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Ocaso Isabella Nardoni foi um dos crimes de maior repercussão na história da crônica policial brasileira. O assassinato da garotinha de cinco anos, cujos maiores suspeitos são seu próprio pai e a madrasta, ainda não julgados, chocou o país e colocou na vitrine da opinião pública o trabalho da imprensa. Todos os jornais, revistas, emissoras de TV e de rádio, além de sites informativos, dedicaram grande parte de sua pauta à cobertura do crime do Edifício London, numa luta diária pela divulgação de informações em primeira mão. Em jogo, não apenas a obrigação de informar, mas também a tentativa, muitas vezes explícita, de envolver emocionalmente o público.
Dentre os profissionais envolvidos no trabalho, o destaque foi para o jornalista Percival de Souza, da Rede Record de Televisão. Diariamente, por horas a fio, ele podia ser visto nos programas da emissora, informando e comentando os desdobramentos das investigações, com todos os detalhes do caso. Deu vários “furos” – o que, no jargão do jornalismo, é aquela notícia veiculada com exclusividade, o grande sonho de qualquer repórter. Na verdade, isso não é novidade na carreira de Percival, que já dura mais de quatro décadas e o consagrou como o principal repórter policial do país. Aos 64 anos, ele tornou-se referência em sua atividade não apenas pelas reportagens memoráveis que lhe valeram muitos prêmios, mas também pelos livros que escreveu. “Eu sei como é uma investigação, uma perícia. Então, graças a Deus, não preciso ficar prisioneiro da opinião de juiz, promotor, delegado ou advogado”, comenta.
A menção ao nome de Deus não é mera retórica. Crente convicto desde a mocidade, Percival é daqueles que não abrem mão da fé, mesmo diante de confrontações. E, segundo ele, isso acontece o tempo todo no dia-a-dia de sua profissão. “Convivo de perto com o mundo cão, conheço bem a brutalidade humana. Esse envolvimento me estimula a conhecer cada vez mais a Bíblia e o Senhor.” Ligado à Igreja Metodista, da qual afastou-se recentemente, o jornalista freqüenta uma congregação presbiteriana e é muito requisitado para palestras em igrejas e congressos evangélicos. Nessas ocasiões, usa toda sua bagagem profissional e pessoal para estimular os cristãos a defender os direitos humanos e os valores éticos. Percival, que é colunista de ECLÉSIA há oito anos (ele assina uma coluna que leva seu nome), concedeu a seguinte entrevista à revista:
ECLÉSIA – A morte brutal da menina Isabella Nardoni chocou o país. Como jornalista especializado na cobertura policial, o que você achou do trabalho da imprensa nesse caso?
PERCIVAL DE SOUZA – Na maioria dos veículos de comunicação, a cobertura foi feita sem merecer nenhum reparo – inclusive, pretendo me incluir nessa lista. Não há como confundir a abordagem de temas desagradáveis com uma certa assepsia da cobertura. Isso porque nós, jornalistas, entre outras coisas, somos seletivos. Esse caso foi particularmente chocante porque, além de a vítima ter apenas cinco anos, o próprio pai é o suspeito, junto com sua companheira. Você pode raciocinar de várias maneiras, inclusive algumas que não fazem parte do raciocínio da imprensa, e sim, do raciocínio cristão. Aliás, eu me senti ainda mais envolvido por ter uma neta com a mesma idade da menina morta. Durante a cobertura, eu sentia uma ira profunda das pessoas, principalmente quando o casal aparecia em algum lugar para depor ou era conduzido preso. Cheguei a comentar que tive a impressão de estar num novo coliseu, numa arena muito feroz.
Seu trabalho se destacou bastante na cobertura do episódio. Com toda sua experiência, você teve dificuldades nas apurações?
Estou na área criminal há quatro décadas e esse crime exigiu a aplicação de todo meu know-how profissional. Se eu tive algum destaque nessa cobertura, quando era onipresente na televisão, foi fruto dessa experiência. Eu sei como é uma investigação, eu sei como é uma perícia – conheço necropsia, entendo como é a elaboração de um laudo... Então, graças a Deus, não preciso ficar prisioneiro da opinião de juiz, promotor, delegado ou advogado. Tive condições de interpretar, explicar e traduzir de forma didática o que estava acontecendo para um grande número de pessoas. Mas, em geral, existem dificuldades em se entender certos procedimentos, devido à pressa. A imprensa corre contra o relógio, pois quer apresentar uma grande novidade diariamente. Esse ritmo é exatamente o contrário da apuração, que exige calma, ausência de precipitação, equilíbrio, enfim, a busca de provas concretas.
Você se considera um jornalista à moda antiga?
Acho que sim, e vejo que profissionais desse tipo já são poucos, infelizmente. Para você ter uma idéia, no auge da investigação e antes da reconstituição do crime ser feita, eu consegui detalhadamente o conteúdo da apuração depois de um encontro com os policiais encarregados do caso. E consegui ouvi-los sem ser visto com eles, pois isso poderia ser interpretado como uma espécie de privilégio. Mesmo com toda a imprensa na porta do Distrito Policial, consegui entrar pela lateral, escondido, deitado no banco traseiro de uma viatura com vidros escuros. Fiquei lá duas horas e meia e saí do mesmo modo que entrei, sem ser visto. Estou contando isso, não para dizer que sou um super-jornalista – na realidade, procurei fazer o que um repórter teria que fazer num caso assim.
Atuar na cobertura criminal o coloca, o tempo todo, em contato com o chamado “mundo cão” da brutalidade humana. Você já entrou em crise com Deus ou teve alguma dúvida em relação à sua fé?
Com relação a Deus eu nunca tive dúvidas – exceto na juventude, e por outras razões, quando o Brasil vivia um período de exceção na ditadura militar. Como eu tinha engajamento político, isso implicava em receber, de alguma maneira, doutrinação política, inclusive de tendências fortemente marxistas. Mas não abandonei a minha vida religiosa por causa disso; pelo contrário, aquele envolvimento me estimulou muito a conhecer melhor a Bíblia. Mas reconheço que, no cotidiano contemporâneo, é difícil você conviver com certos episódios. Se não fosse a formação religiosa que tenho, provavelmente não suportaria isso. Recentemente, estive com um delegado que está conduzindo uma investigação sobre uma rede gigantesca de pedofilia em São Paulo. Ele me mostrou algumas imagens em poder do pedófilo preso. Para resumir a coisa, há uma foto de violência sexual consumada contra um bebê de 27 dias. Isso é chocante! É difícil você olhar para alguém sob essa acusação e ficar impassível. O mundo em que eu vivo, profissionalmente falando, é exatamente isso que você citou na pergunta: um mundo cão. E olha que falo isso sem nenhuma depreciação à raça canina. Na verdade, eu acho que tenho uma armadura, como diria o apóstolo Paulo, para me proteger dessas coisas.
Qual sua opinião acerca dos clamores da sociedade pelo endurecimento das penas previstas no Código Penal?
Olha, eu sou um homem cristão, e vejo isso de uma maneira mais abrangente, mais profunda. A Bíblia diz que, onde está o nosso tesouro, aí estará o nosso coração. Dostoiéwski disse que a luta entre Deus e o diabo é permanente e acontece no palco do coração dos homens. Considero perfeita essa definição. As raízes do mal e suas expressões, como o crime e a violência, têm o seu nascedouro no coração humano. Nele palpitam sentimentos e emoções – de um lado, o bem, o amor, a caridade, a fraternidade, a esperança; sentimentos nobres, edificantes, cristãos. Em contrapartida, temos o ódio, a avareza, o ciúme, a ambição. Se você olhar a prática do crime, as origens são sempre as mesmas, porque são calcadas exatamente nesses sentimentos negativos. Nesse sentido, as leis humanas são extremamente frágeis. Sou contra a pena capital por várias razões. Se o marco zero de tudo isso foi o episódio envolvendo Caim, descrito no livro do Gênesis, fica claro que o próprio Deus é contra a pena de morte. Segundo o texto, o próprio Senhor fez um sinal na fronte de Caim, para que ninguém que o encontrasse o ferisse de morte por ele haver assassinado o próprio irmão. Também acho a prisão perpétua muito definitiva. A verdade é que há criminosos absolutamente irrecuperáveis, até por força de suas condições mentais – caso dos inimputáveis ou dos semi-imputáveis, por exemplo. Em resumo, não acredito na validade da antecipação da maioridade penal, faço reparos à previsão máxima de três anos para a internação de menores infratores, não admito a pena de morte e acho que existe, no mundo jurídico, outros mecanismos a serem aplicados em relação à prisão perpétua.
É voz corrente que as prisões brasileiras são escolas de crime que não recuperam ninguém. O que você acha da atuação evangelística das igrejas no sistema penitenciário?
No mundo prisional, é preciso certa especialização em termos de trabalho religioso. Há que se conhecer aquele universo, quais são os personagens com quem se está conversando, ter noção do que essas pessoas fizeram, etc. Além de tudo, é proibido ser ingênuo dentro de uma prisão. De modo geral, essa presença religiosa é muito apreciada pelos detentos. É um conforto, um bálsamo, em um ambiente de desespero. Tratar o prisioneiro como ser humano exige muito esforço por parte de quem se propõe a fazer esse tipo de trabalho – mas é possível colher resultados surpreendentes. Eu entendo que hoje precisamos dessa consciência acerca da realidade prisional, e a partir disso, definir uma fórmula eficiente de trabalho.
As igrejas têm atuado no combate à violência?
Acho essa atuação incipiente, porque isso exige, além de um conhecimento especializado, uma fé que se apresente de maneira muito sólida, muito convincente. Mas quando a Igreja consegue ter consciência dos seus limites e se aproxima de entidades e instituições que atuam bem, os resultados são ótimos. A Igreja de Cristo tem um papel que é exclusivamente dela.
Reportagens investigativas costumam colocar o profissional em situações de risco. Você não teme pela sua vida quando se envolve em reportagens arriscadas?
Acho que Deus determinou um ofício, uma atividade para cada um de nós. Ele nos dá os dons e os talentos para serem cultivados e aprimorados. Algumas vezes, o trabalho exige sacrifícios. No caso do Tim Lopes, por exemplo [N.da Redação: Tim Lopes era jornalista da Rede Globo e foi assassinado por traficantes de uma favela no Rio de Janeiro em 2002, quando fazia uma reportagem sobre venda de tóxicos e prostituição infanto-juvenil. Ele foi torturado e teve o corpo queimado. Percival subiu o morro escondido na mala de um carro para apurar o crime, e parte dessa história é contada em seu livro Narcoditadura]. Confesso que fiz aquela apuração com muita raiva. Não sei se era a ira santa de que falam nas Escrituras. Eu tinha um relacionamento de amizade com o Tim e o que houve com ele foi muito brutal. Ele foi torturado, esquartejado, incinerado. Morreu devagar, e sofreu muito antes de morrer. Eu senti a necessidade de contar essa história e o faria de novo, se fosse necessário. Quando eu subi o morro, sinceramente falando, eu me senti protegido. Era como se Deus me falasse de uma maneira não convencional: “Vai que eu seguro”. Posso lhe garantir que eu senti isso.
Então, a profissão é um ministério para você?
Não sei se posso dizer que é um ministério. Mas, de alguma maneira, é como amar o próximo como a si mesmo. É mais cômodo ficar em casa, fingindo que coisas assim não existem. Mas temos a nossa consciência, que eu defino como um lampejo divino. Também penso muito nas palavras de Lutero: “Não é bom para o cristão viver contra a sua consciência”. Então, acredito que esse trabalho possa ser uma forma de atividade ministerial, cumprindo tarefas que ajudem a salgar essa terra. Para mim, os indicativos bíblicos são claros. Por exemplo – o primeiro milagre de Eliseu, relatado nas Escrituras, foi salgar as águas do manancial que abastecia Jericó. Isso é muito forte, muito significativo, alentador e inspirador.
Você joga sal nas águas?
Procuro fazer isso. E haja sal!
Qual é o seu envolvimento com a Igreja?
Durante toda minha vida, eu tive um vínculo muito estreito com a Igreja Metodista. Ali, exerci todas as atividades que um leigo pode desempenhar numa igreja local, inclusive a superintendência da Escola Dominical e a direção da Faculdade de Teologia. Mas, por razões bem pessoais, eu resolvi fazer como Cristo fez – retirei-me um pouco para meditar, principalmente em torno de alguns fatos que aconteceram e que me aborreceram profundamente.
Pode dar um exemplo?
Por exemplo: o órgão máximo decisório da Igreja Metodista decidiu estabelecer restrições ao relacionamento com os católicos. Não tenho dúvida nenhuma de que isso é absolutamente medieval. Certa vez, superintendendo a Escola Dominical, promovi uma aula magna tendo como convidado o Mário Sérgio Cortela, diretor do Departamento de Teologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Segundo o Concílio Geral, não posso mais levar alguém como ele à minha igreja local. Isso é um absurdo, é inimaginável e inaceitável. Não é bíblico, pois a oração de Jesus foi para que todos sejamos um. Então eu pensei profundamente sobre esses fatos e achei que, pelo menos, aquele não era mais o meu lugar. Deus não tem endereço fixo, nem fica confinado num determinado local. Como não tenho absolutamente nada em termos de restrições aos católicos, me agrada também, de vez em quando, assistir à missa lá no Mosteiro de São Bento e ouvir seu canto gregoriano. Esse período de meditação talvez até fosse necessário, porque eu passei a maior pare da minha vida em atividades docentes na minha igreja. Acho que chegou o momento de me dedicar a pensar, refletir, observar, ouvir. E tenho ouvido coisas muito interessantes.
Fale sobre sua formação religiosa.
Eu nasci em berço evangélico, num domingo, por volta das 20h. Portanto, minha mãe faltou a um culto para que eu nascesse [risos]. Tive formação religiosa dentro da igreja. Fui aluno de todas as classes de Escola Dominical. Então eu segui toda essa trajetória, exerci várias atividades, tive várias experiências, fiz muita coisa na igreja, pela igreja ou representando a igreja.
E sua carreira?
Meu primeiro trabalho na área foi como repórter num jornal especializado em boxe, chamado Ringue, já extinto. Depois, fui para o jornal O Esporte que, como o nome diz, fazia cobertura esportiva. Mais tarde, atuei no jornal A Gazeta e dali, fui para a revista Quatro Rodas, cujo diretor era o jornalista Mino Carta. De lá passei para o Notícias Populares fazendo geral. Fiquei também um ano na revista Auto Esporte numa vaga aberta pela saída do Clóvis Rossi, que tinha ido para o Estadão. Por último, veio o trabalho no Jornal da Tarde. Além disso, fiz várias coisas em rádio, principalmente Eldorado, Gazeta e Capital. Em televisão, atuei na TV Cultura, na Globo – onde fiquei nove anos como comentarista – e, por último, na TV Record, onde estou há quase seis anos.
Por que você decidiu fazer cobertura policial?
Isso, na verdade, não foi uma coisa planejada por mim. Minha carreira está umbilicalmente ligada à história do Jornal da Tarde, de São Paulo. Eu sou da equipe que fundou o jornal, cujo diretor de redação era o Mino Carta. O grande Mino Carta! O Jornal da Tarde seria logo uma revolução na imprensa brasileira, assim como as revistas O Cruzeiro e Realidade, além do Jornal do Brasil. Resolvemos que todas as áreas iam ser cobertas de maneira diferente, inclusive a policial. E eu, que nunca tinha entrado numa delegacia, de repente recebo a missão do Mino de criar uma concepção, algo novo para essa editoria do jornal. Comecei muito timidamente, conhecendo aos poucos a organização policial. Devagar, fui desenvolvendo meu trabalho e buscando o aperfeiçoamento. Acabei me especializando em noticiário policial e – por que não dizer? – gostando disso.
Como é que você analisa o jornalismo evangélico que existe hoje no Brasil?
Eu acho que, com as exceções que toda regra tem, esse jornalismo criou uma ficção: a aversão, em geral, aos meios de comunicação, pela religiosidade de alguns grupos – particularmente os evangélicos. A nossa tendência, de alguma maneira, é acobertar certas práticas. Nesse sentido, a ECLÉSIA é uma revista que, sem ser essa sua intenção, transformou-se numa espécie de oásis desse cenário, porque seu critério para a publicação de alguma matéria é jornalístico. Nós, jornalistas, temos o critério essencial de relatar fatos, de maneira que não haja dúvida nenhuma de que são fatos autênticos, de que o que relatamos não são peças de ficção – mesmo que esse fatos incomodem ou desagradem. Aliás, a imprensa não cria ou produz fatos; ela noticia os fatos.
O que leva as igrejas e suas lideranças a essa aversão pela imprensa?
O fato de eu denunciar algo abominável envolvendo determinada pessoa ou determinado grupo não significa um ataque àquela pessoa, ou àquela organização religiosa. Estamos falando de fatos específicos. Muitas pessoas têm dificuldades em entender isso. Ora, se fulano de tal desviou dinheiro, se corrompeu, isso é um fato – claro, é preciso que haja a acusação, o processo criminal e, se for o caso, a prisão. E a imprensa precisa divulgar isso. Mas o corporativismo diz: “Ah, mas é fulano! É fulana! Onde já se viu falar isso? Não pode mexer com essa pessoa, ela é intocável”. Isso, para mim, é inaceitável. Nosso trabalho é secular, quanto mais numa atividade que mostra o desempenho de organismo religioso. Seria absolutamente inaceitável. Você não pode ter uma imprensa, inclusive religiosa, que seja omissa e covarde. Na maioria absoluta dos casos, quando se critica os meios de comunicação, eles estão corretos. O fato de você gostar ou não gostar do que aconteceu é uma outra coisa. Mas, se aconteceu, o que nós, jornalistas, vamos fazer? Brigar com os fatos? Brigar com a notícia? Por que sonegar isso? Pelo contrário. Eu acho que o pregador, o membro de ministério de igreja – o líder cristão, enfim –, deve ser muito consciente da responsabilidade e do compromisso que tem. Queira ou não, ele é vitrine. E essa vitrine não deve ser estilhaçada. Quando algo ruim acontece, é muito importante que o povo de Deus saiba disso.
Eduardo Ornellas e Marcos Stefano
REVISTA ECLÉSIA
segunda-feira, 18 de agosto de 2008
domingo, 10 de agosto de 2008
Conhecer o hebraico é fundamental
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É surpreendente observar como, nos dias de hoje, é comum ouvir tanta gente dizer tanta coisa com tanta certeza sem qualquer embasamento objetivo. Muitas vezes, grande parte do que é dito simplesmente não pode ser comprovado. Infelizmente, isso também é fato no contexto do ensino e pregação das Escrituras. Multiplicam-se os arautos de uma variada gama de mensagens, enquanto desaparecem os estudiosos da Bíblia. Um dos problemas mais surpreendentes é o desinteresse e o descaso pelo conhecimento do grego e do hebraico, línguas originais da Bíblia (sem falar do aramaico). É de conhecimento geral que a Palavra de Deus surgiu no contexto histórico do povo judeu. A verdade bem conhecida é que cerca de três quartos da Bíblia foram escritos na língua hebraica. E apesar de quase todo restante das Escrituras ter sido escrito em grego coinê, o raciocínio subjacente à ampla maioria dos documentos do Novo Testamento é nitidamente hebraico. Isso quer dizer que embora as palavras sejam gregas, o pensamento é semítico, hebraico. Portanto, sem dúvida alguma, se há uma língua e cultura importante para os estudos bíblicos conscientes e mais profundos, trata-se do hebraico. Podemos inclusive afirmar que, sem o conhecimento das línguas originais, não é possível construir uma boa teologia das Escrituras Sagradas.
Diante dessa realidade indisfarçável, temos de reconhecer que existe motivo de sobra para que o cristão de hoje procure conhecer o hebraico bíblico. Nosso objetivo é relacionar nesse espaço pelo menos as razões mais importantes:
1. Conhecer o hebraico é lidar com um tesouro lingüístico inestimável.
O conhecimento do hebraico bíblico nos permite, com bastante segurança, falar as mesmas palavras e frases que os antigos profetas e homens de Deus falaram nos tempos do Antigo Testamento. O hebraico é uma das línguas mais bem preservadas da história humana. Se Jeremias ou Isaías ressuscitassem hoje e fossem tomar um café em Jerusalém, certamente conseguiriam se comunicar. Estima-se que 70% do vocabulário do hebraico contemporâneo tem base etimológica na Bíblia. É um fenômeno lingüístico único. A língua possui uma sonoridade bonita, exótica e diferente. Embora o leitor não seja familiarizado com o hebraico, é possível sentir o som do primeiro versículo bíblico em Gênesis: Bereshit bará elohim et hashamaim veet haarets.
2. Conhecer o hebraico é uma viagem entusiasmada ao desconhecido.
Algumas pessoas têm receio de enfrentar um novo desafio. Todavia, a maioria de nós gosta de ver e experimentar novidades e tem curiosidade pelo que é bem diferente do cotidiano. O hebraico é um universo totalmente diferente. Aprender uma língua não é apenas trocar palavras de nosso vernáculo por outras com sons distintos. Uma língua é uma visão de mundo. Como dizia Hjelmslev, uma língua é um recorte no continuum amorfo da realidade. Ou seja, cada língua é uma interpretação da realidade. O hebraico é o exótico e o inusitado. Leva-nos a uma percepção de mundo muito distinta da tradição latina ocidental. As letras, por exemplo, são muito diferentes e parecem pequenas obras de arte. As consoantes são mais importantes do que as vogais, como se pode observar nas línguas semíticas. As vogais são pequenos pontos, que às vezes confundem o estudante de “primeira viagem”. Ao contrário da tradição ocidental, a língua hebraica é escrita da direita para a esquerda (sentido oposto ao do português). O vocabulário, as associações de idéias e a gramática são totalmente diferentes daquilo que conhecemos, por incrível que pareça há termos parecidos: a conjunção ou em hebraico é `o (ô).
3. Conhecer o hebraico significa conhecer uma cultura muito diferente.
Como já mencionamos, as línguas humanas não possuem apenas palavras diferentes para as mesmas coisas. Na verdade, as palavras são uma expressão da cultura e do modo de ser peculiar de um povo. Algumas particularidades do enfoque semítico chamam a atenção. No hebraico, por exemplo, não existe gênero neutro como acontece no inglês. Tudo é dividido entre masculino e feminino; existe até mesmo o pronome você (masculino) e você (feminino). O verbo é conjugado de modo diferente se é um homem ou uma mulher que está falando. Se eu perguntar a um homem se ele fala hebraico, terei de dizer: atá medaber yvrit? Se a mesma pergunta for dirigida a uma mulher, deverá ser dito o seguinte: at medaberet yvrit? Idéias abstratas, comuns em línguas ocidentais como o alemão e o grego, são muito raras. O aspecto concreto prevalece no hebraico. A expressão bíblica “fazer uma aliança”, por exemplo, é literalmente “cortar uma aliança” em hebraico, fazendo referência à prática de cortar um animal ao meio quando se fazia um acordo ou aliança na antigüidade. É por isso que é impossível fazer uma tradução totalmente literal da Bíblia. Isso não faz o menor sentido!
4. Conhecer o hebraico é aprender a pensar de modo diferente.
Dentre as tantas curiosidades da língua dos antigos patriarcas de Israel, vamos descobrir que o hebraico também é muito diferente do português e das demais línguas latinas por possuir um jeito e uma ordem de frase distintos. Geralmente a ordem é primeiro o verbo e depois o sujeito. Essa é a razão da inversão frasal presente nas traduções antigas da Bíblia em português. Outra característica interessante da língua hebraica é o seu aspecto conciso. A antiga língua dos hebreus usava poucas palavras para dizer muito. Os verbos de ligação são dispensados, os pronomes pessoais estão embutidos na maioria das formas verbais e algumas preposições e sufixos de posse aparecem anexadas aos substantivos. Diz-se muito com poucas palavras. Outra questão que merece atenção especial é o verbo do hebraico. Estamos muito acostumados com a idéia de tempo verbal em português. Dividimos tudo em presente, passado e futuro. Para muitos é surpreendente descobrir que o que caracteriza o verbo no hebraico não é principalmente o tempo do verbo, mas sim o modo da ação. O que mais importa é se a ação é acabada ou não. Em muitas passagens bíblicas somente o contexto determinará se o verbo deve ser traduzido no futuro, no presente ou no passado. Por isso, estranhamos traduções diferentes do tempo verbal da literatura poética do Antigo Testamento. Um exemplo dessa diferença pode ser visto no Salmo 15.2. Veja a tradução literal comparada com uma tradução contemporânea como a Nova Versão Internacional.
5. Conhecer o hebraico significa entender os termos teológicos da Bíblia
Esse conhecimento é muito importante para que não sejam ensinados conceitos mal elaborados e equivocados presentes até mesmo nas igrejas evangélicas. Os vocábulos hebraicos muitas vezes não possuem correspondentes adequados em português. O campo semântico das palavras é muito particular e até mesmo chega a parecer estranho para nós. Mais uma vez, deve-se destacar que uma tradução totalmente literal da Bíblia não teria sentido em português. Uma das palavras muito importantes do Antigo Testamento, por exemplo, é o termo Sheol, traduzido por Hades no grego do Novo Testamento. A tradução uniforme do termo não é adequada. Sheol refere-se de fato ao “mundo dos mortos” e, em muitos contextos do Antigo Testamento, o termo se refere concretamente à sepultura, já em outros textos a idéia é profundezas; há contextos poéticos onde o sentido é morte; mas em muitos textos a idéia de Sheol é mundo dos mortos (no NT Hades pode significar inferno em certos textos). Esse exemplo mostra como devemos ser criteriosos e cautelosos para concluir apressadamente muitas idéias sobre a Bíblia. É preciso ter base lingüística adequada. Quem poderia imaginar, sem o devido estudo, que a palavra Shalom, tão conhecida, significa muito mais do que paz. A verdade é que Shalom quer dizer também prosperidade, vida plena, segurança. Em cada contexto específico, a palavra pode ter uma nuança específica e deve ser traduzida de modo distinto. A idéia de paz subjetiva e psicológica não é o que predomina no hebraico. Em português essas associações não são claras. Quando um judeu cumprimenta o outro, ele pergunta: “Como vai a tua paz?” Paz, portanto, não é um termo simplesmente psicológico e emotivo, mas sim um termo concreto em relação à vida.
Diante de tais considerações, não há dúvida de que a Igreja Evangélica de hoje deve dar a devida atenção ao estudo das línguas originais da Bíblia, particularmente o hebraico. Especialmente em nossos dias quando muitos conceitos equivocados e mistificados são disseminados por quem conhece pouco do assunto, é mais do que necessário ampliar o conhecimento do povo de Deus no campo das línguas originais da Bíblia. Estude e conheça o hebraico bíblico. Segue uma boa bibliografia recomendada sobre o assunto:
GUSSO, Antônio Renato. Gramática Instrumental do Hebraico Bíblico. Vida Nova.
AUVRAY, Paul. Iniciação ao Hebraico Bíblico. Gramática Elementar, Textos Comentados, Vocabulário. Vozes.
BROWN, Driver & Briggs. Hebrew-English Lexicon. Oxford.
GENESIU, Kautzsch. Hebrew Grammar. Oxford Press.
KELLEY, Page H. Hebraico Bíblico: Uma Gramática Introdutória. Sinodal.
KIRST, Nelson. Dicionário Hebraico-Português e Aramaico-Português. Sinodal.
KOEHLER,Baumgartner. Hebrew Lexicon. Brill, Netherlands.
LAMBDIN, Thomas O. Gramática do Hebraico Bíblico. Paulus.
MAYER, Rudolf. Gramática del Hebreo Bíblico. CLIE.
MENDES, Paulo. Noções do Hebraico Bíblico. Vida Nova.
MITCHEL, L. Estudos no Vocabulário do AT. Vida Nova.
PINTO, C.O & SAYÃO, Luiz. A Questão da Transliteração do Hebraico. Vox Scripturae IV, 1.
SAYÃO, Luiz. Antigo Testamento Poliglota. Vida Nova-SBB.
SCHÖKEL,L. A. Dicionário Bíblico Hebraico-Português. Paulus.
SEOW, C. L. A Grammar for Biblical Hebrew. Abingdon Press.
WALTKE, B. & O’CONNOR, M. Introdução à Sintaxe do Hebraico Bíblico. Cultura Cristã.
Luiz Sayão
Teólogo, hebraísta, escritos e tradutor da Bíblia. É também professor da Faculdade Batista de São Paulo, do Seminário Servo de Cristo e professor visitante do Gordon-Conwell Seminary.
É surpreendente observar como, nos dias de hoje, é comum ouvir tanta gente dizer tanta coisa com tanta certeza sem qualquer embasamento objetivo. Muitas vezes, grande parte do que é dito simplesmente não pode ser comprovado. Infelizmente, isso também é fato no contexto do ensino e pregação das Escrituras. Multiplicam-se os arautos de uma variada gama de mensagens, enquanto desaparecem os estudiosos da Bíblia. Um dos problemas mais surpreendentes é o desinteresse e o descaso pelo conhecimento do grego e do hebraico, línguas originais da Bíblia (sem falar do aramaico). É de conhecimento geral que a Palavra de Deus surgiu no contexto histórico do povo judeu. A verdade bem conhecida é que cerca de três quartos da Bíblia foram escritos na língua hebraica. E apesar de quase todo restante das Escrituras ter sido escrito em grego coinê, o raciocínio subjacente à ampla maioria dos documentos do Novo Testamento é nitidamente hebraico. Isso quer dizer que embora as palavras sejam gregas, o pensamento é semítico, hebraico. Portanto, sem dúvida alguma, se há uma língua e cultura importante para os estudos bíblicos conscientes e mais profundos, trata-se do hebraico. Podemos inclusive afirmar que, sem o conhecimento das línguas originais, não é possível construir uma boa teologia das Escrituras Sagradas.
Diante dessa realidade indisfarçável, temos de reconhecer que existe motivo de sobra para que o cristão de hoje procure conhecer o hebraico bíblico. Nosso objetivo é relacionar nesse espaço pelo menos as razões mais importantes:
1. Conhecer o hebraico é lidar com um tesouro lingüístico inestimável.
O conhecimento do hebraico bíblico nos permite, com bastante segurança, falar as mesmas palavras e frases que os antigos profetas e homens de Deus falaram nos tempos do Antigo Testamento. O hebraico é uma das línguas mais bem preservadas da história humana. Se Jeremias ou Isaías ressuscitassem hoje e fossem tomar um café em Jerusalém, certamente conseguiriam se comunicar. Estima-se que 70% do vocabulário do hebraico contemporâneo tem base etimológica na Bíblia. É um fenômeno lingüístico único. A língua possui uma sonoridade bonita, exótica e diferente. Embora o leitor não seja familiarizado com o hebraico, é possível sentir o som do primeiro versículo bíblico em Gênesis: Bereshit bará elohim et hashamaim veet haarets.
2. Conhecer o hebraico é uma viagem entusiasmada ao desconhecido.
Algumas pessoas têm receio de enfrentar um novo desafio. Todavia, a maioria de nós gosta de ver e experimentar novidades e tem curiosidade pelo que é bem diferente do cotidiano. O hebraico é um universo totalmente diferente. Aprender uma língua não é apenas trocar palavras de nosso vernáculo por outras com sons distintos. Uma língua é uma visão de mundo. Como dizia Hjelmslev, uma língua é um recorte no continuum amorfo da realidade. Ou seja, cada língua é uma interpretação da realidade. O hebraico é o exótico e o inusitado. Leva-nos a uma percepção de mundo muito distinta da tradição latina ocidental. As letras, por exemplo, são muito diferentes e parecem pequenas obras de arte. As consoantes são mais importantes do que as vogais, como se pode observar nas línguas semíticas. As vogais são pequenos pontos, que às vezes confundem o estudante de “primeira viagem”. Ao contrário da tradição ocidental, a língua hebraica é escrita da direita para a esquerda (sentido oposto ao do português). O vocabulário, as associações de idéias e a gramática são totalmente diferentes daquilo que conhecemos, por incrível que pareça há termos parecidos: a conjunção ou em hebraico é `o (ô).
3. Conhecer o hebraico significa conhecer uma cultura muito diferente.
Como já mencionamos, as línguas humanas não possuem apenas palavras diferentes para as mesmas coisas. Na verdade, as palavras são uma expressão da cultura e do modo de ser peculiar de um povo. Algumas particularidades do enfoque semítico chamam a atenção. No hebraico, por exemplo, não existe gênero neutro como acontece no inglês. Tudo é dividido entre masculino e feminino; existe até mesmo o pronome você (masculino) e você (feminino). O verbo é conjugado de modo diferente se é um homem ou uma mulher que está falando. Se eu perguntar a um homem se ele fala hebraico, terei de dizer: atá medaber yvrit? Se a mesma pergunta for dirigida a uma mulher, deverá ser dito o seguinte: at medaberet yvrit? Idéias abstratas, comuns em línguas ocidentais como o alemão e o grego, são muito raras. O aspecto concreto prevalece no hebraico. A expressão bíblica “fazer uma aliança”, por exemplo, é literalmente “cortar uma aliança” em hebraico, fazendo referência à prática de cortar um animal ao meio quando se fazia um acordo ou aliança na antigüidade. É por isso que é impossível fazer uma tradução totalmente literal da Bíblia. Isso não faz o menor sentido!
4. Conhecer o hebraico é aprender a pensar de modo diferente.
Dentre as tantas curiosidades da língua dos antigos patriarcas de Israel, vamos descobrir que o hebraico também é muito diferente do português e das demais línguas latinas por possuir um jeito e uma ordem de frase distintos. Geralmente a ordem é primeiro o verbo e depois o sujeito. Essa é a razão da inversão frasal presente nas traduções antigas da Bíblia em português. Outra característica interessante da língua hebraica é o seu aspecto conciso. A antiga língua dos hebreus usava poucas palavras para dizer muito. Os verbos de ligação são dispensados, os pronomes pessoais estão embutidos na maioria das formas verbais e algumas preposições e sufixos de posse aparecem anexadas aos substantivos. Diz-se muito com poucas palavras. Outra questão que merece atenção especial é o verbo do hebraico. Estamos muito acostumados com a idéia de tempo verbal em português. Dividimos tudo em presente, passado e futuro. Para muitos é surpreendente descobrir que o que caracteriza o verbo no hebraico não é principalmente o tempo do verbo, mas sim o modo da ação. O que mais importa é se a ação é acabada ou não. Em muitas passagens bíblicas somente o contexto determinará se o verbo deve ser traduzido no futuro, no presente ou no passado. Por isso, estranhamos traduções diferentes do tempo verbal da literatura poética do Antigo Testamento. Um exemplo dessa diferença pode ser visto no Salmo 15.2. Veja a tradução literal comparada com uma tradução contemporânea como a Nova Versão Internacional.
5. Conhecer o hebraico significa entender os termos teológicos da Bíblia
Esse conhecimento é muito importante para que não sejam ensinados conceitos mal elaborados e equivocados presentes até mesmo nas igrejas evangélicas. Os vocábulos hebraicos muitas vezes não possuem correspondentes adequados em português. O campo semântico das palavras é muito particular e até mesmo chega a parecer estranho para nós. Mais uma vez, deve-se destacar que uma tradução totalmente literal da Bíblia não teria sentido em português. Uma das palavras muito importantes do Antigo Testamento, por exemplo, é o termo Sheol, traduzido por Hades no grego do Novo Testamento. A tradução uniforme do termo não é adequada. Sheol refere-se de fato ao “mundo dos mortos” e, em muitos contextos do Antigo Testamento, o termo se refere concretamente à sepultura, já em outros textos a idéia é profundezas; há contextos poéticos onde o sentido é morte; mas em muitos textos a idéia de Sheol é mundo dos mortos (no NT Hades pode significar inferno em certos textos). Esse exemplo mostra como devemos ser criteriosos e cautelosos para concluir apressadamente muitas idéias sobre a Bíblia. É preciso ter base lingüística adequada. Quem poderia imaginar, sem o devido estudo, que a palavra Shalom, tão conhecida, significa muito mais do que paz. A verdade é que Shalom quer dizer também prosperidade, vida plena, segurança. Em cada contexto específico, a palavra pode ter uma nuança específica e deve ser traduzida de modo distinto. A idéia de paz subjetiva e psicológica não é o que predomina no hebraico. Em português essas associações não são claras. Quando um judeu cumprimenta o outro, ele pergunta: “Como vai a tua paz?” Paz, portanto, não é um termo simplesmente psicológico e emotivo, mas sim um termo concreto em relação à vida.
Diante de tais considerações, não há dúvida de que a Igreja Evangélica de hoje deve dar a devida atenção ao estudo das línguas originais da Bíblia, particularmente o hebraico. Especialmente em nossos dias quando muitos conceitos equivocados e mistificados são disseminados por quem conhece pouco do assunto, é mais do que necessário ampliar o conhecimento do povo de Deus no campo das línguas originais da Bíblia. Estude e conheça o hebraico bíblico. Segue uma boa bibliografia recomendada sobre o assunto:
GUSSO, Antônio Renato. Gramática Instrumental do Hebraico Bíblico. Vida Nova.
AUVRAY, Paul. Iniciação ao Hebraico Bíblico. Gramática Elementar, Textos Comentados, Vocabulário. Vozes.
BROWN, Driver & Briggs. Hebrew-English Lexicon. Oxford.
GENESIU, Kautzsch. Hebrew Grammar. Oxford Press.
KELLEY, Page H. Hebraico Bíblico: Uma Gramática Introdutória. Sinodal.
KIRST, Nelson. Dicionário Hebraico-Português e Aramaico-Português. Sinodal.
KOEHLER,Baumgartner. Hebrew Lexicon. Brill, Netherlands.
LAMBDIN, Thomas O. Gramática do Hebraico Bíblico. Paulus.
MAYER, Rudolf. Gramática del Hebreo Bíblico. CLIE.
MENDES, Paulo. Noções do Hebraico Bíblico. Vida Nova.
MITCHEL, L. Estudos no Vocabulário do AT. Vida Nova.
PINTO, C.O & SAYÃO, Luiz. A Questão da Transliteração do Hebraico. Vox Scripturae IV, 1.
SAYÃO, Luiz. Antigo Testamento Poliglota. Vida Nova-SBB.
SCHÖKEL,L. A. Dicionário Bíblico Hebraico-Português. Paulus.
SEOW, C. L. A Grammar for Biblical Hebrew. Abingdon Press.
WALTKE, B. & O’CONNOR, M. Introdução à Sintaxe do Hebraico Bíblico. Cultura Cristã.
Luiz Sayão
Teólogo, hebraísta, escritos e tradutor da Bíblia. É também professor da Faculdade Batista de São Paulo, do Seminário Servo de Cristo e professor visitante do Gordon-Conwell Seminary.
segunda-feira, 14 de julho de 2008
"10 Ordenanças bíblicas que a igreja não cumpre!"
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1ª Orar. “... a minha casa será chamada casa de oração para todos os povos” (Is 56:7).
Por incrível que pareça é o que menos se faz na igreja. Às vezes, se gasta mais tempo com anúncios e outras atividades que orando; a própria reunião de oração está comprometida. Além disso, durante o culto, algumas orações feitas são litúrgicas, o tipo de oração que Jesus chamaria de oração repetitiva, e nós de reza. Criticamos os católicos por causa da ladainha, mas nós mesmos estamos incorrendo no mesmo erro.
2ª ministrar às viúvas e aos órfãos. “A religião pura e imaculada para com Deus, o Pai, é esta: visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações, e guardar-se da corrupção do mundo” (Tg 1:27). “Honra as viúvas que verdadeiramente são viúvas” (I Tm 5:3).
Há uma ênfase divina com respeito às viúvas e os órfãos em toda a bíblia. Sim, Ele é o pai dos órfãos e marido das viúvas, mas a eles ministra através da igreja. Em I Tm 5:9, Paulo indica que havia um registro das viúvas. Para que seria esse registro? Apenas para constar na ficha de membro, ou para que a igreja assumisse a viúva e dela cuidasse (At 6:1)?
3ª Fazer coletas para os santos necessitados. “Ora, quanto à coleta que se faz para os santos, fazei vós também o mesmo que ordenei às igrejas da Galácia. No primeiro dia da semana cada um de vós ponha de parte o que puder ajuntar, conforme a sua prosperidade, para que não se façam coletas quando eu chegar” (I Co 16:1, 2).
Hoje em dia se tira oferta para tudo, principalmente para a importante reforma do templo. Eu não sou contra tirar ofertas para suprir uma necessidade, contanto que seja plausível, mas, existe um templo mais importante para se aplicar o dinheiro: os santos necessitados, que são os verdadeiros templos de Deus, tendo em vista, que Deus não habita em templos feitos por mãos humanas. São santos porque foram separados, e a santificação é para a habitação de Deus nos santificados. Enquanto os grandes projetos da igreja são levados a cabo, o projeto divino de suprir financeiramente os santos fica para trás. O que adianta ter uma igreja bonita e, paralelamente, estar cheia de membros necessitados?
4ª Partilhar o pão>.”E a multidão o interrogava dizendo: que faremos pois? E, respondendo ele, disse-lhes: quem tiver duas túnicas, reparta com o que não tem, e quem tiver alimentos, faça da mesma maneira” (Lc 3:10, 11). “E todos os que criam estavam juntos, e tinham tudo em comum. E vendiam suas propriedades e bens, e repartiam com todos, segundo cada um havia de mister – necessidade” (At 2:44, 45).
Certa vez eu estava ministrando a Palavra e parafraseei o que João, o batista, disse em Lc 3:10, 11. Declarei: “Quem tiver dois carros, reparta com quem não tem; quem tiver vários imóveis, procure um irmão necessitado para doar...”. No final da Palavra (fiquei sabendo depois), uma pessoa bem sucedida financeiramente da minha igreja procurou um de meus pastores e disse: “O que o Arthur falou é um absurdo! Quando Deus toca no meu coração eu abençôo”. Olha, deixa eu te dizer uma coisa, se eu vir meu irmão necessitado e Deus ainda tiver que tocar no meu coração é porque eu estou ainda muito endurecido! “Quem, pois tiver bens no mundo, e, vendo o seu irmão necessitado, lhe cerrar as entranhas, como estará nele o amor de Deus (I Jo 3:17)?
É bom lembrar que a distribuição era feita segundo a necessidade de cada um, e não apenas um quebra-galho; o problema era resolvido. A igreja primitiva não fazia uso de paliativos.
5ª Não extinguir o Espírito (I Ts 5:19).
O termo extinguir tem vários sentidos, entre eles, sufocar, apagar, limitar. Esse sufocamento tem dois níveis. O nível congregacional e o nível individual. O sufocamento em nível congregacional é promovido por aquele que dirige o culto. Existe uma herança litúrgica romana muito forte dentro da igreja de Cristo, a partir da fusão da Igreja com o Estado em 313 a.D. Os cultos na igreja primitiva eram espontâneos. Um tinha salmo, outro doutrina, outro revelação, profecia, cântico espiritual, etc. A partir da referida data, o culto passou de espontâneo a litúrgico. Uma metodologia engessada foi introduzida e os cultos foram se tornando frios até chegarem ao que hoje conhecemos por missa. O culto passou a ser fruto da mente e não algo gerado pelo Espírito de Deus. Quando o Espírito Santo consegue aquecer a igreja e esta começa a responder à Presença de Deus com adoração, línguas e orações espontâneas, o dirigente diz: “Amém; amém. Aleluia, amém”. Na verdade, o que ele está falando é: Espírito Santo fique quieto, afinal, está na hora da mensagem, que por sua vez, também costuma ser fruto do treinamento. A noiva é arrancada violentamente dos braços do Noivo em nome do programa a ser seguido. A prédica é perfeita! Os recursos homiléticos e hermenêuticos garantem a precisão exegética e expositiva da mensagem, só não conseguem produzir a unção necessária para satisfazer as almas famintas. Que pregação nossa pode substituir o que o Espírito Santo está fazendo?
A extinção do Espírito nesse nível é um câncer tão severo que em 24 de Agosto de 1662, dois mil ministros puritanos foram excluídos dos seus púlpitos pelo Ato de Uniformidade, baixado pelo Parlamento inglês, conhecido pelos evangélicos como A Grande Ejeção. A religião oficial era a Igreja Anglicana, e forçava os puritanos a se moldarem à adoração litúrgica decretada por lei. Eles preferiram o silêncio à transigência.
O sufocamento em nível individual é o fruto do sufocamento em nível coletivo. O novo crente não é ensinado a andar no Espírito. Ensinam a ele como a denominação funciona, e não como o reino de Deus funciona. Quando é tocado particularmente pelo Espírito no banco, ou no púlpito, se sente inibido, afinal, se eu levantar as mãos e começar a adorar a Deus fora do período de louvor ou se sentir vontade de me prostrar ao Senhor no corredor no meio da mensagem, o que as pessoas vão falar de mim? Se eu começar a dançar perante a Arca, Mical pode me reprovar (II Sm 6).
Alguém vai contra argumentar dizendo que o culto precisa ter ordem. Eu concordo. Nosso Deus é um Deus ordeiro, mas quando Paulo fala da ordem do culto em I Co 14, ele não está falando de liturgia. Ordem e liturgia são duas coisas diferentes. A liturgia está fora da ordem de Deus.
6ª Apascentar o rebanho de Deus. “Olhai, pois, por vós, e por todo o rebanho sobre que o Espírito Santo vos constitui bispos, para apascentardes a igreja de Deus, que ele resgatou com seu próprio sangue” (At 20:28).
Existe uma falta extraordinária de pastores. As ovelhas estão, literalmente, se virando, e como a ovelha é um animal desprovido de inteligência, come qualquer coisa, bebe em qualquer fonte, vai com qualquer um. Os pastores têm se tornado profissionais do púlpito e empregados da igreja. A agenda está sempre cheia, mas de compromissos secundários: administrativos e sociais. Enquanto isso, as ovelhas disputam um lugar na fila para terem uma conversa de 30 minutos com o seu pastor, pois só atende uma vez na semana e tem várias ovelhas para entrar em seguida.
Eu tenho um trauma que chamo de trauma de tempo. Já estou sendo curado, mas reconheço que ainda falta. Minha esposa é uma mulher incrível, não existe ninguém igual a ela, mas nós estávamos passando um momento muito difícil no casamento e estávamos sendo aconselhados por um casal de pastores. Numa segunda-feira, eu fui me aconselhar, e, subitamente, no meio do aconselhamento ele disse: “Tenho que preparar a mensagem para o culto amanhã“. Ainda era hoje, e ele não percebeu que tinha uma ovelha quebrada diante dele (Ez 34)? Isso sem falar que muitos pastores não cuidam nem da sua vida espiritual, como vão cuidar de outros? Ninguém pode dar o que não tem; ninguém leva ninguém aonde não tenha ido.
A tarefa de cuidar um do outro não é só pastoral (I Co 2:25 b), mas o ofício pastoral tem a unção primeira, e o pastor é o responsável por espalhar essa unção sobre os outros membros do corpo.
7ª Adorar a Deus com palmas e danças. “Batei palmas todos os povos, aclamai a Deus com vozes de triunfo” (Sl 47:1). “Então a virgem se alegrará na dança, como também os jovens e os velhos juntamente; e tornarei o seu pranto em alegria, e os consolarei, e lhes darei alegria em lugar de tristeza” (Jr 31:13).
O então do versículo 13, diz respeito ao resgate do versículo 11. Ora, não é motivo de alegrar-nos com palmas e danças pelo grande livramento que Ele nos deu? Eu não estou falando de dança do grupo de coreografia, estou falando da dança da noiva. Algumas igrejas parecem trocar a Palavra de Deus pelos seus próprios costumes, que são estranhos ao céu. Talvez, as bíblias usadas nessas congregações faltem esses versículos.
8ª Viver uma comunhão genuína. “Para que todos sejam um, como tu, ó Pai, o és em mim, e eu em ti; que também eles sejam um em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste” (Jo 17:21).
Alguns pastores não permitem que suas ovelhas se misturem com outras, esquecem-se que todas as ovelhas pertencem a Jesus; e há outros pastores de pastores, que não aprovam um relacionamento mais próximo com líderes de outras congregações, são os exclusivistas; os donos do céu! Isso é hipocrisia. Por que então participam dos Conselhos de Pastores? Só existe um rebanho, um Pastor, um corpo. Muitos membros na verdade, mas um só corpo. Todos fomos identificados com Cristo no batismo e comemos o mesmo pão e bebemos o mesmo cálice (com exceção de algumas Igrejas Batistas que só servem a ceia para seus membros, deixando assim de ser a mesa do Senhor para ser a mesa da Igreja Batista). Fomos batizados no mesmo Espírito e bebemos do mesmo Espírito. Jesus disse que é pela unidade que o mundo vai reconhecer o amor de Deus. Estamos dando lugar a Satanás. Quando isso vai acabar?
9ª Reconhecer os ofícios outorgados por Cristo para a edificação do corpo. “E Ele mesmo deu uns para apóstolos, e outros para profetas, e outras para evangelistas, e outras para pastores e doutores” (Ef 4:11).
Algumas igrejas simplesmente ignoram este texto, eliminando alguns ofícios e, por incrível que pareça, instituindo outros. Algumas igrejas ignoram e atacam os apóstolos, pois entendem não há sucessão apostólica. Olha, deixa-me esclarecer uma coisa, a ordem apostólica que se encerrou foi a dos apóstolos de fundamentação, da qual Paulo foi o último, mas o Espírito Santo continua ungindo apóstolos. Você conhece Andrônico e Júnias, parentes de Paulo? Pois é, não faziam parte dos treze, mas eram notáveis entre os apóstolos (Rm 16:7). Os evangelistas também andam sumidos, os profetas então, nem se fala! Alguns chegam até a dizer que isso não existe mais. Na minha bíblia, pelo menos, encontro alguns exemplos neotestamentários como Ágabo, que inclusive profetiza à moda antiga, véterotestamentária (At 11:27, 28; 21:10, 11; Jr 13:1-9), e os líderes da igreja em Antioquia (At 13:1).
Quando os cinco ofícios não são reconhecidos pela igreja, o corpo sofre, pois são esses ofícios que garantem a unidade da fé e o amadurecimento do corpo. “Querendo o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, para a edificação do corpo de Cristo; até que todos cheguemos à unidade da fé, e ao conhecimento do Filho de Deus, à medida da estatura completa de Cristo” (Ef 4:12, 13).
Mais uma coisa. Por que só pastores são remunerados pela igreja e têm o privilégio de servir ao Senhor em tempo integral? Parece-me que os mestres também deveriam gozar dessa benção divina (Gl 6:6). E os outros ofícios? Não diz a Escritura que não se deve ligar a boca do boi que debulha (I Tm 5:18)? Só os pastores debulham? Ou não diz a Escritura que aqueles que administram o que é sagrado comem do templo, e aqueles que de contínuo estão junto ao altar, participam do altar (I Co 9:13)?
10ª Tratar o pecado antes de adorar. “E da congregação dos filhos de Israel tomará dois bodes para a expiação do pecado e um carneiro para o holocausto” (Lv 16:5).
O holocausto era o sacrifício de adoração, e nunca era oferecido antes do ofertante ser purificado pelo sacrifício de expiação. Pois adoração sem santidade não é aceita no céu. Nós começamos o culto pelo fim. Primeiro adoramos, depois, dependendo da mensagem, confessamos os nossos pecados a Cristo. A Palavra tanto é um espelho que revela as nossas mazelas como um lavatório onde podemos branquear nossas máculas. A pergunta é: Deus aceitou a adoração que foi oferecida antes de nós nos olharmos no espelho e visitarmos o lavatório? A adoração perfumada é a adoração arrependida.
“Se alguém cuida ser profeta ou espiritual,
reconheça que as coisas que vos escrevo são mandamentos do Senhor,
mas se alguém ignora isto,
que ignore.”
I Co 14:37,38
Arthur Alexandre Costa Pereira - Bacharel em Teologia/ O Arthur foi meu prof. de Introdução Bíblica no seminário Ceforte em Petrópolis.Excelente caráter,como costumo a dizer: um servo inútil!!!
1ª Orar. “... a minha casa será chamada casa de oração para todos os povos” (Is 56:7).
Por incrível que pareça é o que menos se faz na igreja. Às vezes, se gasta mais tempo com anúncios e outras atividades que orando; a própria reunião de oração está comprometida. Além disso, durante o culto, algumas orações feitas são litúrgicas, o tipo de oração que Jesus chamaria de oração repetitiva, e nós de reza. Criticamos os católicos por causa da ladainha, mas nós mesmos estamos incorrendo no mesmo erro.
2ª ministrar às viúvas e aos órfãos. “A religião pura e imaculada para com Deus, o Pai, é esta: visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações, e guardar-se da corrupção do mundo” (Tg 1:27). “Honra as viúvas que verdadeiramente são viúvas” (I Tm 5:3).
Há uma ênfase divina com respeito às viúvas e os órfãos em toda a bíblia. Sim, Ele é o pai dos órfãos e marido das viúvas, mas a eles ministra através da igreja. Em I Tm 5:9, Paulo indica que havia um registro das viúvas. Para que seria esse registro? Apenas para constar na ficha de membro, ou para que a igreja assumisse a viúva e dela cuidasse (At 6:1)?
3ª Fazer coletas para os santos necessitados. “Ora, quanto à coleta que se faz para os santos, fazei vós também o mesmo que ordenei às igrejas da Galácia. No primeiro dia da semana cada um de vós ponha de parte o que puder ajuntar, conforme a sua prosperidade, para que não se façam coletas quando eu chegar” (I Co 16:1, 2).
Hoje em dia se tira oferta para tudo, principalmente para a importante reforma do templo. Eu não sou contra tirar ofertas para suprir uma necessidade, contanto que seja plausível, mas, existe um templo mais importante para se aplicar o dinheiro: os santos necessitados, que são os verdadeiros templos de Deus, tendo em vista, que Deus não habita em templos feitos por mãos humanas. São santos porque foram separados, e a santificação é para a habitação de Deus nos santificados. Enquanto os grandes projetos da igreja são levados a cabo, o projeto divino de suprir financeiramente os santos fica para trás. O que adianta ter uma igreja bonita e, paralelamente, estar cheia de membros necessitados?
4ª Partilhar o pão>.”E a multidão o interrogava dizendo: que faremos pois? E, respondendo ele, disse-lhes: quem tiver duas túnicas, reparta com o que não tem, e quem tiver alimentos, faça da mesma maneira” (Lc 3:10, 11). “E todos os que criam estavam juntos, e tinham tudo em comum. E vendiam suas propriedades e bens, e repartiam com todos, segundo cada um havia de mister – necessidade” (At 2:44, 45).
Certa vez eu estava ministrando a Palavra e parafraseei o que João, o batista, disse em Lc 3:10, 11. Declarei: “Quem tiver dois carros, reparta com quem não tem; quem tiver vários imóveis, procure um irmão necessitado para doar...”. No final da Palavra (fiquei sabendo depois), uma pessoa bem sucedida financeiramente da minha igreja procurou um de meus pastores e disse: “O que o Arthur falou é um absurdo! Quando Deus toca no meu coração eu abençôo”. Olha, deixa eu te dizer uma coisa, se eu vir meu irmão necessitado e Deus ainda tiver que tocar no meu coração é porque eu estou ainda muito endurecido! “Quem, pois tiver bens no mundo, e, vendo o seu irmão necessitado, lhe cerrar as entranhas, como estará nele o amor de Deus (I Jo 3:17)?
É bom lembrar que a distribuição era feita segundo a necessidade de cada um, e não apenas um quebra-galho; o problema era resolvido. A igreja primitiva não fazia uso de paliativos.
5ª Não extinguir o Espírito (I Ts 5:19).
O termo extinguir tem vários sentidos, entre eles, sufocar, apagar, limitar. Esse sufocamento tem dois níveis. O nível congregacional e o nível individual. O sufocamento em nível congregacional é promovido por aquele que dirige o culto. Existe uma herança litúrgica romana muito forte dentro da igreja de Cristo, a partir da fusão da Igreja com o Estado em 313 a.D. Os cultos na igreja primitiva eram espontâneos. Um tinha salmo, outro doutrina, outro revelação, profecia, cântico espiritual, etc. A partir da referida data, o culto passou de espontâneo a litúrgico. Uma metodologia engessada foi introduzida e os cultos foram se tornando frios até chegarem ao que hoje conhecemos por missa. O culto passou a ser fruto da mente e não algo gerado pelo Espírito de Deus. Quando o Espírito Santo consegue aquecer a igreja e esta começa a responder à Presença de Deus com adoração, línguas e orações espontâneas, o dirigente diz: “Amém; amém. Aleluia, amém”. Na verdade, o que ele está falando é: Espírito Santo fique quieto, afinal, está na hora da mensagem, que por sua vez, também costuma ser fruto do treinamento. A noiva é arrancada violentamente dos braços do Noivo em nome do programa a ser seguido. A prédica é perfeita! Os recursos homiléticos e hermenêuticos garantem a precisão exegética e expositiva da mensagem, só não conseguem produzir a unção necessária para satisfazer as almas famintas. Que pregação nossa pode substituir o que o Espírito Santo está fazendo?
A extinção do Espírito nesse nível é um câncer tão severo que em 24 de Agosto de 1662, dois mil ministros puritanos foram excluídos dos seus púlpitos pelo Ato de Uniformidade, baixado pelo Parlamento inglês, conhecido pelos evangélicos como A Grande Ejeção. A religião oficial era a Igreja Anglicana, e forçava os puritanos a se moldarem à adoração litúrgica decretada por lei. Eles preferiram o silêncio à transigência.
O sufocamento em nível individual é o fruto do sufocamento em nível coletivo. O novo crente não é ensinado a andar no Espírito. Ensinam a ele como a denominação funciona, e não como o reino de Deus funciona. Quando é tocado particularmente pelo Espírito no banco, ou no púlpito, se sente inibido, afinal, se eu levantar as mãos e começar a adorar a Deus fora do período de louvor ou se sentir vontade de me prostrar ao Senhor no corredor no meio da mensagem, o que as pessoas vão falar de mim? Se eu começar a dançar perante a Arca, Mical pode me reprovar (II Sm 6).
Alguém vai contra argumentar dizendo que o culto precisa ter ordem. Eu concordo. Nosso Deus é um Deus ordeiro, mas quando Paulo fala da ordem do culto em I Co 14, ele não está falando de liturgia. Ordem e liturgia são duas coisas diferentes. A liturgia está fora da ordem de Deus.
6ª Apascentar o rebanho de Deus. “Olhai, pois, por vós, e por todo o rebanho sobre que o Espírito Santo vos constitui bispos, para apascentardes a igreja de Deus, que ele resgatou com seu próprio sangue” (At 20:28).
Existe uma falta extraordinária de pastores. As ovelhas estão, literalmente, se virando, e como a ovelha é um animal desprovido de inteligência, come qualquer coisa, bebe em qualquer fonte, vai com qualquer um. Os pastores têm se tornado profissionais do púlpito e empregados da igreja. A agenda está sempre cheia, mas de compromissos secundários: administrativos e sociais. Enquanto isso, as ovelhas disputam um lugar na fila para terem uma conversa de 30 minutos com o seu pastor, pois só atende uma vez na semana e tem várias ovelhas para entrar em seguida.
Eu tenho um trauma que chamo de trauma de tempo. Já estou sendo curado, mas reconheço que ainda falta. Minha esposa é uma mulher incrível, não existe ninguém igual a ela, mas nós estávamos passando um momento muito difícil no casamento e estávamos sendo aconselhados por um casal de pastores. Numa segunda-feira, eu fui me aconselhar, e, subitamente, no meio do aconselhamento ele disse: “Tenho que preparar a mensagem para o culto amanhã“. Ainda era hoje, e ele não percebeu que tinha uma ovelha quebrada diante dele (Ez 34)? Isso sem falar que muitos pastores não cuidam nem da sua vida espiritual, como vão cuidar de outros? Ninguém pode dar o que não tem; ninguém leva ninguém aonde não tenha ido.
A tarefa de cuidar um do outro não é só pastoral (I Co 2:25 b), mas o ofício pastoral tem a unção primeira, e o pastor é o responsável por espalhar essa unção sobre os outros membros do corpo.
7ª Adorar a Deus com palmas e danças. “Batei palmas todos os povos, aclamai a Deus com vozes de triunfo” (Sl 47:1). “Então a virgem se alegrará na dança, como também os jovens e os velhos juntamente; e tornarei o seu pranto em alegria, e os consolarei, e lhes darei alegria em lugar de tristeza” (Jr 31:13).
O então do versículo 13, diz respeito ao resgate do versículo 11. Ora, não é motivo de alegrar-nos com palmas e danças pelo grande livramento que Ele nos deu? Eu não estou falando de dança do grupo de coreografia, estou falando da dança da noiva. Algumas igrejas parecem trocar a Palavra de Deus pelos seus próprios costumes, que são estranhos ao céu. Talvez, as bíblias usadas nessas congregações faltem esses versículos.
8ª Viver uma comunhão genuína. “Para que todos sejam um, como tu, ó Pai, o és em mim, e eu em ti; que também eles sejam um em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste” (Jo 17:21).
Alguns pastores não permitem que suas ovelhas se misturem com outras, esquecem-se que todas as ovelhas pertencem a Jesus; e há outros pastores de pastores, que não aprovam um relacionamento mais próximo com líderes de outras congregações, são os exclusivistas; os donos do céu! Isso é hipocrisia. Por que então participam dos Conselhos de Pastores? Só existe um rebanho, um Pastor, um corpo. Muitos membros na verdade, mas um só corpo. Todos fomos identificados com Cristo no batismo e comemos o mesmo pão e bebemos o mesmo cálice (com exceção de algumas Igrejas Batistas que só servem a ceia para seus membros, deixando assim de ser a mesa do Senhor para ser a mesa da Igreja Batista). Fomos batizados no mesmo Espírito e bebemos do mesmo Espírito. Jesus disse que é pela unidade que o mundo vai reconhecer o amor de Deus. Estamos dando lugar a Satanás. Quando isso vai acabar?
9ª Reconhecer os ofícios outorgados por Cristo para a edificação do corpo. “E Ele mesmo deu uns para apóstolos, e outros para profetas, e outras para evangelistas, e outras para pastores e doutores” (Ef 4:11).
Algumas igrejas simplesmente ignoram este texto, eliminando alguns ofícios e, por incrível que pareça, instituindo outros. Algumas igrejas ignoram e atacam os apóstolos, pois entendem não há sucessão apostólica. Olha, deixa-me esclarecer uma coisa, a ordem apostólica que se encerrou foi a dos apóstolos de fundamentação, da qual Paulo foi o último, mas o Espírito Santo continua ungindo apóstolos. Você conhece Andrônico e Júnias, parentes de Paulo? Pois é, não faziam parte dos treze, mas eram notáveis entre os apóstolos (Rm 16:7). Os evangelistas também andam sumidos, os profetas então, nem se fala! Alguns chegam até a dizer que isso não existe mais. Na minha bíblia, pelo menos, encontro alguns exemplos neotestamentários como Ágabo, que inclusive profetiza à moda antiga, véterotestamentária (At 11:27, 28; 21:10, 11; Jr 13:1-9), e os líderes da igreja em Antioquia (At 13:1).
Quando os cinco ofícios não são reconhecidos pela igreja, o corpo sofre, pois são esses ofícios que garantem a unidade da fé e o amadurecimento do corpo. “Querendo o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, para a edificação do corpo de Cristo; até que todos cheguemos à unidade da fé, e ao conhecimento do Filho de Deus, à medida da estatura completa de Cristo” (Ef 4:12, 13).
Mais uma coisa. Por que só pastores são remunerados pela igreja e têm o privilégio de servir ao Senhor em tempo integral? Parece-me que os mestres também deveriam gozar dessa benção divina (Gl 6:6). E os outros ofícios? Não diz a Escritura que não se deve ligar a boca do boi que debulha (I Tm 5:18)? Só os pastores debulham? Ou não diz a Escritura que aqueles que administram o que é sagrado comem do templo, e aqueles que de contínuo estão junto ao altar, participam do altar (I Co 9:13)?
10ª Tratar o pecado antes de adorar. “E da congregação dos filhos de Israel tomará dois bodes para a expiação do pecado e um carneiro para o holocausto” (Lv 16:5).
O holocausto era o sacrifício de adoração, e nunca era oferecido antes do ofertante ser purificado pelo sacrifício de expiação. Pois adoração sem santidade não é aceita no céu. Nós começamos o culto pelo fim. Primeiro adoramos, depois, dependendo da mensagem, confessamos os nossos pecados a Cristo. A Palavra tanto é um espelho que revela as nossas mazelas como um lavatório onde podemos branquear nossas máculas. A pergunta é: Deus aceitou a adoração que foi oferecida antes de nós nos olharmos no espelho e visitarmos o lavatório? A adoração perfumada é a adoração arrependida.
“Se alguém cuida ser profeta ou espiritual,
reconheça que as coisas que vos escrevo são mandamentos do Senhor,
mas se alguém ignora isto,
que ignore.”
I Co 14:37,38
Arthur Alexandre Costa Pereira - Bacharel em Teologia/ O Arthur foi meu prof. de Introdução Bíblica no seminário Ceforte em Petrópolis.Excelente caráter,como costumo a dizer: um servo inútil!!!
terça-feira, 8 de julho de 2008
O Cargo de Pastor em Questão
*************************************************************
Creio que a raiz da insatisfação com o modelo de igreja atual reside no seguinte fato: O modelo de igreja cristã estabelecido por Cristo e praticado por seus apóstolos e discípulos no primeiro século foi deturpado ao longo da história do cristianismo. Os reformadores conseguiram recuperar parte do que foi destruído, mas deixaram muito por fazer. O modelo eclesiástico adotado pelas igrejas protestantes hoje não é o modelo que foi estabelecido por Cristo.
Das inúmeras “deturpações” católicas não reformada pelos protestantes quero continuar comentando sobre a figura do pastor remunerado.
O modelo de comunidade cristã estabelecido no primeiro século era orgânico e não organizacional, hierárquico e clerical. Isso significa que cada membro tinha ativa participação em ministérios relacionados com os seus dons e vocação. Embora os apóstolos que viajavam fundando igrejas pudessem vez ou outra receber alguma contribuição financeira, não havia o cargo de pastor local remunerado. Os crentes trabalhavam de forma voluntária.
Os pastores protestantes são uma reminiscência da divisão clero/leigo estabelecida na igreja católica. Embora os reformadores tenham restaurado o conceito de “sacerdócio universal de todos os crentes” dentro de um aspecto soteriológico (um crente não necessita mais de intercessão de um sacerdote humano para ser salvo), os reformadores falharam em estabelecer este conceito num aspecto eclesiológico (a figura de um pastor local remunerado caracterizando o clero continua vigente no modelo eclesiástico dos protestantes).
Pagar um homem para ser o pastor da igreja acaba tendo consequências danosas não só para a igreja como para o pastor e sua família. Manter um pastor remunerado implica quase sempre num aumento da expectativa dos membros em relação a sua performance. Espera-se que o pastor seja proficiente no exercício de todos os ministérios (ensino, pregação, visitação, assistência social, aconselhamento familiar, estabelecimento de novas comunidades em locais não alcançados, etc...). Não há tal homem com tantos dons: Alguns tem dom de pregar, outros de estabelecer novas igrejas, outros de dar aconselhamento. Quando os membros percebem que o seu pastor não tem todos estes dons acabam vendo suas expectativas frustradas. O pastor percebe esta frustração e tenta absorver as críticas de maneira a proteger seu emocional, sua família e seu emprego.
Esse não era o projeto original de Deus. Ele idealizou a igreja como uma entidade orgânica composta por vários membros no mesmo nível hierárquico e colocou Cristo como o cabeça da Igreja.
Melhor seria se o modelo eclesiástico do Novo Testamento fosse novamente adotado. Cada membro poderia exercitar melhor os seus dons, reconhecer sua responsabilidade no corpo eclesiástico e se estribar apenas na liderança de Jesus Cristo. Isso evitaria toda esta insatisfação com a casta pastoral que temos observado atualmente.
*Ricardo Nicotra.
Creio que a raiz da insatisfação com o modelo de igreja atual reside no seguinte fato: O modelo de igreja cristã estabelecido por Cristo e praticado por seus apóstolos e discípulos no primeiro século foi deturpado ao longo da história do cristianismo. Os reformadores conseguiram recuperar parte do que foi destruído, mas deixaram muito por fazer. O modelo eclesiástico adotado pelas igrejas protestantes hoje não é o modelo que foi estabelecido por Cristo.
Das inúmeras “deturpações” católicas não reformada pelos protestantes quero continuar comentando sobre a figura do pastor remunerado.
O modelo de comunidade cristã estabelecido no primeiro século era orgânico e não organizacional, hierárquico e clerical. Isso significa que cada membro tinha ativa participação em ministérios relacionados com os seus dons e vocação. Embora os apóstolos que viajavam fundando igrejas pudessem vez ou outra receber alguma contribuição financeira, não havia o cargo de pastor local remunerado. Os crentes trabalhavam de forma voluntária.
Os pastores protestantes são uma reminiscência da divisão clero/leigo estabelecida na igreja católica. Embora os reformadores tenham restaurado o conceito de “sacerdócio universal de todos os crentes” dentro de um aspecto soteriológico (um crente não necessita mais de intercessão de um sacerdote humano para ser salvo), os reformadores falharam em estabelecer este conceito num aspecto eclesiológico (a figura de um pastor local remunerado caracterizando o clero continua vigente no modelo eclesiástico dos protestantes).
Pagar um homem para ser o pastor da igreja acaba tendo consequências danosas não só para a igreja como para o pastor e sua família. Manter um pastor remunerado implica quase sempre num aumento da expectativa dos membros em relação a sua performance. Espera-se que o pastor seja proficiente no exercício de todos os ministérios (ensino, pregação, visitação, assistência social, aconselhamento familiar, estabelecimento de novas comunidades em locais não alcançados, etc...). Não há tal homem com tantos dons: Alguns tem dom de pregar, outros de estabelecer novas igrejas, outros de dar aconselhamento. Quando os membros percebem que o seu pastor não tem todos estes dons acabam vendo suas expectativas frustradas. O pastor percebe esta frustração e tenta absorver as críticas de maneira a proteger seu emocional, sua família e seu emprego.
Esse não era o projeto original de Deus. Ele idealizou a igreja como uma entidade orgânica composta por vários membros no mesmo nível hierárquico e colocou Cristo como o cabeça da Igreja.
Melhor seria se o modelo eclesiástico do Novo Testamento fosse novamente adotado. Cada membro poderia exercitar melhor os seus dons, reconhecer sua responsabilidade no corpo eclesiástico e se estribar apenas na liderança de Jesus Cristo. Isso evitaria toda esta insatisfação com a casta pastoral que temos observado atualmente.
*Ricardo Nicotra.
terça-feira, 1 de julho de 2008
O QUE EU TENHO APRENDIDO COM A PRÁTICA?
Teoria e prática são duas coisas que embora sejam distintas, estão muito ligadas entre si. A prática é o objetivo da teoria, no ministério, a prática serve para confirmar ou destruir nossas teorias, serve para nos fazer aprender a cada dia mais.
Com a prática ministerial tenho aprendido que querer agradar as autoridades é na verdade uma grande bobagem e ilusão, o reconhecimento dos superiores passa a ser conseqüência de quando damos o nosso melhor a Deus e o buscamos servi-lo e agradá-lo;
Com a prática tenho aprendido a enojar a postura de alguns que ao receberem um pouco de poder já se sentem superiores aos demais, tenho aprendido que a humildade é a melhor opção e que quando a praticamos é como se o Senhor derramasse constantemente de sua graça sobre nós e nos sentimos melhor com a gente mesmo, a arrogância é na verdade a camuflagem da incompetência;
Com a prática tenho aprendido que o pastor tem que ter cheiro de ovelha, sua atenção e seu carinho precisam estar voltados a elas, pastor que tem cheiro de pastor precisa na verdade, ser pastoreado e não pastorear;
Com a prática tenho aprendido que as soluções mais eficazes são as mais simples, que muitas vezes as soluções fantásticas são formas de nos portarmos independentemente do que Deus quer buscá-lo é a solução;
Com a prática tenho aprendido que o poder de Deus é o diferencial, diferencial este que fez a Igreja Primitiva impactar o mundo de sua época sem estratégias magníficas, como os grandes shows, os mega-eventos, mas, sim com o discipulado bíblico;
Com a prática tenho aprendido que o radicalismo extra-bíblico não leva a lugar nenhum, e que o contrario disso não significa negligencia quanto ao erro;
Com a prática tenho aprendido que ficar a mercê dos números é vender o próprio ministério, que a saúde de alguns é mais valiosa que muitos doentes que abarrotam os bancos de nossas Igrejas sem encontrar adequado tratamento;
Com a prática tenho aprendido a valorizar os fieis trabalhadores e os que têm zelo pela obra de Deus o suficiente para criticarem uma conduta errada em detrimento dos bajuladores de plantão, interessados neles mesmos;
Enfim, tenho aprendido muito mais com a prática que com a teoria e uma dessas coisas é que a hora de falar e a hora de calar.
YEHOSHUA HAMASHIACH ADONAI.
Pr. Jansen Racco
Pastor da Igreja Metodista Wesleyana no Castelo São Manoel (Petrópolis) e na cidade de Santana do Deserto (MG). Professor do CEFORTE - Petrópolis nas cadeiras de GEOGRAFIA BÍBLICA E HISTÓRIA ECLESIÁSTICA. BACHAREL em Teologia.
* Pr. Jansen foi meu professor de Geografia Bíblica, um excelente carácter!
Com a prática ministerial tenho aprendido que querer agradar as autoridades é na verdade uma grande bobagem e ilusão, o reconhecimento dos superiores passa a ser conseqüência de quando damos o nosso melhor a Deus e o buscamos servi-lo e agradá-lo;
Com a prática tenho aprendido a enojar a postura de alguns que ao receberem um pouco de poder já se sentem superiores aos demais, tenho aprendido que a humildade é a melhor opção e que quando a praticamos é como se o Senhor derramasse constantemente de sua graça sobre nós e nos sentimos melhor com a gente mesmo, a arrogância é na verdade a camuflagem da incompetência;
Com a prática tenho aprendido que o pastor tem que ter cheiro de ovelha, sua atenção e seu carinho precisam estar voltados a elas, pastor que tem cheiro de pastor precisa na verdade, ser pastoreado e não pastorear;
Com a prática tenho aprendido que as soluções mais eficazes são as mais simples, que muitas vezes as soluções fantásticas são formas de nos portarmos independentemente do que Deus quer buscá-lo é a solução;
Com a prática tenho aprendido que o poder de Deus é o diferencial, diferencial este que fez a Igreja Primitiva impactar o mundo de sua época sem estratégias magníficas, como os grandes shows, os mega-eventos, mas, sim com o discipulado bíblico;
Com a prática tenho aprendido que o radicalismo extra-bíblico não leva a lugar nenhum, e que o contrario disso não significa negligencia quanto ao erro;
Com a prática tenho aprendido que ficar a mercê dos números é vender o próprio ministério, que a saúde de alguns é mais valiosa que muitos doentes que abarrotam os bancos de nossas Igrejas sem encontrar adequado tratamento;
Com a prática tenho aprendido a valorizar os fieis trabalhadores e os que têm zelo pela obra de Deus o suficiente para criticarem uma conduta errada em detrimento dos bajuladores de plantão, interessados neles mesmos;
Enfim, tenho aprendido muito mais com a prática que com a teoria e uma dessas coisas é que a hora de falar e a hora de calar.
YEHOSHUA HAMASHIACH ADONAI.
Pr. Jansen Racco
Pastor da Igreja Metodista Wesleyana no Castelo São Manoel (Petrópolis) e na cidade de Santana do Deserto (MG). Professor do CEFORTE - Petrópolis nas cadeiras de GEOGRAFIA BÍBLICA E HISTÓRIA ECLESIÁSTICA. BACHAREL em Teologia.
* Pr. Jansen foi meu professor de Geografia Bíblica, um excelente carácter!
segunda-feira, 23 de junho de 2008
Graça Preveniente – Uma Visão Wesleyana
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O campo comum sobre o qual nós como teólogos evangélicos opinamos é importante, e discutir na área de nossos acordos é de grande valor. Apesar de concordarmos que a Palavra de Deus é infalivelmente verdadeira, nossas mentes falhas muitas vezes viajam em caminhos divergentes na tentativa de alcançar a verdade. A comunhão cristã, então, é baseada mais no amor e no entendimento que na completa concordância em todas as doutrinas.
A discussão ocasional de algumas de nossas diferenças também se revela útil visto que recebemos um melhor entendimento uns dos outros. Conhecer e apreciar a visão do outro, sempre quando um não concordar com o outro, constrói o amor cristão e a comunhão no Espírito Santo. Esta é a razão para este artigo sobre a graça preveniente ter sido preparado. É esperado que este esforço traga um maior entendimento das diferentes ênfases em círculos Wesleyanos.
1. A graça preveniente é a graça comum ou universal. John Wesley usou a palavra “preveniente” que em seus dias significava “vir anteriormente.” Esta graça que vem antes da salvação é dada a todo o homem. Wesley escreveu:
Todas as bênçãos que Deus tem concedido ao homem são de Sua simples graça, doação ou favor; Seu favor gratuito imerecido; favor completamente imerecido; não tendo o homem direito à menor de Suas misericórdias. Esta é a graça gratuita que “formou o homem do pó da terra, e soprou nele uma alma vivente e imprimiu em sua alma a imagem de Deus, e pôs todas as coisas sob seus pés.” Esta mesma graça gratuita continua para nós nestes dias, vida, respiração e todas as coisas. Não existe nada que somos, tenhamos ou façamos que justifique a mínima coisa das mãos de Deus. “Todo nosso trabalho, Tu, ó Deus, tens feito em nós.” Estas, portanto, são tantos mais exemplos de gratuita misericórdia: qualquer integridade que possa ser achada no homem, isto também é dom de Deus.
A graça preveniente é revelada no providencial cuidado de Deus por todas as Suas criaturas. Paulo reconheceu isto quando disse: “porque nEle vivemos e nos movemos e temos existido” (At 17.28). O homem caído no pecado teria finalizado a graça providencial de Deus por ele se não existisse o gracioso plano de redenção. Agora, para o homem caído, aquela graça continua a fluir a fim de completar o divino propósito da redenção. Existe continuidade entre a graça providencial para todos e a graça que orienta para a salvação.
Para Wesley, a própria existência da humanidade era dependente da graça de Deus. Tivesse o castigo pela queda de Adão no pecado acontecido sem misericórdia, Adão teria morrido e a humanidade perecido com ele. Assim, a vida física propriamente dita e todas as bênçãos resultantes dela são um direto resultado desta graça. A graça de Deus está em todo homem, não no sentido de haver nascido com ele, mas de ser “infundida” nele. Ao ímpio é dado na mesma medida um conhecimento de Deus e uma consciência que carrega a indicação do certo e do errado. Wesley escreveu que o “primeiro sinal real do bem vem do alto tanto quanto o poder que o conduz até o fim.” É Deus quem “infunde todo bom desejo” e ainda o acompanha e o segue. Assim, um homem pode ser de um compassivo e benevolente espírito, ser amável, gentil, ter classe, fazer boas ações e sempre atender a igreja. Tudo de bom resulta da graça preveniente.
Esta graça contém todas as qualidades atribuídas à graça comum pelos Reformadores. O Dr. M. Eugene Osterhaven em seu excelente artigo sobre a “Graça Comum” descreve a obra geral da graça de uma maneira muito similar ao entendimento Wesleyano da graça preveniente. A graça comum, de acordo com o artigo, “restringe o pecado de forma que a ordem é mantida e a cultura e a integridade são promovidas.” Deus faz isto refreando o pecado na vida do indivíduo e da sociedade. “Deus por Sua providência reprime a teimosia de nossa natureza de manifestar-se em atos externos.” O Dr. Osterhaven vai mais além em salientar que a graça comum habilita o homem a fazer algo bom. Deus não tem desamparado completamente a humanidade, mas continua a lhe dar abundante evidência de Sua compaixão. O homem é habilitado a fazer certas coisas boas por causa da providência geral e benção de Deus em direção a todo homem.
Embora os ensinamentos da graça comum e da graça preveniente tenham muito em comum, a diferença essencial é vista no ponto onde a graça comum e a graça especial são entendidas pelos Calvinistas como essencialmente diferentes. Os Wesleyanos ensinam que a graça preveniente leva à graça salvadora, prepara para ela, habilita a pessoa a adentrar nela. A diferença entre as duas para os Wesleyanos seria em grau e não em tipo.
2. Ela é ministrada através do Espírito Santo. Freqüentemente a graça é vista como um favor imerecido de Deus, o que de fato é. Mas esta graça é também vista ser um poder operativo de Deus na vida dos homens. Por esta razão, existe uma relação fechada entre a atuação do Espírito Santo e a graça de Deus.
Um recente livro intitulado With the Holy Spirit and With Fire, de Samuel M. Shoemaker, enfatiza este aspecto da graça muito claramente. Dr. Shoemaker escreveu:
Eu penso nEle como o centro vagueante de toda a atividade de Deus no mundo. Ele é o Inspirador de toda a verdade – filosófica, científica, prática, tanto quanto a espiritual. Ele é o Criador de toda a beleza, seja ela canalizada através de instrumentos dignos ou não... Ele é o Autor de toda verdade em toda parte – é dEle o conhecer e o dispensar. Ele está em toda obra de misericórdia, em toda boa e gentil vida, em toda reconciliação entre pessoas ou grupos ofendidos, em toda elevação do espírito de pessoas postas à prova ou em sofrimento. Em tudo de bom que os homens parecem fazer, encontraremos uma mão invisível a agir em motivação a isto e dando graça para conduzir isto continuamente. No mais obscuro e pior dos homens, qualquer centelha de bondade subsistindo para ser tocada, ela é o Espírito Santo. Ele é mais penetrante que o éter. Ele é Deus em Sua total extensão, muito engenhoso e muito hábil nos mais vastos aspectos. Ele é Deus em Seu mais exato e íntimo aspecto. Em Sua própria gentil maneira, Ele está tomando a iniciativa conosco.
Se concordamos com o Sr. Shoemaker em toda a sua afirmação ou não, suas idéias são instrutivas. Antes que manter que o bem encontrado no homem à parte da salvação é uma bondade restante da queda do homem, o Arminianismo-Wesleyano sempre ensinou que Deus sobrenaturalmente restituiu a todos os homens uma porção do Seu Espírito Santo através da graça que flui do Calvário. O Dr. L. M. Starkey em seu estudo sobre a Teologia Wesleyana enfatiza o fato de que Wesley identificou a graça de Deus com o poder do Espírito Santo na vida humana. Qualquer bem achado no governo ou em qualquer pessoa seria um resultado da presença do Santo Espírito de Deus. Visto que Ele é o Espírito da verdade, então qualquer verdade que venha para a humanidade, até mesmo à parte do Cristianismo, é um resultado do Espírito Santo. De fato, algum conhecimento de Deus é infundido na mente dos homens pelo Espírito Santo. A própria existência da lei natural bem como sua aplicação, até mesmo pelos homens sem Deus, não pode ser separada da obra do Espírito Santo. Desta maneira, uma quantidade de graça é ministrada a todos os homens pelo Espírito Santo de Deus, tendo eles a Escritura ou não.
3. Ela leva à salvação. Embora os Wesleyanos possam consentir que tudo o que é afirmado para a graça comum pode também ser afirmado para a graça preveniente, todavia eles defendem que o propósito primário da graça preveniente não é restringir o pecado e dar bons desejos e bênçãos ao homem; esta graça é dada a fim de levar os homens ao arrependimento e à salvação. O propósito primário de Deus em permitir a existência da raça humana é trazer os homens à salvação. Wesley escreveu:
Por admitir que todas as almas dos homens estão mortas no pecado por natureza, isto não justifica ninguém, visto que não existe nenhum homem no estado de mera natureza; não existe nenhum homem, a não ser que tenha extinguido o Espírito, que esteja absolutamente vazio da graça de Deus. Nenhum homem vivo é inteiramente destituído do que é vulgarmente chamado de consciência natural. Mas isto não é natural: é mais apropriadamente chamado, graça preveniente. Todo homem tem uma maior ou menor quantidade desta, que não espera pelo convite do homem. Todos têm, cedo ou tarde, bons desejos; embora a maioria dos homens sufoque-os antes deles poderem enraizar-se ou produzir algum fruto considerável. Todos têm alguma quantidade dessa luz, algum fraco raio lampejante que, cedo ou tarde, mais ou menos, ilumina todo o homem que vem ao mundo. E todos, a não ser que ele seja um dos poucos cuja mente está cauterizada com ferro quente, sente mais ou menos incômodo quando age contrário à luz de sua própria consciência. De forma que ninguém peca porque não tem graça, mas porque não faz uso da graça que tem.
Wesley não teve dificuldade em descrever a queda do homem em termos bem sombrios. A queda corrompeu a natureza humana e tornou o homem completamente destituído de qualquer glória moral com que foi criado. Por natureza, o homem está completamente caído. O pecado original envolveu o homem em culpa e o expôs à ira de Deus. A ira de Deus descansou sobre a raça humana por causa do pecado de Adão. Por natureza, todos são filhos da ira. Mas enquanto Wesley viu este lado negro e escuro do homem, ele também viu essa graça preveniente dada a todo homem, e lançando fora a pena pelo pecado herdado de Adão.
Por causa da graça de Deus, nenhum homem será punido pelo pecado de Adão. A todo homem é dado um novo começo através da graça. John Fletcher insistiu que, por este dom gratuito a todo homem, Deus tem garantido incondicional perdão para o pecado original. Eldon Fuhrman afirma que, por este entendimento da justificação de todo homem pela graça de Deus, Wesley admitia a excessiva pecaminosidade do pecado original com seu completo castigo de um lado e, do outro lado, exaltava a obra expiatória de Cristo. “Isto o absolveu da fraqueza dos Semi-Pelagianos, que negavam a completa força do castigo; e também o salvou das extremas conclusões para a qual a liderança federal de Adão tinha sido levada.” Surgindo deste benefício da graça preveniente, existe a doutrina de que todas as crianças que morrem na infância são redimidas através da graça gratuita de Deus e todas as outras pessoas que são incapazes de fazer escolhas.
A salvação inicia com a graça preveniente e continua até a glorificação final. Wesley escreveu:
A salvação começa com aquilo que é geralmente chamado (e muito apropriadamente) de graça preveniente: incluindo o primeiro desejo de agradar a Deus, a primeira aurora de luz relativa à Sua vontade, e a primeira efêmera convicção de ter pecado contra Deus. Tudo isto implica alguma tendência em direção à vida; algum grau de salvação; o início da libertação de um cego e insensível coração, completamente inconsciente de Deus e das coisas de Deus. A salvação continua pela graça convincente, geralmente chamada na Escritura de arrependimento: que traz uma maior quantidade de conhecimento próprio, e uma mais completa entrega do coração de pedra. Depois experimentamos a própria salvação cristã; segundo a qual “pela graça” “somos salvos por meio da fé;” consistindo das sublimes ramificações, a justificação e a santificação.
Assim, a salvação do homem é dependente da resposta do homem, pela graça preveniente, à graça salvadora de Deus.
4. Ela proporciona responsabilidade pessoal. Apesar de algumas pessoas que dizem ser Wesleyanas mostrem-se Semi-Pelagianas, ninguém, com exatidão, pode acusar John Wesley de cair nesta categoria. Como já relatado, ele descreveu a queda do homem em termos muito negros. Por natureza, o homem não recebe nada que seja bom. De fato, ele é completamente inabilitado a fazer uma boa escolha de qualquer tipo através da natureza. Ele é livre, mas livre só para fazer o mal e a seguir no caminho do pecado. Da natureza ele não recebe nenhuma sugestão de bondade dentro de si mesmo. Não existe bom desejo que venha por meio do nascimento. Ele é totalmente depravado e totalmente inabilitado.
Contra esta negra figura, entretanto, Wesley então dá lugar à graça preveniente fluindo na vida de toda pessoa. É o poder do Espírito Santo de Deus erguendo esse indivíduo acima do que ele havia recebido por meio do nascimento e criando nele um início de vida que o guiará para a vida além, se ele responder a este. Neste sentido toda pessoa tem um grau de vida divina não herdada no nascimento.
Na prática, então, a verdadeira liberdade do homem vem pela graça. À parte da graça preveniente, o homem não poderia ter nenhuma liberdade, exceto liberdade para o mal. Não existiria nenhum poder nele mesmo para escolher o bem ou para até mesmo conhecer o bem. A graça preveniente providencia tanto o incentivo para seguir o bem, o conhecimento do bem e até mesmo o poder para escolher o bem.
É por esta razão que se pode atribuir ao homem o poder para fazer sua própria escolha no que diz respeito à salvação. O próprio poder para fazer esta escolha vem da graça de Deus. Com o poder de escolher a salvação vem também a oferta da graça salvadora. Mas o homem ainda é capaz de rejeitar a salvação oferecida a ele. A graça que é providenciada não é irresistível. O homem pode reagir à graça favoravelmente, segui-la e ser salvo ou ele pode rejeitá-la, colocar-se longe dela, e achar-se mais e mais escolhendo o mal de sua própria natureza. Desta maneira, o homem propositadamente peca em rejeitar a graça dada a ele, ou ele pode viver obediente pela graça que lhe foi dada.
Wesley não atribuiu ao homem um poder natural para fazer boas escolhas, nem ensinou que a escolha de uma salvação individual dependia completamente de Deus. O homem tem uma inabilidade total que é somada à gratuita graça de Deus. Ele faz uma escolha correta pela graça que Deus tem dado a ele. A habilidade para escolher é uma habilidade graciosa.
Com esta graça dada a ele, o homem pode cooperar com Deus. Wesley fixa a verdade “sem mim, nada podereis fazer” ao lado das palavras “posso todas as coisas em Cristo que me fortalece” (Fp 2.12, 13). Então, ele proclama “Aqui a maldição é dissolvida! A luz penetra, e as trevas desaparecem.” Deus uniu estes dois, e não deixa que ninguém os separe. Wesley descreveu a reação do homem a esta graça como segue:
Portanto nós podemos... concluir a absoluta necessidade desta reação da alma (ou como quer que se chame) a fim da continuação da vida divina nela. Pois claramente se percebe que Deus não continua a agir na alma a menos que a alma reaja a Ele. Deus nos guia, de fato, com as bênçãos da Sua bondade. Ele nos amou primeiro e manifestou-se a nós. Enquanto estamos, não obstante, muito distantes, Ele nos chama para si mesmo, e ilumina nossos corações. Mas se nós, então, não amarmos Aquele que nos amou primeiro; se não atendermos à Sua voz; se voltarmos nossos olhos para longe dEle e não atentarmos para a luz que Ele derramou em nós; Seu Espírito não lutará sempre: Ele gradualmente se retirará, e nos deixará às trevas de nossos próprios corações. Ele não continuará a soprar na nossa alma a menos que nossa alma respire em direção a Ele novamente; a menos que o nosso amor, e súplica, e graças voltem-se para Ele, como um sacrifício com o qual Ele se agrada bem.
Aqui está uma forma de sinergismo entendida no meio de um monergismo. Inicialmente Deus age e depois que sua ação começa, então é possível ao homem cooperar com Ele.
5. Ela preserva o sola gratia e o sola fide. O modo no qual o sola gratia é preservado pode agora ser visto. Visto que o homem nada podia fazer sobre sua própria salvação até mesmo no sentido de responder a ela, exceto através da graça que é inicialmente dada a ele por Deus, então, sua própria reação a essa graça é da graça. Embora a graça não seja a causa de sua correta reação, ela certamente é a razão pelo qual ele reage a Deus e se entrega à mais graça. Quando a salvação final é obtida, uma pessoa pode olhar para trás e dizer, “Foi a graça que me trouxe ao lar.” Tal graça dispensa toda idéia de algum mérito humano por qualquer ato que o homem tenha consumado, até mesmo sua ação de livre-escolha em crer para a salvação. Todo o mérito é através da graça de Deus, em Jesus Cristo, o nosso Senhor. Neste sentido é somente pela graça que o homem é salvo.
Ao mesmo tempo, a idéia do sola fide é preservada. A graça preveniente, na verdade, dá mais lugar ao sola fide do que pode ser encontrado nos decretos eternos. Wesley não pôde entender por que seus amigos Calvinistas acusaram-no de não ensinar o “pela fé somente.” Isto o incomodou consideravelmente até o dia que um súbito pensamento atravessou sua mente. Ele o expressou desta maneira:
Fiquei perplexo quando um pensamento cruzou minha mente como um tiro, o qual resolveu a questão de uma vez. Esta é a chave: aqueles que afirmam “todos estão absolutamente predestinados para salvação ou para perdição” não vêem nenhum meio-termo entre a salvação por obras e a salvação por decretos absolutos. Segue que, qualquer que nega a salvação por decretos absolutos, fazendo assim (de acordo com suas percepções) afirma a salvação por obras.
E nisto eu verdadeiramente acredito que eles estão certos. Tão adverso como uma vez estive ao pensamento, após mais consideração, eu admito que não há, não pode haver, nenhum meio-termo. A salvação é por decreto absoluto, ou é (num sentindo bíblico) por obras.
Wesley declarou que nenhum dos dois pode ser por fé, pois o “Decreto incondicional exclui tanto a fé quanto as obras.” Se a salvação é pelo decreto de Deus, então ela não pode ser pela fé como uma condição para a salvação. Os Wesleyanos acreditam que a graça preveniente capacita a pessoa a se arrepender e crer, e visto que o homem pode rejeitar ou aceitar mais graça, sua salvação é dependente de sua fé em Cristo, não de um decreto eterno, e esta fé é uma atividade humana.
Em conclusão, então, a graça preveniente não só restringe o pecado no homem, mas eleva todo homem ao ponto da salvação. Ele pode, por esta graça, escolher maior graça que o guiará para a salvação, ou ele pode rejeitar a graça. Assim, a salvação é “pela graça por meio da fé,” e todo o plano é dom de Deus.
O campo comum sobre o qual nós como teólogos evangélicos opinamos é importante, e discutir na área de nossos acordos é de grande valor. Apesar de concordarmos que a Palavra de Deus é infalivelmente verdadeira, nossas mentes falhas muitas vezes viajam em caminhos divergentes na tentativa de alcançar a verdade. A comunhão cristã, então, é baseada mais no amor e no entendimento que na completa concordância em todas as doutrinas.
A discussão ocasional de algumas de nossas diferenças também se revela útil visto que recebemos um melhor entendimento uns dos outros. Conhecer e apreciar a visão do outro, sempre quando um não concordar com o outro, constrói o amor cristão e a comunhão no Espírito Santo. Esta é a razão para este artigo sobre a graça preveniente ter sido preparado. É esperado que este esforço traga um maior entendimento das diferentes ênfases em círculos Wesleyanos.
1. A graça preveniente é a graça comum ou universal. John Wesley usou a palavra “preveniente” que em seus dias significava “vir anteriormente.” Esta graça que vem antes da salvação é dada a todo o homem. Wesley escreveu:
Todas as bênçãos que Deus tem concedido ao homem são de Sua simples graça, doação ou favor; Seu favor gratuito imerecido; favor completamente imerecido; não tendo o homem direito à menor de Suas misericórdias. Esta é a graça gratuita que “formou o homem do pó da terra, e soprou nele uma alma vivente e imprimiu em sua alma a imagem de Deus, e pôs todas as coisas sob seus pés.” Esta mesma graça gratuita continua para nós nestes dias, vida, respiração e todas as coisas. Não existe nada que somos, tenhamos ou façamos que justifique a mínima coisa das mãos de Deus. “Todo nosso trabalho, Tu, ó Deus, tens feito em nós.” Estas, portanto, são tantos mais exemplos de gratuita misericórdia: qualquer integridade que possa ser achada no homem, isto também é dom de Deus.
A graça preveniente é revelada no providencial cuidado de Deus por todas as Suas criaturas. Paulo reconheceu isto quando disse: “porque nEle vivemos e nos movemos e temos existido” (At 17.28). O homem caído no pecado teria finalizado a graça providencial de Deus por ele se não existisse o gracioso plano de redenção. Agora, para o homem caído, aquela graça continua a fluir a fim de completar o divino propósito da redenção. Existe continuidade entre a graça providencial para todos e a graça que orienta para a salvação.
Para Wesley, a própria existência da humanidade era dependente da graça de Deus. Tivesse o castigo pela queda de Adão no pecado acontecido sem misericórdia, Adão teria morrido e a humanidade perecido com ele. Assim, a vida física propriamente dita e todas as bênçãos resultantes dela são um direto resultado desta graça. A graça de Deus está em todo homem, não no sentido de haver nascido com ele, mas de ser “infundida” nele. Ao ímpio é dado na mesma medida um conhecimento de Deus e uma consciência que carrega a indicação do certo e do errado. Wesley escreveu que o “primeiro sinal real do bem vem do alto tanto quanto o poder que o conduz até o fim.” É Deus quem “infunde todo bom desejo” e ainda o acompanha e o segue. Assim, um homem pode ser de um compassivo e benevolente espírito, ser amável, gentil, ter classe, fazer boas ações e sempre atender a igreja. Tudo de bom resulta da graça preveniente.
Esta graça contém todas as qualidades atribuídas à graça comum pelos Reformadores. O Dr. M. Eugene Osterhaven em seu excelente artigo sobre a “Graça Comum” descreve a obra geral da graça de uma maneira muito similar ao entendimento Wesleyano da graça preveniente. A graça comum, de acordo com o artigo, “restringe o pecado de forma que a ordem é mantida e a cultura e a integridade são promovidas.” Deus faz isto refreando o pecado na vida do indivíduo e da sociedade. “Deus por Sua providência reprime a teimosia de nossa natureza de manifestar-se em atos externos.” O Dr. Osterhaven vai mais além em salientar que a graça comum habilita o homem a fazer algo bom. Deus não tem desamparado completamente a humanidade, mas continua a lhe dar abundante evidência de Sua compaixão. O homem é habilitado a fazer certas coisas boas por causa da providência geral e benção de Deus em direção a todo homem.
Embora os ensinamentos da graça comum e da graça preveniente tenham muito em comum, a diferença essencial é vista no ponto onde a graça comum e a graça especial são entendidas pelos Calvinistas como essencialmente diferentes. Os Wesleyanos ensinam que a graça preveniente leva à graça salvadora, prepara para ela, habilita a pessoa a adentrar nela. A diferença entre as duas para os Wesleyanos seria em grau e não em tipo.
2. Ela é ministrada através do Espírito Santo. Freqüentemente a graça é vista como um favor imerecido de Deus, o que de fato é. Mas esta graça é também vista ser um poder operativo de Deus na vida dos homens. Por esta razão, existe uma relação fechada entre a atuação do Espírito Santo e a graça de Deus.
Um recente livro intitulado With the Holy Spirit and With Fire, de Samuel M. Shoemaker, enfatiza este aspecto da graça muito claramente. Dr. Shoemaker escreveu:
Eu penso nEle como o centro vagueante de toda a atividade de Deus no mundo. Ele é o Inspirador de toda a verdade – filosófica, científica, prática, tanto quanto a espiritual. Ele é o Criador de toda a beleza, seja ela canalizada através de instrumentos dignos ou não... Ele é o Autor de toda verdade em toda parte – é dEle o conhecer e o dispensar. Ele está em toda obra de misericórdia, em toda boa e gentil vida, em toda reconciliação entre pessoas ou grupos ofendidos, em toda elevação do espírito de pessoas postas à prova ou em sofrimento. Em tudo de bom que os homens parecem fazer, encontraremos uma mão invisível a agir em motivação a isto e dando graça para conduzir isto continuamente. No mais obscuro e pior dos homens, qualquer centelha de bondade subsistindo para ser tocada, ela é o Espírito Santo. Ele é mais penetrante que o éter. Ele é Deus em Sua total extensão, muito engenhoso e muito hábil nos mais vastos aspectos. Ele é Deus em Seu mais exato e íntimo aspecto. Em Sua própria gentil maneira, Ele está tomando a iniciativa conosco.
Se concordamos com o Sr. Shoemaker em toda a sua afirmação ou não, suas idéias são instrutivas. Antes que manter que o bem encontrado no homem à parte da salvação é uma bondade restante da queda do homem, o Arminianismo-Wesleyano sempre ensinou que Deus sobrenaturalmente restituiu a todos os homens uma porção do Seu Espírito Santo através da graça que flui do Calvário. O Dr. L. M. Starkey em seu estudo sobre a Teologia Wesleyana enfatiza o fato de que Wesley identificou a graça de Deus com o poder do Espírito Santo na vida humana. Qualquer bem achado no governo ou em qualquer pessoa seria um resultado da presença do Santo Espírito de Deus. Visto que Ele é o Espírito da verdade, então qualquer verdade que venha para a humanidade, até mesmo à parte do Cristianismo, é um resultado do Espírito Santo. De fato, algum conhecimento de Deus é infundido na mente dos homens pelo Espírito Santo. A própria existência da lei natural bem como sua aplicação, até mesmo pelos homens sem Deus, não pode ser separada da obra do Espírito Santo. Desta maneira, uma quantidade de graça é ministrada a todos os homens pelo Espírito Santo de Deus, tendo eles a Escritura ou não.
3. Ela leva à salvação. Embora os Wesleyanos possam consentir que tudo o que é afirmado para a graça comum pode também ser afirmado para a graça preveniente, todavia eles defendem que o propósito primário da graça preveniente não é restringir o pecado e dar bons desejos e bênçãos ao homem; esta graça é dada a fim de levar os homens ao arrependimento e à salvação. O propósito primário de Deus em permitir a existência da raça humana é trazer os homens à salvação. Wesley escreveu:
Por admitir que todas as almas dos homens estão mortas no pecado por natureza, isto não justifica ninguém, visto que não existe nenhum homem no estado de mera natureza; não existe nenhum homem, a não ser que tenha extinguido o Espírito, que esteja absolutamente vazio da graça de Deus. Nenhum homem vivo é inteiramente destituído do que é vulgarmente chamado de consciência natural. Mas isto não é natural: é mais apropriadamente chamado, graça preveniente. Todo homem tem uma maior ou menor quantidade desta, que não espera pelo convite do homem. Todos têm, cedo ou tarde, bons desejos; embora a maioria dos homens sufoque-os antes deles poderem enraizar-se ou produzir algum fruto considerável. Todos têm alguma quantidade dessa luz, algum fraco raio lampejante que, cedo ou tarde, mais ou menos, ilumina todo o homem que vem ao mundo. E todos, a não ser que ele seja um dos poucos cuja mente está cauterizada com ferro quente, sente mais ou menos incômodo quando age contrário à luz de sua própria consciência. De forma que ninguém peca porque não tem graça, mas porque não faz uso da graça que tem.
Wesley não teve dificuldade em descrever a queda do homem em termos bem sombrios. A queda corrompeu a natureza humana e tornou o homem completamente destituído de qualquer glória moral com que foi criado. Por natureza, o homem está completamente caído. O pecado original envolveu o homem em culpa e o expôs à ira de Deus. A ira de Deus descansou sobre a raça humana por causa do pecado de Adão. Por natureza, todos são filhos da ira. Mas enquanto Wesley viu este lado negro e escuro do homem, ele também viu essa graça preveniente dada a todo homem, e lançando fora a pena pelo pecado herdado de Adão.
Por causa da graça de Deus, nenhum homem será punido pelo pecado de Adão. A todo homem é dado um novo começo através da graça. John Fletcher insistiu que, por este dom gratuito a todo homem, Deus tem garantido incondicional perdão para o pecado original. Eldon Fuhrman afirma que, por este entendimento da justificação de todo homem pela graça de Deus, Wesley admitia a excessiva pecaminosidade do pecado original com seu completo castigo de um lado e, do outro lado, exaltava a obra expiatória de Cristo. “Isto o absolveu da fraqueza dos Semi-Pelagianos, que negavam a completa força do castigo; e também o salvou das extremas conclusões para a qual a liderança federal de Adão tinha sido levada.” Surgindo deste benefício da graça preveniente, existe a doutrina de que todas as crianças que morrem na infância são redimidas através da graça gratuita de Deus e todas as outras pessoas que são incapazes de fazer escolhas.
A salvação inicia com a graça preveniente e continua até a glorificação final. Wesley escreveu:
A salvação começa com aquilo que é geralmente chamado (e muito apropriadamente) de graça preveniente: incluindo o primeiro desejo de agradar a Deus, a primeira aurora de luz relativa à Sua vontade, e a primeira efêmera convicção de ter pecado contra Deus. Tudo isto implica alguma tendência em direção à vida; algum grau de salvação; o início da libertação de um cego e insensível coração, completamente inconsciente de Deus e das coisas de Deus. A salvação continua pela graça convincente, geralmente chamada na Escritura de arrependimento: que traz uma maior quantidade de conhecimento próprio, e uma mais completa entrega do coração de pedra. Depois experimentamos a própria salvação cristã; segundo a qual “pela graça” “somos salvos por meio da fé;” consistindo das sublimes ramificações, a justificação e a santificação.
Assim, a salvação do homem é dependente da resposta do homem, pela graça preveniente, à graça salvadora de Deus.
4. Ela proporciona responsabilidade pessoal. Apesar de algumas pessoas que dizem ser Wesleyanas mostrem-se Semi-Pelagianas, ninguém, com exatidão, pode acusar John Wesley de cair nesta categoria. Como já relatado, ele descreveu a queda do homem em termos muito negros. Por natureza, o homem não recebe nada que seja bom. De fato, ele é completamente inabilitado a fazer uma boa escolha de qualquer tipo através da natureza. Ele é livre, mas livre só para fazer o mal e a seguir no caminho do pecado. Da natureza ele não recebe nenhuma sugestão de bondade dentro de si mesmo. Não existe bom desejo que venha por meio do nascimento. Ele é totalmente depravado e totalmente inabilitado.
Contra esta negra figura, entretanto, Wesley então dá lugar à graça preveniente fluindo na vida de toda pessoa. É o poder do Espírito Santo de Deus erguendo esse indivíduo acima do que ele havia recebido por meio do nascimento e criando nele um início de vida que o guiará para a vida além, se ele responder a este. Neste sentido toda pessoa tem um grau de vida divina não herdada no nascimento.
Na prática, então, a verdadeira liberdade do homem vem pela graça. À parte da graça preveniente, o homem não poderia ter nenhuma liberdade, exceto liberdade para o mal. Não existiria nenhum poder nele mesmo para escolher o bem ou para até mesmo conhecer o bem. A graça preveniente providencia tanto o incentivo para seguir o bem, o conhecimento do bem e até mesmo o poder para escolher o bem.
É por esta razão que se pode atribuir ao homem o poder para fazer sua própria escolha no que diz respeito à salvação. O próprio poder para fazer esta escolha vem da graça de Deus. Com o poder de escolher a salvação vem também a oferta da graça salvadora. Mas o homem ainda é capaz de rejeitar a salvação oferecida a ele. A graça que é providenciada não é irresistível. O homem pode reagir à graça favoravelmente, segui-la e ser salvo ou ele pode rejeitá-la, colocar-se longe dela, e achar-se mais e mais escolhendo o mal de sua própria natureza. Desta maneira, o homem propositadamente peca em rejeitar a graça dada a ele, ou ele pode viver obediente pela graça que lhe foi dada.
Wesley não atribuiu ao homem um poder natural para fazer boas escolhas, nem ensinou que a escolha de uma salvação individual dependia completamente de Deus. O homem tem uma inabilidade total que é somada à gratuita graça de Deus. Ele faz uma escolha correta pela graça que Deus tem dado a ele. A habilidade para escolher é uma habilidade graciosa.
Com esta graça dada a ele, o homem pode cooperar com Deus. Wesley fixa a verdade “sem mim, nada podereis fazer” ao lado das palavras “posso todas as coisas em Cristo que me fortalece” (Fp 2.12, 13). Então, ele proclama “Aqui a maldição é dissolvida! A luz penetra, e as trevas desaparecem.” Deus uniu estes dois, e não deixa que ninguém os separe. Wesley descreveu a reação do homem a esta graça como segue:
Portanto nós podemos... concluir a absoluta necessidade desta reação da alma (ou como quer que se chame) a fim da continuação da vida divina nela. Pois claramente se percebe que Deus não continua a agir na alma a menos que a alma reaja a Ele. Deus nos guia, de fato, com as bênçãos da Sua bondade. Ele nos amou primeiro e manifestou-se a nós. Enquanto estamos, não obstante, muito distantes, Ele nos chama para si mesmo, e ilumina nossos corações. Mas se nós, então, não amarmos Aquele que nos amou primeiro; se não atendermos à Sua voz; se voltarmos nossos olhos para longe dEle e não atentarmos para a luz que Ele derramou em nós; Seu Espírito não lutará sempre: Ele gradualmente se retirará, e nos deixará às trevas de nossos próprios corações. Ele não continuará a soprar na nossa alma a menos que nossa alma respire em direção a Ele novamente; a menos que o nosso amor, e súplica, e graças voltem-se para Ele, como um sacrifício com o qual Ele se agrada bem.
Aqui está uma forma de sinergismo entendida no meio de um monergismo. Inicialmente Deus age e depois que sua ação começa, então é possível ao homem cooperar com Ele.
5. Ela preserva o sola gratia e o sola fide. O modo no qual o sola gratia é preservado pode agora ser visto. Visto que o homem nada podia fazer sobre sua própria salvação até mesmo no sentido de responder a ela, exceto através da graça que é inicialmente dada a ele por Deus, então, sua própria reação a essa graça é da graça. Embora a graça não seja a causa de sua correta reação, ela certamente é a razão pelo qual ele reage a Deus e se entrega à mais graça. Quando a salvação final é obtida, uma pessoa pode olhar para trás e dizer, “Foi a graça que me trouxe ao lar.” Tal graça dispensa toda idéia de algum mérito humano por qualquer ato que o homem tenha consumado, até mesmo sua ação de livre-escolha em crer para a salvação. Todo o mérito é através da graça de Deus, em Jesus Cristo, o nosso Senhor. Neste sentido é somente pela graça que o homem é salvo.
Ao mesmo tempo, a idéia do sola fide é preservada. A graça preveniente, na verdade, dá mais lugar ao sola fide do que pode ser encontrado nos decretos eternos. Wesley não pôde entender por que seus amigos Calvinistas acusaram-no de não ensinar o “pela fé somente.” Isto o incomodou consideravelmente até o dia que um súbito pensamento atravessou sua mente. Ele o expressou desta maneira:
Fiquei perplexo quando um pensamento cruzou minha mente como um tiro, o qual resolveu a questão de uma vez. Esta é a chave: aqueles que afirmam “todos estão absolutamente predestinados para salvação ou para perdição” não vêem nenhum meio-termo entre a salvação por obras e a salvação por decretos absolutos. Segue que, qualquer que nega a salvação por decretos absolutos, fazendo assim (de acordo com suas percepções) afirma a salvação por obras.
E nisto eu verdadeiramente acredito que eles estão certos. Tão adverso como uma vez estive ao pensamento, após mais consideração, eu admito que não há, não pode haver, nenhum meio-termo. A salvação é por decreto absoluto, ou é (num sentindo bíblico) por obras.
Wesley declarou que nenhum dos dois pode ser por fé, pois o “Decreto incondicional exclui tanto a fé quanto as obras.” Se a salvação é pelo decreto de Deus, então ela não pode ser pela fé como uma condição para a salvação. Os Wesleyanos acreditam que a graça preveniente capacita a pessoa a se arrepender e crer, e visto que o homem pode rejeitar ou aceitar mais graça, sua salvação é dependente de sua fé em Cristo, não de um decreto eterno, e esta fé é uma atividade humana.
Em conclusão, então, a graça preveniente não só restringe o pecado no homem, mas eleva todo homem ao ponto da salvação. Ele pode, por esta graça, escolher maior graça que o guiará para a salvação, ou ele pode rejeitar a graça. Assim, a salvação é “pela graça por meio da fé,” e todo o plano é dom de Deus.
terça-feira, 10 de junho de 2008
O SEGREDO NÃO CONFESSADO DE PAULO
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Espinho na carne e carne no Espinho! Que problemão! Será?
Paulo disse que teve grandes visões e revelações espirituais—foi levado ao Paraíso e ouviu o que ninguém ouve e sabe contar—, e que por causa disso foi-lhe enviado da parte de Deus um mensageiro de Satanás para que o esbofeteasse, a fim de que o apóstolo não se ensoberbecesse com a grandeza das coisas que a ele estavam sendo reveladas.
Pediu a Deus três vezes para ficar livre daquele “espinho na carne”.
O Senhor, todavia, não o removeu, tendo apenas dito a Paulo “a minha Graça te basta, porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza”.
Que espinho era esse?
Muita gente boa já fez considerações sobre o assunto. O espinho de Paulo já foi sua conjuntivite crônica, já foi a perseguição dos judaizantes, já foi o ter que trabalhar a fim de sustentar seu ministério, já foi o estilo calamitoso e desassossegado de vida que o acometeu, já foi a sua não aceitação pela Igreja de Jerusalém, já foi muita coisa...
No início da década de setenta, nos Estados Unidos, e depois na década de oitenta, no Brasil, o espinho de Paulo ganhou outro “diagnóstico”.
Li e ouvi pessoas tentando convencer o público do contrário. No auge da Teologia da Prosperidade, com seus líderes anunciando uma era na qual a fé rehma curava tudo e que quem não ficasse curado era porque não cria, o espinho de Paulo deixou de ser associado a qualquer forma de doença ou debilidade física ou financeira.
Paulo não podia mais ficar doente e só passava privações por deliberação própria. Gostava! Virara o super-homem de Friedrich Nietzsche. Nem o próprio Nietzsche acreditaria que Paulo se tornou o super-homem dos cristãos, superior ao super-homem de Zaratustra.
O fato é que Paulo, agora, não tinha mais permissão para adoecer. Seria falta de fé. Afinal, como poderia ele curar se estava doente?
Num mundo onde o poder é do homem, somente seres absolutamente sãos podem transmitir saúde. Afinal, o dom não é da Graça, mas uma virtude desenvolvida pelo super-homem.
Assim, o espinho na carne de Paulo deixou de ser qualquer coisa anteriormente relacionada a ele, tornando-se, assim, qualquer coisa, menos uma doença física—psicológica ou afetiva, nem pensar!—, mas não foi identificado como nada objetivo. Apenas se sabia que Paulo tinha um “espinho na carne”, mas não devia ser tão “importante”, pois Deus não quis removê-lo...
Até mesmo a afirmação apostólica de que o espinho tinha finalidades terapêuticas não foi mais levada em consideração.
Paulo ensoberbecer?
Jamais!—bradam os santos mais santos que Paulo.
E, assim, vão desespinhando a Paulo por uma única razão: Para nós a Graça não basta e o poder não se aperfeiçoa na fraqueza!
Essa “graça” só basta como confeito ao bolo de nossas próprias virtudes.
Essa “nossa graça” não gera humildade e dependência ao Senhor, mas arrogância e autonomia em relação a Deus.
Esse “poder” só se aperfeiçoa como status atribuído ao sucesso das virtudes da “fé” obstinada e que chega onde quer porque assim determina.
Esse “poder” gera seres malévolos e essa “fé” pode até colocar o individuo onde ele quer, mas não o põe onde Deus deseja.
Para que se entenda o que aconteceu a Paulo não se tem que saber o que aconteceu com ele—mas em sua vida interior.
E para sabermos do que se trata, basta que olhemos para nós mesmos. Boa parte do tempo que se gasta tentando saber informações históricas sobre o “espinho histórico” de Paulo, rouba-nos o tempo da viagem para dentro de nós mesmos, onde o fenômeno se repete, ainda que exteriormente ele tenha outra cara, talvez diferente da de Paulo.
Há três princípios que precisam ser entendidos a fim de que se compreenda acerca do que o apóstolo está falando.
1. O princípio das polaridades:
À toda virtude humana—se assim pudermos definir o que não nasce em nós, mas vem de Deus—corresponde um pólo desvirtuoso.
Assim, é a abundancia do pecado que faz superabundar a Graça.
Ou seja: é porque a mulher da noite escura havia se dado em muitos falsos amores—na vivencia de sua própria carência—, que agora ela ouve o elogio do Senhor dizendo que ela “muito ama”.
Tanto amor!
Mas e o que havia dentro dela?
Os produtos daquela mesma virtude já tinham tido cara de leviandade, promiscuidade e vagabundagem—para os expectadores, como o fariseu dono da casa.
Desse modo, sempre que se vir grandes virtudes pode-se saber que existe o equivalente polar dentro do mesmo ser.
Daí grandes “revelações” se fazerem acompanhar de “mensageiros de Satanás” a fim de equilibrar o bem em nós.
Não há em nós equilíbrio nem para se viver o bem absoluto.
Nada absoluto pode ser dado a um ser caído.
Corrompe-o.
Adoece-o.
O faz cair da Graça.
O único absoluto que não se corrompe num mundo caído é o Absoluto do amor de Deus.
Afinal, esse é o mundo caído. E nele muitas vezes é do abismo que somos catapultados aos céus mais elevados na Graça!
2. O principio da corruptibilidade de qualquer poder sem fraqueza:
Todo poder num mundo caído, corrompe—quanto mais todo-poder!
Não apenas o poder político, econômico, intelectual e cultural corrompem e se tornam instrumentos de controle e soberania, mas até mesmo as virtudes do poder ético, da moral, da santidade e da própria sabedoria—quanto mais a revelação!
Por isso é que todos os homens que manifestaram o poder de Deus na Bíblia tiveram que viver em fraqueza.
Poder de Deus sem fraqueza gera o diabo no ser. Transforma o “Querubim da Guarda” no “Acusador dos Irmãos”.
Para o bem da própria alma o ser tem que conhecer, sem poder realizar tudo o conhece; saber, sem atingir tudo o que discerniu; alcançar, sem poder dizer que chegou lá sozinho.
É assim que tem que ser num mundo caído!
3. O princípio da Graça só opera como Graça produtiva na fraqueza:
Sem que a Graça se manifesta na fraqueza, não é e nem há Graça. Pois, nesse caso, a virtude humana e a gloria, é de quem pensa que conseguiu por conta própria.
Para que a Graça cresça em nós nunca pode haver dúvida acerca de pelo menos duas coisas: a primeira é que “não vem de nós”; e segunda é que “não vem de nós para que ninguém se glorie”.
Então alguém pergunta: Por que?
Ora, digo eu: é que eu sou como eu sou e você é como você é!
Você poderia se imaginar como um ser todo-poderoso e, ainda assim, essencialmente bom?
Logo que algumas pequenas conquistas aparecem no horizonte mais banal—não importa se promoções ou se revelações—e o individuo já começa a mudar.
Chega ao ponto em que a pessoa já fala de si mesma como se fosse uma “terceira pessoa”, um ente diferenciado dele—como se eu só me referisse aos meus gostos como “o pastor Caio gosta disso”—e que passa a ser tratado como o santo do próprio “santo”.
É quando eu sou o santo de mim mesmo!
Poder nas mãos do homem tem que se fazer exercer com espinho na carne.
E Graça na vida humana tem que ser experimentada em fraqueza.
Do contrário, o ser se converte em diabo.
Assim, aprende-se que é melhor ter revelações e ainda assim ter que se conviver com o mensageiro de Satanás que nos esbofeteia, que ter apenas cogitação de poder humano e de sabedoria humana, sem qualquer espinho na carne!
E pior: sem também ter a satisfação de ouvir Jesus dizer: “A minha Graça te basta, pois o poder se aperfeiçoa na fraqueza”. Não se tem que achar o espinho, ele nos acha!
Não se tem que procurar a fraqueza, ela existe em nós!
Não se tem nem que falar no assunto, ele tem voz própria!
O segredo é aceitar o fato e não deixar de buscar conhecer todos os andares dos céus dos céus, sabendo que não é a minha virtude que me leva tão alto, mas a Graça que usou a minha fraqueza para revelar tanto, a quem antes de tudo já sabe que não tem do que se gloriar.
O espinho na carne de Paulo interessa muito pouco saber qual era. Interessa mesmo é saber que ele tinha que estar lá.
Rev.Caio Fabio
Texto extraído de http://www.caiofabio.com/novo/caiofabio/
Espinho na carne e carne no Espinho! Que problemão! Será?
Paulo disse que teve grandes visões e revelações espirituais—foi levado ao Paraíso e ouviu o que ninguém ouve e sabe contar—, e que por causa disso foi-lhe enviado da parte de Deus um mensageiro de Satanás para que o esbofeteasse, a fim de que o apóstolo não se ensoberbecesse com a grandeza das coisas que a ele estavam sendo reveladas.
Pediu a Deus três vezes para ficar livre daquele “espinho na carne”.
O Senhor, todavia, não o removeu, tendo apenas dito a Paulo “a minha Graça te basta, porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza”.
Que espinho era esse?
Muita gente boa já fez considerações sobre o assunto. O espinho de Paulo já foi sua conjuntivite crônica, já foi a perseguição dos judaizantes, já foi o ter que trabalhar a fim de sustentar seu ministério, já foi o estilo calamitoso e desassossegado de vida que o acometeu, já foi a sua não aceitação pela Igreja de Jerusalém, já foi muita coisa...
No início da década de setenta, nos Estados Unidos, e depois na década de oitenta, no Brasil, o espinho de Paulo ganhou outro “diagnóstico”.
Li e ouvi pessoas tentando convencer o público do contrário. No auge da Teologia da Prosperidade, com seus líderes anunciando uma era na qual a fé rehma curava tudo e que quem não ficasse curado era porque não cria, o espinho de Paulo deixou de ser associado a qualquer forma de doença ou debilidade física ou financeira.
Paulo não podia mais ficar doente e só passava privações por deliberação própria. Gostava! Virara o super-homem de Friedrich Nietzsche. Nem o próprio Nietzsche acreditaria que Paulo se tornou o super-homem dos cristãos, superior ao super-homem de Zaratustra.
O fato é que Paulo, agora, não tinha mais permissão para adoecer. Seria falta de fé. Afinal, como poderia ele curar se estava doente?
Num mundo onde o poder é do homem, somente seres absolutamente sãos podem transmitir saúde. Afinal, o dom não é da Graça, mas uma virtude desenvolvida pelo super-homem.
Assim, o espinho na carne de Paulo deixou de ser qualquer coisa anteriormente relacionada a ele, tornando-se, assim, qualquer coisa, menos uma doença física—psicológica ou afetiva, nem pensar!—, mas não foi identificado como nada objetivo. Apenas se sabia que Paulo tinha um “espinho na carne”, mas não devia ser tão “importante”, pois Deus não quis removê-lo...
Até mesmo a afirmação apostólica de que o espinho tinha finalidades terapêuticas não foi mais levada em consideração.
Paulo ensoberbecer?
Jamais!—bradam os santos mais santos que Paulo.
E, assim, vão desespinhando a Paulo por uma única razão: Para nós a Graça não basta e o poder não se aperfeiçoa na fraqueza!
Essa “graça” só basta como confeito ao bolo de nossas próprias virtudes.
Essa “nossa graça” não gera humildade e dependência ao Senhor, mas arrogância e autonomia em relação a Deus.
Esse “poder” só se aperfeiçoa como status atribuído ao sucesso das virtudes da “fé” obstinada e que chega onde quer porque assim determina.
Esse “poder” gera seres malévolos e essa “fé” pode até colocar o individuo onde ele quer, mas não o põe onde Deus deseja.
Para que se entenda o que aconteceu a Paulo não se tem que saber o que aconteceu com ele—mas em sua vida interior.
E para sabermos do que se trata, basta que olhemos para nós mesmos. Boa parte do tempo que se gasta tentando saber informações históricas sobre o “espinho histórico” de Paulo, rouba-nos o tempo da viagem para dentro de nós mesmos, onde o fenômeno se repete, ainda que exteriormente ele tenha outra cara, talvez diferente da de Paulo.
Há três princípios que precisam ser entendidos a fim de que se compreenda acerca do que o apóstolo está falando.
1. O princípio das polaridades:
À toda virtude humana—se assim pudermos definir o que não nasce em nós, mas vem de Deus—corresponde um pólo desvirtuoso.
Assim, é a abundancia do pecado que faz superabundar a Graça.
Ou seja: é porque a mulher da noite escura havia se dado em muitos falsos amores—na vivencia de sua própria carência—, que agora ela ouve o elogio do Senhor dizendo que ela “muito ama”.
Tanto amor!
Mas e o que havia dentro dela?
Os produtos daquela mesma virtude já tinham tido cara de leviandade, promiscuidade e vagabundagem—para os expectadores, como o fariseu dono da casa.
Desse modo, sempre que se vir grandes virtudes pode-se saber que existe o equivalente polar dentro do mesmo ser.
Daí grandes “revelações” se fazerem acompanhar de “mensageiros de Satanás” a fim de equilibrar o bem em nós.
Não há em nós equilíbrio nem para se viver o bem absoluto.
Nada absoluto pode ser dado a um ser caído.
Corrompe-o.
Adoece-o.
O faz cair da Graça.
O único absoluto que não se corrompe num mundo caído é o Absoluto do amor de Deus.
Afinal, esse é o mundo caído. E nele muitas vezes é do abismo que somos catapultados aos céus mais elevados na Graça!
2. O principio da corruptibilidade de qualquer poder sem fraqueza:
Todo poder num mundo caído, corrompe—quanto mais todo-poder!
Não apenas o poder político, econômico, intelectual e cultural corrompem e se tornam instrumentos de controle e soberania, mas até mesmo as virtudes do poder ético, da moral, da santidade e da própria sabedoria—quanto mais a revelação!
Por isso é que todos os homens que manifestaram o poder de Deus na Bíblia tiveram que viver em fraqueza.
Poder de Deus sem fraqueza gera o diabo no ser. Transforma o “Querubim da Guarda” no “Acusador dos Irmãos”.
Para o bem da própria alma o ser tem que conhecer, sem poder realizar tudo o conhece; saber, sem atingir tudo o que discerniu; alcançar, sem poder dizer que chegou lá sozinho.
É assim que tem que ser num mundo caído!
3. O princípio da Graça só opera como Graça produtiva na fraqueza:
Sem que a Graça se manifesta na fraqueza, não é e nem há Graça. Pois, nesse caso, a virtude humana e a gloria, é de quem pensa que conseguiu por conta própria.
Para que a Graça cresça em nós nunca pode haver dúvida acerca de pelo menos duas coisas: a primeira é que “não vem de nós”; e segunda é que “não vem de nós para que ninguém se glorie”.
Então alguém pergunta: Por que?
Ora, digo eu: é que eu sou como eu sou e você é como você é!
Você poderia se imaginar como um ser todo-poderoso e, ainda assim, essencialmente bom?
Logo que algumas pequenas conquistas aparecem no horizonte mais banal—não importa se promoções ou se revelações—e o individuo já começa a mudar.
Chega ao ponto em que a pessoa já fala de si mesma como se fosse uma “terceira pessoa”, um ente diferenciado dele—como se eu só me referisse aos meus gostos como “o pastor Caio gosta disso”—e que passa a ser tratado como o santo do próprio “santo”.
É quando eu sou o santo de mim mesmo!
Poder nas mãos do homem tem que se fazer exercer com espinho na carne.
E Graça na vida humana tem que ser experimentada em fraqueza.
Do contrário, o ser se converte em diabo.
Assim, aprende-se que é melhor ter revelações e ainda assim ter que se conviver com o mensageiro de Satanás que nos esbofeteia, que ter apenas cogitação de poder humano e de sabedoria humana, sem qualquer espinho na carne!
E pior: sem também ter a satisfação de ouvir Jesus dizer: “A minha Graça te basta, pois o poder se aperfeiçoa na fraqueza”. Não se tem que achar o espinho, ele nos acha!
Não se tem que procurar a fraqueza, ela existe em nós!
Não se tem nem que falar no assunto, ele tem voz própria!
O segredo é aceitar o fato e não deixar de buscar conhecer todos os andares dos céus dos céus, sabendo que não é a minha virtude que me leva tão alto, mas a Graça que usou a minha fraqueza para revelar tanto, a quem antes de tudo já sabe que não tem do que se gloriar.
O espinho na carne de Paulo interessa muito pouco saber qual era. Interessa mesmo é saber que ele tinha que estar lá.
Rev.Caio Fabio
Texto extraído de http://www.caiofabio.com/novo/caiofabio/
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