domingo, 30 de março de 2008

O Evangelho sem vergonha


Assustado com a falta de vergonha dos brasileiros, dos que estão no poder e do povo em geral, o psicanalista ítalo-brasileiro Contardo Calligaris escreveu uma série de artigos, que vale, sobretudo, pela preocupação.


Ele lembra que a antropóloga norte-americana Ruth Benedict estudou o comportamento das pessoas em relação à moralidade. Ela mostrou que há sociedades reguladas pela vergonha e outras pela culpa. É comum no Japão uma pessoa, flagrada em corrupção, tirar sua própria vida. É a maneira que tem para preservar sua dignidade. “Nas sociedades em que predomina a vergonha, o sujeito escolhe agir, se abster ou impor limites à sua ação para não perder a face e para preservar ou resgatar sua honra e sua dignidade.

Nas outras, o sujeito age para evitar a culpa ou para expiá-la”. (CALLIGARIS, Contardo. Culpa e vergonha. Moralidade 1. Folha de S. Paulo, 2.2.2006, ilustrada, p. 12.)

Os brasileiros dão um nó na Antropologia, em particular, e nas Ciências Sociais em geral. A vergonha é escassa. Seria de esperar, então, que houvesse culpa, mas o sentimento de culpa é abrandado pela impunidade. De impunidade em impunidade, a culpa e a vergonha vão cauterizando a mente (1Timóteo 4.2) para não sentir vergonha nem culpa por mais vergonhosa e culpada que seja a ação.

Paulo experimentou a mesma realidade em função daquilo que Deus fez em sua vida. Ele era uma pessoa correta, seguidora dos mandamentos de Deus, mas não de Deus, porque em nome de Deus, odiava outras pessoas também tementes a Deus. O judeu Saulo de Tarso perseguia os cristãos. O poder de Deus o alcançou, derrubou-o de sua pretensão de fazer justiça com as próprias mãos e o agora cristão Paulo se tornou um pregador do Evangelho pelo qual foi salvo da ira de Deus. Só que este Evangelho era visto como loucura. Onde um só homem pode morrer por todos? Onde as culpas de todos podem ser apagadas pelo sacrifício de um só? Só pelo poder de Deus, mas quem o aceita?

NÃO SE ENVERGONHA DO EVANGELHO QUEM CRÊ NO PODER DE DEUS

E por que alguns cristãos se envergonham do Evangelho? Uma razão é intelectual. A idéia de que há um Deus pessoal criador que intervém na História, sendo a sua maior intervenção o envio do seu Filho para resgatar a Humanidade do pecado para um relacionamento com Ele, não atende ao postulado da razão. A existência deste Deus não pode ser racionalmente provada. A idéia de que Deus tomou a forma humana, tendo morrido na cruz para expiar nossos pecados, é tomada como absurda. Já ao tempo do apóstolo Paulo, a idéia de uma cruz com efeito universal era considerada louca. Ele escreveu “Minha mensagem e minha pregação não consistiram de palavras persuasivas de sabedoria, mas consistiram de demonstração do poder do Espírito, para que a fé que vocês têm não se baseasse na sabedoria humana, mas no poder de Deus por meio da loucura da pregação” (1Coríntios 2.4-5).



O cristianismo é visto, em muitos círculos intelectuais, como uma forma de superstição, a ser evitada. Nestes ambientes, um cristão é visto como alguém que abriu mão da razão, logo, perigoso para a ciência e para o pensamento. Ser visto assim é uma pressão muito grande. A tentação ao silêncio é forte. Por isto, é como se Paulo nos dissesse: “não se envergonhe do Evangelho porque é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê”, seja ele bem ilustrado ou pouco letrado. Bem ilustrados e pouco letrados só conhecerão este poder de Deus se o Evangelho lhes for anunciado, mesmo que sob vaia (1Coríntios 1.18-21).

A outra razão é social. O cristianismo é uma religião de alta moralidade. Seus padrões são tão elevados que são considerados inalcançáveis, por aqueles que só conhecem a sua superfície. Para muitos em nossa sociedade, ser cristão é renunciar a vida e a liberdade. Abre-se, por exemplo, uma revista popular para adolescentes e ali não se encontra nenhuma moral, a não ser esta: cada um deve fazer com o seu corpo o que lhe der vontade ou cada um deve fazer com a sua vontade o que o corpo pede. Para muitos, ser cristão é abrir mão do enriquecimento ilícito, é não subir tendo o próximo como trampolim. Para muitos, o cristão ignora a natureza humana, só sobrevive quem for lobo do outro. A pressão é grande sobre o cristão. Para aquele que tem fé é grande a tentação de ficar anônimo neste ambiente hostil (1João 2.15-17).

NÃO SE ENVERGONHA DO EVANGELHO QUEM NÃO ENVERGONHA O EVANGELHO

Envergonhar o Evangelho é uma possibilidade. Alguns o faziam. Paulo desejava que isto jamais acontecesse com ele. Envergonha o Evangelho quem envergonha a Cristo, negando a fé nEle, por atos e palavras. Neste sentido, o maior inimigo do cristão, para que o Evangelho avance, é o próprio cristão. Temos problemas com as palavras, mas nosso verdadeiro campo de vergonha é o gesto. É a ação, quando esta contradiz o que falamos. Envergonhar o Evangelho é dar um nó na Bíblia, porque nela estão todas as advertências quanto ao abismo. O Evangelho não pode ser uma coisa e o evangélico outra. O Evangelho é o poder de Deus para a salvação. O evangélico deve viver sob este poder.

Quem não se envergonha do Evangelho e não envergonha o Evangelho não é envergonhado por Jesus Cristo. Evangelho é vida. Quando queremos transformá-lo em outra coisa, nós o defraudamos. Um Evangelho defraudado não é Evangelho. Um Evangelho feito de palavras, na pregação e no louvor, não é Evangelho. Um cristão que defrauda o Evangelho não é cristão. Ele não passará pelo crivo de Cristo (Mateus 25.34-40). Um cristão que envergonha o Evangelho não é um cristão, porque não é um cristão aquele que aprendeu uma seqüência de palavras sobre o Evangelho (Lucas 9.26). Permaneçamos em Jesus (1João 2.28-29). Um cristão é aquele que recebe o poder de Deus para a salvação e o dom de Deus para a fidelidade. Não envergonhamos o Evangelho quando vivemos pelo poder de Deus (2Timóteo 1.7-10).

*Israel Belo de Azevedo

quinta-feira, 6 de março de 2008

A Redenção da Humanidade


Deus está no processo de cumprir uma grande missão: a redenção da humanidade.

Ele estabeleceu que, nessa tarefa, não só remirá os homens, mas fará uso deles para executar uma parte especial no processo, a fim de que possa mostrar seu poder e graça através da vida deles. Eles então trabalharam “junto com Deus” (2Co 6.1).

Compreender este conceito é a chave para entender a Deus. Ele nos chama para si mesmo e para a sua missão. Quem quer que tome o nome de Cristo, deve aceitar também a sua missão.

Todos os que reivindicam o céu como lar, também aceitam o evangelismo como um estilo de vida. Aqueles que prometem obediência a Deus, devem igualmente prometer obediência ao plano divino de alcançar os perdidos. Não existem opções nem exceções neste sentido.

Esta responsabilidade cabe a todos os cristãos, de todas as épocas, em todos os lugares. Ela nada tem a ver com dons, necessidades, circunstâncias. Não existem homens “especiais” para Deus. O “dom do evangelho” não existe!

Devemos livrar-nos de idéias desse tipo!

Vamos enfrentar o fato de que todos nós podemos fazer alguma coisa pelos perdidos do mundo.

Você tem língua?
Você sabe sorrir?
Você tem um conhecido?
Tem então o suficiente.
Nós não levamos realmente a sério a missão de Deus. Mais da metade da população do mundo pode ser classificada como não tendo sido alcançada pelo evangelho. São homens e mulheres que não tiveram ainda a oportunidade de responder com inteligência a uma apresentação compreensível das boas novas de que Cristo morreu pelos nossos pecados. Nesse número estão incluídos (segundo o jornal Moody Monthly) cerca de 903 milhões de chineses, 574 milhões de hindus, 704 milhões de muçulmanos e centenas de milhares de outros.
Enquanto esses milhões continuam famintos, nós, na maioria das vezes, nos tornamos obesos. Somos peritos em justificar nossa complacência e racionalizar nossa apatia. Se continuarmos nesse andar, não teremos futuro. Ponto final. Estamos nos afundando. Se não acelerarmos nossos esforços, cinco entre cada seis não-cristãos jamais ouvirão o evangelho. Como podemos pensar em sermos chamados “povo de Deus” se não participarmos da sua missão? Por quanto tempo mais ousaremos ignorar o mundo faminto enquanto nos sentamos à mesa do banquete?

A razão de estar escrevendo isto é que a igreja está começando a ignorar a Grande Comissão. Por quê? Sinceramente não sei. Sei que não podemos fazer isso.

No decorrer da história, a igreja morreu quando o mundo foi esquecido. A igreja prosperou quando o mundo foi lembrado.
*Max Lucado

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

HORÁRIO ECLESIÁSTICO

*Um retrato fiel de um estilo de vida !!!

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

OUTRA LITURGIA PARA OUTRA CULTURA


Todas as sociedades primitivas possuíam cerimônias especiais conhecidas como ritos de iniciação ou de passagem. Mais do que uma transição individual, os ritos representavam a sua aceitação e participação na sociedade.

Compreeder os ritos em sua essência, ajuda o ser humano a lidar bem com as mudanças da vida e a assumir novas responsabilidades. Ajuda também, a dar melhor historicidade e firmar valores pessoais.Os rituais costumavam pontuar desprendimento, fechando um ciclo existencial e dando inicio a outro. O indivíduo deixava para trás coisas velhas para assumir outras novas.

Declarava-se no rito uma mudança de atitude e até mesmo de alteração de um grupo de relacionamento pessoal.

Vez por outra, o indivíduo chegava a trocar de nome o que representava uma radical mudança, uma declaração de ser uma nova pessoa a partir daquele instante.

Apesar do esvaziamento do significado original, alguns ritos ainda subsistem. Hoje em dia, as comemorações de 15 anos representam muito mais um evento social, do que o marco de uma nova fase na vida da mulher.
O batismo cristão serve como exemplo, de como com o passar do tempo, os ritos podem perder a força de seu real sentido. Visto apenas como uma pró-forma da religião, percebe-se por parte de um bom número de indivíduos, uma certa indiferença quanto ao compromisso de realmente cumprir a promessa feita diante da comunidade da fé. De igual forma, o casamento, mesmo diante de diversas testemunhas e documentos assinados, não inibe a facilidade de sua dissolução. Nas sociedades primitivas, a mudança ou promessa de um rito, era além de desejável, inquestionável, sagrada e uma obrigação impossível de se quebrar. Romper colocava em risco a sobrevivência da sociedade.

A prática de um mesmo rito difere de uma cultura para outra. Trote do vestibular, casamento, funeral e enterro, formatura, bodas, noivado, e diversos outros.Cada um tem seu fundamento e serve para ratificar valores de uma sociedade. Por isso sua prática, a liturgia, precisa comunicar bem o propósito de sua existência. Sua execução precisa adaptar-se ao seu contexto cultural, para não perder o seu mais profundo significado.Deveríamos como cristãos diante de nossa atual sociedade, nos perguntar se nossos rituais transmitem a mensagem de seu real símbolo?

A Ceia como exemplo:

Para uma cultura festiva em que comer junto significava a celebração da fraternidade, da vida, a abertura do privado para o outro, a ceia transmitia bem a mensagem de “koinonia”. Palavra normalmente traduzida por comunhão, mas cujo significado envolve muito mais, pois ela contém os conceitos de serviço, solidariedade, justiça, igualdade, fraternidade e mutualidade.

Em uma sociedade monárquica, com classes sociais distintamente extremadas entre nobres e plebe, não haveria melhor maneira de demostrar a maravilha do reino de amor e justiça, do que através de um ritual em que o soberano servisse o vassalo.

Que significado teria a mesma ação em uma sociedade que se propõe igualitária?

Se nesta sociedade se valoriza mais o indivíduo do que a vida comunitária, e se sua cultura alimenta o egocentrismo, e o cidadão/consumidor tem seus direitos inalienáveis, o governante tem a obrigação de servir e é direito do governado ser servido.

Em nossa atual cultura o ritual da ceia transmite o significado de koinonia?
O amor para preservar sua essência precisa ser compartilhado ou deixa de ser amor. A ceia é um rito que simboliza o mais profundo amor.

Que tipo de significado tem para nossa sociedade um rito de doação, cuja prática em si transmite uma mensagem de recebimento?

Numa sociedade que luta pelos direitos individuais, como se deveria realizar um rito de caráter comunitário que significa doação e compartilhamento?

De maneira geral no atual ritual da ceia, cada crente permanece sentado em seu próprio lugar. Sem praticamente nenhuma interação com o outro, toma dos elementos das mãos de um único. Fecha seus olhos e numa postura isolada se concentra numa espiritualidade individual. A mensagem oral de comunhão é contraditada pela mensagem transmitida na prática do rito. Cada um é levado a se comportar individualmente como expectador da celebração.Ela superestima a relação individual com Deus e subestima a relação comunitária com Deus. E uma não existe sem a outra. A ceia como parábola viva, deve revelar em seu ato, a verdade espiritual.

Se retirasse as palavras da ceia o que a liturgia transmitiria?

Penso a mensagem mais significativa da ceia como Corpo e Aliança.Assim como Cristo se deu por nós devemos nos dar pelo outro, por isso a ceia transmite uma mensagem de um para com o outro: “este é o meu corpo dado a você” e de igual maneira “esta é a aliança que tenho com você”. Minha vida é sua e a sua é minha. Mensagem de pertencimento, pois há somente um pão e os que dele participam formam um só corpo. (1 Jo 3:16; 1 Cor 10:17)

Se toda nossa liturgia levar as pessoas a um comportamento de platéia, público, auditório e expectadores e somado a isto, se os figurais como púlpito, pregação, ministro de louvor, a disposição das cadeiras e o programa transmitirem uma mensagem de que alguns servem (ministram) e outros assistem, o tipo de envolvimento conseguido dos membros desta comunidade será apenas de expectadores.

Porque o rito e o ambiente promovendo mais o programa do que a vida comunitária e do que as relações interpessoais, num contexto que não compreende o programa como um serviço ou obrigação a Deus, pode-se acabar ressaltando no desenvolvimento social desta comunidade, um individualismo e descompromissado para com o outro.

A igreja precisa de um ambiente possível para que cada pessoa perceba que ela é única, mas não exclusiva.Que cada crente ao sair de sua igreja, após aquele tempo maravilhoso de culto, esteja consciente de que pertence a um corpo, tem co-responsabilidades.

Penso que a mensagem oral e litúrgica da igreja deva desafiar as pessoas para que se abram para a vida e para o outro. Torne-as gente que crê apesar de suas fragilidades, limitações, e da volúpia do mundo injusto.

A graça é garantia suficiente do amor de Deus e se revela indiscutivelmente nas relações de fraternidade; de carinho.

Como penso a igreja do futuro (?).


- Um espaço de oportunidades para todos se compartilharem.
- O mestre aquele que desperta a vida de Cristo no discípulo e menos preocupado em passar conhecimento.
- O apologeta aquele que defende prioritariamente a vida e o amor, e com habilidade em colocar a doutrina a serviço dos homens. Que considere heresia o desprezo pela vida.
- Crente ou salvo aquele que torne em seu viver a realidade de Cristo e não aquele confessa um credo.
- O culto uma celebração da vida e contemplação de Cristo no outro.
- A confissão pública uma declaração de amor e comprometimento com Cristo e não um assentimento intelectual de uma declaração de fé.
- O pastor hábil na arte de acolher, menos orador e mais ouvinte.
- Ministro de louvor alguém com mais alma de poeta do que profissional da música.

Enfim, enquanto não desfrutamos do novo céu e nova terra onde habita justiça, vivamos cada dia com graça e esperança, produzindo paz e gerando vida.




terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

A nova morte de Deus

A morte de Deus já foi preconizada por Nietzsche e até por muitos teólogos. Infelizmente, muitos que deviam viver em comunhão com o Senhor continuam matando-o. Há igrejas e crentes formalistas, que se dedicam ao lado institucional e organizacional do cristianismo em que o que vale é o trabalho da igreja. Uma pessoa se converte e logo é adestrada para se envolver intensamente com as atividades da congregação, transformando a igreja num fim em si mesma. Ali, trabalha-se tanto para a obra de Deus que se esqueceu do Deus da obra – ou seja, mataram o Senhor e, em seu lugar, foram colocados eventos e muita ação dos membros. É o evangelho pragmático e institucionalizado de muitas igrejas históricas.

Há também igrejas que reagiram a esse ativismo mecanicista em busca de uma experiência espiritual, segregando as outras co-irmãs – a quem chamam de ativistas –, como se não tivessem o Espírito Santo. A busca do “poder” acaba satisfazendo a vida mais emocionante, valorizando mais a experiência carismática do que o próprio Deus que, afinal das contas, é quem a concede. No vácuo causado pela morte de Deus, criaram outro, que pudesse lhes dar poder de fazer milagres e curar com hora marcada. Neste caso, enquadram-se muitas igrejas pentecostais e carismáticas.


Há também aqueles que hoje são fortes em oferecer um Evangelho que mais parece mercadoria, disponibilizando bens simbólicos da religião para satisfazer as pessoas em seu projeto de vida boa. Mataram Deus, transformando-o em servo, em mercadoria barata, oferecida em troco de uma boa oferta, também chamada sacrifício. Temos aqui as igrejas neopentecostais.


Ultimamente, tem surgido um outro movimento que provisoriamente tenho chamado de “adoracionismo”, que segue de perto o profetismo místico descrito por Max Weber. São aqueles crentes que curtem um “transe” de meditação gospel – gostam de viver no “monte da transfiguração”, vivem da contemplação no meio de louvores que elevam sua alma ao sétimo céu, mas se desligam do cristianismo de uma vida real, comprometida com os valores éticos bíblicos. Vivem adorando a Deus, mas na realidade podem tê-lo matado para dar vazão ao seu próprio sentimento de bem estar interior. É como se fosse uma ioga evangélica, uma catarse de fim de semana.


Mas Deus é vivo e real. Ele é Deus, soberano; devemos tê-lo como nosso Rei, reconhecendo nossa limitação, nossa finitude, nossa corrupção. Devemos nos render aos seus pés e viver para alegrá-lo, agindo com cristãos neste mundo que precisa de exemplos concretos de uma vida com significado além do mero antropocentrismo que deseja reduzir Deus ao tamanho de nossos desejos ou angústias. Cristianismo fora disso significa mesmo a morte de Deus.

Lourenço Stelio Regaé teólogo, educador e escritor.

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Já não se fazem pastores como antigamente

Depois de 30 anos de ministério trabalhando em igrejas locais e numa grande denominação brasileira, mais 32 anos no exercício do magistério teológico, tenho refletido sobre o que dizem membros e líderes de muitas igrejas a respeito da atuação pastoral. E fico cada vez mais perplexo com o que presencio. Hoje, muitas ovelhas procuram ficar distantes de seu pastor por acreditarem que, ao se aproximarem do ministro, vão ouvir algum sermão ou receber uma tarefa. Aí, concluem que pastor só serve para dar bronca ou se aproveitar de mão de obra útil e barata disponível nas igrejas – e ainda pagam a conta no fim do mês, dando o seu dízimo.

Outras ovelhas demonstram estar cansadas de ver o narcisismo de seu pastor que, sempre cheio de si, faz elogiosas menções ao seu próprio nome sem qualquer vermelhidão na face. Mas há ainda casos em que o pastor, em vez de pastorear, cuidar do rebanho, acaba como que um verdadeiro gerente da congregação. Ele agenda eventos, determina prioridades e supervisiona todas as atividades do rebanho, como um verdadeiro executivo dos púlpitos. O controle é tão grande, e muitas vezes exercido com mão de ferro, que o que chamam “obra de Deus” passa a ser mais importante que o próprio Deus. Para estes, o cristianismo deixou de ser vida, para ser apenas trabalho maçante.


É possível também observar que muitos acabam agindo como despachantes do Senhor. Há pastores e líderes que acreditam piamente que apenas a sua oração é que tem acesso livre e desimpedido a Deus. Assim, tendem a transformar suas ovelhas em servos do ministério, em vez de levá-las a depender de Deus. E o que dizer dos pastores “showmen”, que tranformam o culto em espetáculo? Para estes, minúcias como a data de aniversário ou o problema familiar de um determinado fiel passam em brancas nuvens. Só se lembram da ovelha quando a vêem no culto.


Todavia, ser pastor é muito, muito mais do que isso. Pastorear é ter sede pela convivência; é cultivar relacionamentos; é interessar-se por saber como está cada ovelha – quais são seus dilemas, suas ansiedades, suas angústias e até mesmo suas falhas, para poder ajudá-la no aperfeiçoamento de vida. Ser pastor é acordar de madrugada para orar pelos membros da congregação, por suas famílias. Ser pastor é depender de Deus para conseguir levar a sobrecarga do ministério, é partilhar suas atividades com um grupo de discipuladores.


É, já não se fazem pastores como antigamente...

Lourenço Stelio Regaé teologo, educador e escritor.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Não quero ser o menor!

Ontem decidi não obedecer minha agenda. Por conta disso, fiquei em casa com minha mulher e as crianças. Fiz de tudo um pouco. Dei expediente pastoral e paterno ao mesmo tempo, pois é aqui que percebo a energia do texto em que Deus é simbolizado por uma galinha, quando disse: “Debaixo das minhas asas estareis seguros”. Meus filhos se alegraram com a segurança oferecida. E, é claro, também tive tempo para deixar um pouco de lado o obreiro, o pai, o profissional, para ser somente o marido-amigo.Depois que foram todos dormir, permaneci por mais um tempo na sala. Vivi aqueles momentos em que nossa mente está liberada para o inusitado, o novo. Deitado no divã da minha própria consciência, me surepreendi pensando naquele momento em que Jesus declarou para seus discípulos: “Quem quiser ser o maior, seja o menor de todos” (Mateus 20.26).

Pode até parecer loucura, mas após um bom período de reflexão cheguei à conclusão de que não quero ser o menor. Tenho visto no meio evangélico um grupo muito grande de pessoas que, por conta da necessidade de serem “o menor”, deixaram de sonhar com grandes projetos, de desejar melhores condições de vida e até mesmo de se preparar para assumir posições mais altas e de maior responsabilidade, seja na igreja ou na sociedade de um modo geral. Para muitos cristãos, ser “o menor” acabou se tornado um enclausuramento, um estilo de vida quase essênico. Afastaram-se de tudo e de todos, sem se dar conta de que estamos num mundo em constantes e profundas mudanças, e que exige o mesmo de nós.


No afã de ser esse “menor”, muitos se afastaram e outros criaram uma visão negativa em torno da busca do saber e da cultura. Afinal, dizem eles, “a letra mata”. Em relação ao mercado de trabalho, por exemplo, temos muitos servos de Deus frustrados, e outro desempregados – infelizmente, nem sempre por falta de vagas, e sim, de capacitação profissional. De certa maneira, no meio evangélico, isso é gerado pelo misticismo em torno da tal busca, sem fundamento bíblico, por ser “o menor”. Não! Definitivamente não quero ser esse menor. Quero ter o direito de desejar o melhor para minha vida, para minha família e também para o meu ministério. Espero ter a oportunidade de um aperfeiçoamento teológico e lingüístico em outro país, desenvolver uma visão cultural e espiritualmente relevante sobre a engrenagem que rege a vida humana. Um mestrado e doutorado, quem sabe.A percepção exata do que somos e do que podemos ser é o que realmente configura o foco da mensagem de Cristo naquele dia aos discípulos da Galiléia. Fomos chamados para servir alguma coisa a alguém. Esse é o chamado de Cristo. Fomos convocados para oferecer algo e não para vivermos no redemoinho da mediocridade. Deus sempre desejou o melhor para o homem, e por isso, não creio que Jesus estivesse convidando os discípulos a viver a “teologia da hiena”, tão bem expressa num desenho animado de minha infância, no qual o personagem repetia constantemente: “Oh, vida! Oh, céu! Oh, azar!” Esse parece ser o lema daqueles que buscam ser o “menor”, fora da interpretação correta das palavras do Mestre.


A proposta de Jesus era diferente desse evangelho oco, vazio e revestido de falsos sentimentos de humildade. Ser o menor, então, não é ver as coisas dando errado ou viver andando para trás. É na verdade o oposto disso. Ser o menor é dar-se a si mesmo em favor dos outros. Ser o menor é construir possibilidades de vida coletiva e não de afundamento social; é dar ao outro o que se tem alcançado no ser, e não privar-se de ser o que o outro, por situações adversas, não é.


Ser o menor é chegar o mais alto que conseguir, o mais longe que puder, sem contudo esquecer que, quando necessário, devemos descer e dar a mão ao que ficou embaixo, voltar atrás e levantar aquele que, por algum motivo, tenha caído, ou como disse o próprio Mestre: “Quem quiser ser servido, que sirva a todos”.


Quero ser o menor ao estilo apóstolo Paulo que, mesmo diante dos desafios, soube ser grande e ser servo. Quero ser o menor sob a perspectiva paulina, onde o ontem que foi ruim só será proveitoso mediante os acertos promovidos hoje, tornando possíveis as realizações propostas para o amanhã. O desafio não é ficar por baixo remoendo os erros e os fracassos, e sim, tirar lições proveitosas deles. Dar a volta por cima, como se diz. Ou como diria o próprio Paulo: “Esquecendo-me das coisas que para trás ficam, prossigo para o alvo da soberana vocação”.


Ser o menor, em última análise, consiste então em saber que devemos servir a todos indiscriminadamente. Isso equivale a ter o que oferecer e a quem oferecer, pois, do contrário, será impossível ser o menor sem ter a quem – ou ao quê – servir.


Roberto Santos é bacharel em teologia e pastor aspirante na Igreja Metodista Wesleyana .