreja Renascer em Cristo mudaram comportamentos e atraíram multidões de seguidores e de críticos. Volta às origens - É ainda difícil precisar a grande influência do pentecostalismo em todo o mundo. A começar pelo seu tamanho hoje. O Pew Fórum, por exemplo, cuja pesquisa foi citada no começo desta reportagem, ouviu fiéis em países como Brasil, Estados Unidos, Chile, Nigéria, África do Sul, Índia, Filipinas e Coréia do Sul. Por mais que a quantidade de crentes já seja impressionante, ainda pode estar bem aquém da realidade. Os dados brasileiros, para se entender melhor, foram tabulados com projeção no último senso do IBGE em 2000. Atualizados, ultrapassariam os 28 milhões. Outro caso é o dos Estados Unidos, maior país protestante do mundo, onde cerca de 5,8 milhões de pessoas seriam pentecostais. Por lá, no entanto, fala-se no dobro, 12 milhões – ou 5% dos norte-americanos. A mesma coisa acontece na Coréia do Sul, país em que está a maior igreja evangélica do planeta, a Igreja do Evangelho Pleno de Seul, liderada pelo pastor David Yonggi Cho, que também é pentecostal. Só ela tem 750 mil membros, quase os 1 milhão de coreanos que a pesquisa classificou como pentecostais. Ao que parece, o instituto desconsiderou no país as tantas denominações clássicas que se pentecostalizaram e não mudaram de nome. Por outro lado, o levantamento não conta com a China, nação onde se acredita que os evangélicos já sejam 100 milhões – 75% dos quais, pentecostais. Mesmo que grandiosos, esses números são insuficientes para dar o real tamanho do movimento pentecostal. "A questão é que o pentecostalismo é um movimento de vanguarda e representou uma renovação constante do Cristianismo no último século. Foi nesse mover que se despertou o compromisso com a evangelização e com missões, estabeleceu-se a fé como algo palpável e não teórico ou abstrato, e buscou-se com expectativa o operar de Deus. Jesus tornou-se real no dia-a-dia da pessoa, houve renovação da adoração e uma nova comunhão entre os fiéis. Sem falar na confirmação da autoridade da Bíblia, como um livro literal", citam os teólogos William e Robert Menzies em seu livro No poder do Espírito (Editora Vida). Até mesmo a imprensa evangélica ganhou novo fôlego, com o surgimento desde o início do movimento de publicações como o jornal The Apostolic Faith, publicado pela Missão da Rua Azusa, e que, em seus tempos áureos promoveu unidade com seus 50 mil exemplares distribuídos em todo mundo. "Os pentecostais pregam uma fé antimodernista, pois reconhecem que os mais importantes poderes disponibilizados sobre nossas vidas repousam não em nossas mãos, mas nas de Deus. E isso, por si só, já traz o reavivamento. Mas também têm espontaneidade, liberdade em sua adoração e o sacerdócio de todos os crentes, coisas que precisamos novamente adquirir", escreveu o professor Chris Armstrong em artigo para a revista Christianity Today, em setembro do ano passado.
Todos os méritos históricos, por mais visíveis que sejam, entretanto, não podem encobrir os erros e, claro muitas distorções que surgiram nesses anos na mensagem pentecostal. Ou então, o movimento corre sério risco de se tornar só emoção, sem frutos, como aconteceu no passado com o próprio avivamento da Rua Azusa, que perdeu força depois que William Seymour começou novamente a sofrer com o racismo e houve sérias divisões por questões menores. "Todas as pesquisas mostram um crescimento espantoso dos pentecostais. Mas o que vemos hoje é muito joio no meio do trigo. Isso, porque se enfatizam muito os grandes milagres, as grandes maravilhas, o grande número de conversões, as grandes bênçãos e o grande poder. Mas se esquecem as grandes lutas, a grande santidade e o grande compromisso com Deus e sua justiça que o crente precisa ter. Afinal, não é justamente para trazer todas essas coisas que o Espírito Santo foi derramado?", questiona o escritor e teólogo assembleiano Antônio Gilberto. Para ele, um dos mais respeitados educadores evangélicos do Brasil, é necessário que tanto pentecostais quanto carismáticos se voltem imediatamente para a mensagem pregada naqueles mil dias do avivamento da Rua Azusa. Lá, onde ficava o velho galpão, existe agora apenas uma placa comemorativa do evento. Porém, sua mensagem não poderia ser mais atual, como diz o seguinte trecho: "(...) o reavivamento da Rua Azusa prega uma mensagem de salvação, santidade e poder (...) e muitos foram comissionados para levar essa mensagem do Pentecostes ao mundo".

Como rogavam Seymour e seus colegas, é o caso de os pentecostais do século 21 dizerem novamente: "Faça-o novamente, Senhor. Como fizeste no tempo dos apóstolos, faça hoje de novo!". (Colaboraram Jussara Teixeira, Mariana de Salve e Moisés Filho). Quadro: Apesar do movimento pentecostal do começo do século 20 ter redescoberto os dons espirituais, incentivando os cristãos a buscarem o batismo no Espírito Santo com a evidência do falar em línguas e trazendo novo fervor evangelístico, a verdade é que manifestações pentecostais ocorreram durante toda a história da Igreja.

Às vezes, surgidas ao acaso; em outras, como parte de avivamentos. Confira os principais momentos:

33 d. C. – Em um cenáculo na cidade de Jerusalém, os apóstolos e outros discípulos, em um total de 120 pessoas, recebem o derramamento do Espírito Santo, acompanhado de fenômenos que lembravam o vento e o fogo, além da manifestação de línguas. Após explicação e pregação de Pedro, 3 mil se convertem. Como aconteceu durante a Festa das Colheitas, cinqüenta dias depois da Páscoa, o evento recebe o nome de Pentecostes.
156 – Preocupados com a decadência espiritual da Igreja, Montano e as profetisas Prisca e Maximilla lideram um movimento pela restauração da manifestação do Espírito Santo, que se espalha pelo norte da África, Ásia Menor e partes da Europa. Mesmo com o apoio de Tertuliano e Irineu, os montanistas acabam declarados heréticos.
387 – Agostinho, bispo de Hipona, no norte da África, e um dos mais notáveis pensadores de sua época, escreve: "Fazemos ainda como os apóstolos, que impuseram as mãos sobre os samaritanos e pediram o batismo no Espírito Santo. Esperamos que os convertidos falem novas línguas”.
1173 – Na Europa medieval, o mercador Pedro Valdo e seus seguidores ensinam o sacerdócio de todos os cristãos e rejeitam as relíquias e tradições, pregando a Bíblia às pessoas em suas próprias línguas. Há relatos de manifestações de glossolalia e atos sobrenaturais entre eles.
1530 – Enquanto a Reforma causa rebuliço em solo europeu, os huguenotes reconhecem a necessidade dos dons espirituais. "Nas montanhas de Cevènes, homens e mulheres caíam em êxtase, ocasião em que falavam em francês sobre a Bíblia, apesar de só conhecerem seu próprio dialeto", relatou o escritor E. H. Broadbenat.
1630 – George Fox cria a Sociedade dos Amigos e defende o relacionamento pessoal com Deus e a direção do Espírito Santo na vida do crente. Ridicularizados com o nome quakers ou "tremedores" pelos anglicanos, eles relatam que recebiam com freqüência o derramamento do Espírito e falavam em línguas.
1735 – Choro compulsivo, tremores, quedas e arrependimento de multidões marcam as reuniões de homens como Jonathan Edwards, John Wesley e George Whitefield. Wesley lidera um avivamento que dá origem ao metodismo.
1830 – O evangelista Charles G. Finney começa a promover reuniões que produzem avivamentos notáveis em diversas cidades do interior dos Estados Unidos. O segredo para um trabalho bem sucedido, segundo ele, era o poder que havia recebido no batismo com o Espírito Santo.
1834 – Na Inglaterra, um jovem e elegante ministro presbiteriano chamado Edward Irving ensina o batismo com o Espírito Santo e a prática de dons, como a glossolalia.
1855 – Dentro da Rússia czarista, manifestações pentecostais são noticiadas na Igreja Ortodoxa Grega.
1864 – Pioneira das cruzadas de salvação e cura divina, a norte-americana Mary Woodworth Etter declara que também fora batizada com o Espírito Santo. Em suas reuniões, pessoas entravam em êxtase ou caíam no chão, relatando depois que experimentaram "profunda transformação".
1873 – Seguindo a tradição avivalista, Dwight L. Moody afirma que foi batizado com o Espírito Santo. Em suas campanhas na Inglaterra, surgem manifestações pentecostais. "Quando cheguei às salas da Associação Cristã de Moços, em Sunderland", escreveu Robert Boyd, "encontrei a reunião em fogo. Jovens falavam em línguas e profetizavam depois que Moody pregou naquela tarde".
1890 – Demos Shakarian, fundador da Full Gospel Business Man Fellowship (entidade presente em diversos países, inclusive o Brasil, e que reúne profissionais liberais e empresários evangélicos), relata uma série de experiências espirituais, especialmente profecias, entre camponeses na Armênia. Sua própria família, ao imigrar para os Estados Unidos, é exortada profeticamente a fixar residência na costa oeste.
1891 – Movimentos de santidade incentivam seus membros a buscarem uma "segunda experiência com Deus". Daniel Awrey e sua esposa descobrem uma terceira e falam em línguas.
1901 – Tem início o pentecostalismo moderno, quando na vigília da noite de ano novo, a estudante Agnes N. Ozman recebe oração com imposição de mãos de Charles Parham e alunos da Escola Bíblica Betel, em Topeka, Kansas, EUA.
1904 – Uma série de avivamentos acontecem em várias partes da Europa, especialmente no País de Gales. Naquela nação, Evan Roberts, um ex-mineiro, proclama um despertamento do Espírito marcado por manifestações do poder de Deus.
1906 – Em um galpão, no número 312 da Rua Azusa, em Los Angeles, EUA, o pentecostalismo explode e se espalha por todo o mundo.
1910 – O operário italiano Luigi Francescon, que havia saído de Chicago, nos EUA, no ano anterior, chega ao Brasil em março e começa a pregar a mensagem pentecostal em São Paulo e Santo Antônio da Platina. Seis meses depois, chegam a Belém os suecos Gunnar Vingren e Daniel Berg, que criam a Assembléia de Deus. O movimento pentecostal começa no país.
1950 – O advento de pregadores de curas e milagres provocam uma nova onda pentecostal no Brasil. Surgem em São Paulo as igrejas Quadrangular, O Brasil Para Cristo e Deus é Amor.
1960 – Vários membros de igrejas episcopais, presbiterianas, metodistas e luteranas nos EUA recebem a experiência do batismo com o Espírito Santo. Diferente de outros tempos, em vez de deixar a denominação, permanecem: surge a Renovação Carismática. Em 1966, o pentecostalismo chega também ao catolicismo.
1965 – No Brasil, 32 igrejas batistas são excluídas da Convenção Batista Brasileira por aceitarem o batismo e os dons carismáticos do Espírito Santo. Sob a liderança de Enéas Tognini, é criada a Convenção Batista Nacional.
1980 – A Teologia da Prosperidade começa a ganhar força no Brasil com o crescimento de igrejas como a Universal do Reino de Deus.
1985 – O estudioso norte-americano Peter Wagner consagra o termo "Terceira Onda", em referência à aceitação de um trabalhar do Espírito entre evangélicos tradicionais. A ênfase, porém, não é mais no batismo com o Espírito, mas no evangelismo de poder e no uso de dons nas celebrações.
2007 – Pentecostais e carismáticos já são mais de meio bilhão em todo mundo. O Brasil é apontado como o maior país pentecostal do mundo, com 24 milhões de crentes.

Marcos Stefano

domingo, 4 de novembro de 2007

O filho do monstro

Criança é página em branco a ser escrita.“Há momentos em que silenciar é mentir”, pensou o filósofo e escritor espanhol Miguel de Unamuno. Vejo a criança. Não posso silenciar. É um menino de seis anos, arguto e de olhos brilhantes, filho do temível matador de taxistas, que escolheu vítimas em Minas Gerais, Mato Grosso e São Paulo – um recorde brasileiro de casos de latrocínio, ato de matar para roubar. Em companhia da mãe, o garoto veio à redação onde trabalho. A mulher ia dar uma entrevista no estúdio da TV. O menino ficou esperando. “Quem é você?”, quis saber uma colega. A resposta, rápida e fulminante: “Ué, você não sabe? Sou filho do Anestor, o serial killer, matador de taxistas”. Mais perguntas, mais respostas: “Não moro em lugar certo, porque meu pai quer matar a minha mãe e a gente vive fugindo”.Segundo a mãe, é difícil mantê-lo em alguma escola. “Quando ficam sabendo quem é o pai, logo fazem protesto dizendo que não querem seus filhos perto de um menino assim”. Surge, assim, uma figura penal nova em Direito: extensão da punibilidade. As restrições a um indesejável na sociedade seriam extensivas a seus familiares e descendentes, mesmo inocentes, como esse menino, que já viveu a realidade brutal de um adulto infeliz.A questão, insofismável, é que o menino tem como pouco patrimônio a ingenuidade, que perde precocemente. Anestor, o pai, foi repetidamente definido como “monstro”, porque, fria e implacavelmente, matou indefesos motoristas de táxi com certeiros tiros na nuca. O menino, filho do monstro, como exige entender nossa consciência – lampejos divinos –, nada tem a ver com isso. Quem não concordar, que vire a primeira caçamba de pedras.Crianças assim eu vejo todas as sextas-feiras. Elas entram em vários ônibus que partirão em direção aos presídios do Estado de São Paulo. Vejo as mulheres, muitas crianças, mistura de olhares ansiosos, todos ansiosamente esperados no dia de visita, como presente, como tudo. E até como uma tristeza. Muitos evitam esse encontro. Dizem que o pai morreu. E o menino, ou menina, consegue descobrir, anos depois, a verdade oculta. Partem desesperados para a localização, um grande momento feliz da vida. Criança fazendo visita no presídio tende a ver os pais como modelo, enquanto os outros, que os trancafiaram e os mantêm ali, é que “não prestam”. A teóloga Maria Clara Bingemer, inspirada em parte do Salmo 104, encontrou luz: apenas o sopro do Espírito de Deus “tem força e poder para transformar o deserto em jardim, os ossos secos em militante exército, fazer a virgem e a estéril conceberem e transformar as infidelidades de um povo idólatra e pecador em matéria-prima para a salvação de todos os povos”.Mas o filho do “monstro” é irmão de todas as crianças do mundo, com seus movimentos e fantasias. Ou um inocente, mas culpado, sem ter feito nada, condenado ao que saberemos somente no futuro?
Percival de Souza é escritor, jornalista e membro do Conselho Diretor da Faculdade de Teologia da Igreja Metodista.

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

O longo caminho da maturidade

Tenho me perguntado com relativa freqüência: por que as pessoas são tão resistentes ao amadurecimento? Por que tem se tornado tão raro ver homens e mulheres crescendo emocionalmente e espiritualmente? Convivo com pessoas que, apesar de todas as experiências já vividas, depois de terem lido bons livros, conversado com pessoas maduras e inteligentes, de terem passado por escolas e universidades, ouvirem boas palestras e saberem quase tudo o que a Bíblia ensina, permanecem imaturas. Pessoas assim resistem com todas as forças a qualquer mudança; repetem os mesmos erros, as mesmas dúvidas, os mesmos sentimentos de rejeição; implicam com as mesmas coisas, oram pelos mesmos assuntos, brigam as velhas brigas. Dão a impressão de que não avançaram um milímetro no caminho do amadurecimento, não subiram nenhum degrau na escada do crescimento, não deram nenhum passo em direção a uma vida mais verdadeira. Alguns dão a impressão de que, na verdade, andaram para trás, retrocederam, tornaram-se piores do que já foram.Basta olhar à volta e ver como as pessoas estão envelhecendo. É raro encontrar hoje um idoso maduro, sábio, bem humorado, destes que já viveram o bastante e souberam aproveitar cada experiência, que não vivem por aí resmungando e reclamando da vida, lamentando a idade e as oportunidades perdidas. Têm sempre uma boa palavra, um bom conselho; sabem envelhecer e não ficam procurando, pateticamente, viver como um adolescente, achando que o bonito está em retroceder e que a velhice é um estágio da vida que precisa ser deletado. Penso que a resistência ao amadurecimento tem alguma relação com a resistência ao envelhecimento. Certamente, há muitas razões para a letargia emocional e espiritual em que nos encontramos hoje. Na verdade, ao olharmos para as virtudes cristãs, vamos perceber que, uma a uma, vêm sendo desprezadas e desconsideradas em nossa gloriosa civilização moderna e tecnológica. Humildade, simplicidade, castidade, generosidade, amor, bondade, paciência, coragem, lealdade, fidelidade, perseverança e gratidão vêm sendo substituídos por orgulho, vaidade, ambição, egoísmo, pressa, luxúria, inveja, traição, inconstância e ciúme. Somos, hoje, uma geração que não sabe mais amar, mas fazer sexo; que transformou o velho pecado da ambição na virtude da competência e da competitividade; que fez da vaidade a porta de acesso às banalidades sociais e do egoísmo uma arma de sobrevivência.A paciência há muito deixou de ser uma virtude e, em seu lugar, cresceu o espírito da urgência e da pressa que, com seu pragmatismo funcional, atropelou o longo caminho da construção da dignidade e da honra. O sentimento de gratidão vem sendo substituído pela luta pelo direito e não há mais em nós aquele sentimento de dívida, que, no passado, moldou o caráter das pessoas que contribuíram com seu sacrifício para com a humanidade, porque reconheciam, com profunda gratidão, que tudo o que tinham lhes havia sido doado. O amor e a castidade perderam sua nobreza, transformando o corpo num artigo barato, usando a sensualidade como moeda para adquirir alguns momentos de euforia sexual.Há um tempo atrás escrevi um artigo alertando contra o perigo dos atalhos. Minha preocupação era a mesma de hoje. A nobreza humana é fruto do longo caminho percorrido por aqueles que, com paciência e perseverança, gratidão e respeito, amor e bondade, fidelidade e lealdade, vão escrevendo sua história rumo à maturidade. São pessoas que sabem aproveitar cada experiência vivida, que não fogem do sofrimento e da dor, que reconhecem que tudo o que tem valor encontra-se nas profundezas da alma e precisam ser garimpados com paciência e perseverança.Há uma metáfora do apóstolo Paulo que nos ajuda a entender isso. Ele compara a vida a uma corrida, na qual, para ganhar o prêmio, o corredor precisa de duas coisas: manter diante de si o alvo e ter disciplina. Para ele, a vida deveria ser olhada assim. Ele afirma que corria como quem sabe aonde quer chegar e, como todo atleta, impunha sobre si a disciplina necessária para ter a certeza de que não correu em vão. A imaturidade é o resultado de uma história vivida sem consciência de destino e sem disciplina.A sensação de vazio, o tédio e falta de significado é o que move as novas gerações. Não se vê mais um sentido de missão ou consciência vocacional; não se sabe para onde caminham e nem os valores que abraçam. Os apelos da propaganda, as inúmeras ofertas e possibilidades, a agitação das festas e bares, os convites para as mais variadas atividades, levam a uma falsa sensação de preenchimento e significado. Contudo, quando as luzes se apagam, o barulho cessa, a multidão desaparece e a ressaca acaba, não sobra nada a não ser um vazio que insiste em dizer, silenciosamente, que o caminho não é este, que o alvo se perdeu, que as forças estão se esvaindo – e o tédio começa a bater mais fortemente na porta.A maturidade tornou-se um artigo raro na sociedade pós-moderna. Alguns dias atrás, uma senhora me procurou para falar dos planos de casamento de sua filha. No meio da conversa, sua preocupação com a maturidade do casal, particularmente de sua filha, ficou evidente. Ela tinha certeza de que não estavam preparados para celebrar uma aliança tão importante e vital para suas vidas. No fim da conversa, ela disse num tom irônico: “Mulheres como eu, capazes de enfrentar as lutas que enfrentei, trabalhar, criar os filhos, amar o marido mesmo nos momentos mais difíceis, honrar a aliança que fizemos, superar as diferenças e chegar a esta altura da vida mais plena e mais verdadeira, apesar de todas as cicatrizes que ficaram, é coisa rara, pastor, muito rara”. Ela estava certa.

Autor:Ricardo Barbosa de Souza é conferencista e pastor da Igreja Presbiteriana do Planalto, em Brasilia.